Entrevista: Rama Ruana, banda de reggae juiz-forana, fala sobre a trajetória de mais de 25 anos

Em conversa com a Tribuna, Rama Ruana conta bastidores da carreira, relembra a história e fala sobre a emoção de receber a medalha Geraldo Pereira


Por Mafê Braga*

28/08/2025 às 07h00

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Rama Ruana durante a entrega da medalha Geraldo Pereira (Foto: Arquivo Pessoal / Rama Ruana)

Com uma junção única entre o reggae jamaicano, o rock progressivo e a música brasileira, Rama Ruana é uma banda juiz-forana composta por Evandro Cruz (voz e flauta), Ricardo Noronha (baixo), Marcelo Magaldi (bateria), Bruno Machado (teclado) e Bruno Tardio (guitarra). Os artistas, ativos no cenário musical desde 1999, produziram composições, como como ‘Transição’ e ‘Flores brancas’, que conquistaram um público fiel.

Em 2004, a banda gravou de maneira independente o primeiro CD, o “Rama Ruana volume 1”. Já o segundo, “Rama Ruana volume 2”, foi lançado em 2008 e gravado no Rio de Janeiro, em parceria com Hamilton Augusto e Top Cat Produções Artísticas.
Na última quinta-feira (21), o Rama Ruana recebeu a Medalha Geraldo Pereira no Plenário do Legislativo de Juiz de Fora, que honra pessoas físicas e jurídicas que se notabilizaram na produção e no engrandecimento de manifestações artístico-culturais e sociais.

Em entrevista à Tribuna, o baterista Marcelo Magaldi conta sobre os bastidores da trajetória de mais de duas décadas da banda, que tem a influência do trabalho de diversos artistas, como  Bob Marley, Pink Floyd, Gilberto Gil e Milton Nascimento.

Tribuna de Minas: Como nasceu a Rama Ruana e quais foram as principais influências musicais no início da caminhada?

Marcelo Magaldi: A banda Rama Ruana nasceu num festival estudantil, no Colégio Cristo Redentor, na Academia de Comércio, em 1998. A gente teve a ideia porque gostava muito de reggae. A princípio, fui eu e o Rafael, por isso, o nome da banda é Rama. E depois, chegaram os outros integrantes. A principal influência da banda no começo era o reggae, Bob Marley, Peter Tosh, Banu Eyler, entre outros. E Juiz de de fora faz parte, ‘né’? Como a gente mora aqui, vive muito do que acontece aqui. A história do músico Geraldo Pereira também é um exemplo a ser seguido, uma história de luta por se tratar de um homem negro, que veio de uma classe social mais baixa e conseguiu chegar ao nível nacional através das suas músicas.

O som de vocês tem uma identidade própria. Como foi o processo de construir esse trabalho autoral em Juiz de Fora?

O nosso som foi sendo construído, ‘né’? A gente, no começo, tocava covers de outras bandas que a gente gostava e, com o nosso desenvolvimento no instrumento, as composições começaram a surgir. Assim, começamos a criar uma identidade sonora com os instrumentos que tínhamos na banda. Isso foi crescendo e acabou que, em determinado momento, a gente estava tocando mais música nossa do que dos outros. Aí, a gente resolveu acreditar que as nossas músicas tinham potencial. E o que foi legal é que a galera, o público, se identificou com as nossas músicas, com as nossas letras e essa troca fez a gente acreditar que podíamos fazer mais músicas próprias.

Quais foram os principais caminhos que construíram até chegar a esse nível de reconhecimento – em termos de shows, repertório e envolvimento com o público juiz-forano?

Eu acredito que um dos principais caminhos que a gente construiu foi a ligação com o público. A possibilidade de tocar em várias casas de show aqui de Juiz de Fora, tocar fora da cidade também. E eu acho que, tendo um trabalho autoral, isso fica um pouco mais fácil pra gente poder criar essa identidade com o público, ‘né’? Porque muita gente toca cover e, com isso, não conseguem criar essa identidade que a gente conseguiu criar. Além disso, as nossas músicas eram feitas a partir do que a gente vivia, junto com o nosso público. Então, esse elo foi sendo construído, e eles sempre foram fãs muito fiéis. Não é à toa que a gente ‘tá’ aí há 27 anos tocando! Todas as vezes que a gente toca, é sempre um prazer poder rever alguns amigos que tem muito tempo que a gente não vê, mas sempre tem aquele público fiel, ‘né’? A galera que nunca abandonou a gente e que gosta do nosso som.

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Evandro Cruz (voz e flauta), Ricardo Noronha (baixo), Marcelo Magaldi (bateria), Bruno Machado (teclado) e Bruno Tardio (guitarra) integram a banda (Foto: Divulgação)

Vocês sentem que a cena cultural local nutre e dialoga com o reggae ou houve resistência no começo?

Juiz de Fora sempre teve uma cena de reggae muito presente. O público, o pessoal em geral sempre gostou muito. Um dos principais motivos pra gente ter montado uma banda foi isso: Juiz de Fora sempre teve um público de reggae muito fiel. Teve uma época que tinha mais de dez bandas de reggae na cidade, através do movimento Reggae Mineiro, um movimento que a gente também encabeçou. Não é à toa que Juiz de Fora é considerada a capital do reggae mineiro, ‘né’? Porque várias bandas internacionais sabem que tem público aqui, sabem que o pessoal gosta de reggae e vem tocar aqui na cidade.

O reggae é um gênero marcado por mensagens de resistência, espiritualidade e crítica social. Como vocês enxergam o papel da música nesse sentido hoje?

O reggae é uma música de protesto, uma música de lamento, uma música dos negros, dos negros jamaicanos, dos guetos, uma música que surgiu na favela, em Kingston, surgiu nos bairros pobres. Então é uma voz do negro, uma voz de resistência. Através dessas críticas sociais, as pessoas conseguem acreditar num mundo melhor. Não é à toa que o Bob Marley foi considerado um ícone da música no mundo inteiro. Através da mensagem que ele propôs de esperança, de crítica social, de vontade também de querer vencer na vida, de querer achar o seu mundo, as letras acabam que viram uma espécie de incentivo para as pessoas poderem acreditar num mundo melhor.

Quais temas vocês mais gostam de abordar nas composições?

Nas nossas composições, a gente costuma abordar temas diversos. Elas falam de amor, esperança, política, crítica social e natureza, porque todos nós somos partes da natureza, ‘né’? Nossas músicas abordam, também, a vida cotidiana, o que a gente vê no nosso dia a dia. Tudo isso nos inspira a compor!

O que representa a Medalha Geraldo Pereira para vocês? Vocês esperavam esse reconhecimento? 

A medalha que a gente ganhou representa muito porque de uma forma ou outra a gente se sente orgulhoso de poder ter contribuído pra cultura da cidade. Recebê-la na Câmara é mais emblemático ainda. Eu acho que essa conquista, esse reconhecimento é importante pra valorização da música reggae na cidade, pois como eu havia dito, Juiz de Fora é uma cidade que tem muito reggae, tem um público muito forte de reggae. Inclusive, já teve vários festivais, várias bandas internacionais já se apresentaram aqui. E isso só fomenta mais a cena no local, ‘né’?

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Evandro Cruz, do Rama Ruana, banda originada no final dos anos 90 (Foto: Divulgação)

Quais são os próximos projetos e planos da Rama Ruana após essa conquista?

O próximo projeto é continuar tocando. A gente ‘tá’ tocando de uma maneira um pouco mais branda, mais tranquila, até por conta da situação da vida mesmo, ‘né’? Mas a gente sempre ‘tá’ tocando, sempre procurando também fazer músicas novas. A gente tem um projeto de fazer um terceiro disco, um terceiro álbum, e a gente espera fazer isso daí no decorrer da vida.

Que mensagem vocês gostariam de deixar para os fãs e para os jovens artistas que estão começando em Juiz de Fora?

A mensagem que a gente gostaria de deixar para os jovens artistas é acreditar no seu potencial, acreditar na sua música, acreditar, fazer com verdade, fazer bem feito, ‘né’? Procurar criar vínculo com o público, porque é isso daí que fortalece o artista. E que a gente possa ver mais bandas de reggae surgindo na cidade e que possamos estar sempre em contato com essa música que nos proporcionou momentos como esse de receber a medalha Geraldo Pereira.

*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli

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