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Gilmara Mariosa: ‘O primeiro pároco da cidade foi um homem negro’

Pesquisadora se dedica a estudar as práticas religiosas de matriz africana em Juiz de Fora, presentes desde sempre na cidade


Por Mauro Morais

28/06/2020 às 06h50- Atualizada 28/06/2020 às 09h12

Gilmara Mariosa com o livro resultante de sua dissertação de mestrado, “Negras memórias da Princesa de Minas” (Foto: Fernando Priamo)

Tiago Mendes Ribeiro era seu nome. O primeiro pároco de Juiz de Fora tornou-se nome de rua, mas teve sua trajetória e sua raça apagadas pela narrativa oficial. Em seu livro “Negras memórias da Princesa de Minas: Memórias e representações sociais de práticas religiosas de matriz africana”, resultado de sua dissertação de mestrado em psicologia social, a pesquisadora Gilmara Santos Mariosa retrata o padre e uma irmandade formada por negros escravizados e libertos e práticas religiosas ainda hoje marginalizadas pelo racismo, fenômeno com o qual também se depara em seu doutorado em percurso, para o qual entrevistou tradicionais mães de santo da cidade, testemunhas de uma religiosidade onipresente como os negros que fundaram a cidade.

Da mesma forma que a narrativa oficial invisibiliza os negros na fundação da cidade, você identifica uma tentativa de silenciamento histórico das práticas religiosas de matriz africana em Juiz de Fora?
Há um desinteresse por parte dos pesquisadores da área em realizar estudos sobre as práticas religiosas de matriz africana no século XIX. Não se encontra praticamente nada. Ainda há estudos que atribuem à Dona Mindoca, uma umbandista renomada, porém branca e oriunda de outra cidade, a fundação da umbanda em Juiz de Fora, no início do século XX. Um município que contava com 60% de negros no período da sua fundação teria uma mulher branca e de fora como a precursora dos cultos afro?

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O que é possível contar sobre essas práticas no século XIX e no início do século XX na cidade e como elas reagiram ao passar dos anos?
Juiz de Fora teve no século XIX uma Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, formada por negros escravizados e libertos. A irmandade ajudou a construir a Igreja do Rosário, hoje localizada no Bairro Granbery. O primeiro pároco da cidade, que, aliás, apoiou muito essa irmandade, foi um homem negro, Padre Tiago Mendes Ribeiro. Juiz de Fora tem uma raiz umbandista fundamentada no Canjerê, que foi uma prática precursora da umbanda na cidade.

Em sua pesquisa de doutorado, você retratou as tradicionais mães de santo da cidade. Há uma diferença na aceitação social dessas mulheres em relação às benzedeiras? E como fica o legado deixado por elas hoje?
As benzedeiras são mais aceitas que as Mães de Santo, pois as primeiras se identificam como católicas, mesmo usando práticas africanas em suas benzeções, tais como uso de ervas. Os legados de ambas estão ameaçados por diferentes expressões do racismo. As benzedeiras estão envelhecendo e não tendo para quem passar os seus saberes, correndo risco de serem extintas. Já no caso das Mães de Santo, apesar de precursoras das religiões de matriz africana na cidade, hoje enfrentam violências diversas por conta do racismo religioso, vindas principalmente de praticantes de religiões neo-pentecostais. Há um processo de embranquecimento da umbanda que deve ser visto não só como expansão da fé, mas também precisa ser analisado sob a ótica de um estratagema do racismo. Apesar disso tudo, a força dessas mulheres é fundamental na manutenção das tradições de origem africana na cidade, que é de suma importância para a população negra, fortalecendo no enfrentamento ao racismo.

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