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Paulo Mendes Faria expõe Jardim das delícias no CCBM


Por MAURO MORAIS

18/09/2014 às 06h00- Atualizada 18/09/2014 às 12h06

A criação, o paraíso e o inferno. Formas lúdicas e cores vibrantes escondem a sensualidade e, de alguma forma, a crueldade imposta pelo pintor Hieronymus Bosch em seu “O jardim das delícias terrenas”. Produzido nos anos iniciais do século XVI, o quadro propõe uma vista ocidental e cristã das diferentes etapas da vida, ainda que subverta o purismo ao abusar das cenas de sexo e pesar a mão na nudez. Apesar de, em sua descrição, o quadro parecer chocante, tudo nele é harmônico e bastante próximo da ideia que temos hoje do belo. A arte, assim, dribla o discurso enfático e exalta a experiência estética. Em “Jardim das delícias”, exposição que abre nesta sexta-feira, às 19h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, o artista visual Paulo Mendes Faria faz o mesmo percurso. “Em 2014, com uma linguagem diferente, resolvi fazer uma visão minha do que seria o meu ‘Jardim das delícias'”, anuncia.

Sem a pretensão e a preocupação de ilustrar as etapas da vida na Terra, Mendes Faria se apega à ludicidade da tela de Bosh, que em muito dialoga com sua trajetória. “Repito muito as coisas. Se começo a desenhar círculos, uso mil deles. Isso é uma característica do meu trabalho, e começou quando observei os tapetes mineiros, dos teares, com seus risquinhos. No meu trabalho, esses riscos também aparecem, como se fossem códigos de barra”, conta. Reunindo trabalhos recentes elaborados esse ano e outros que representam seus mais de 40 anos de carreira, o artista apresenta, na mostra, uma tela de cinco metros, instalações com objetos feitos em EVA, em um formato próximo de árvores, e outros quadros, de diferentes tamanhos e técnicas. “Todos os meus trabalhos levam diversos materiais”, pontua.

Brincadeira de verdade

Ressiginificando sucatas e discutindo os formatos, o artista leva, por exemplo, uma pequena esfera (seria uma bola de pingue-pongue?) para a tela, em conversa com a tinta. “Digo que não é pintura, mas também não é escultura, apesar de ter três dimensões. Chamo de ‘esculpintura'”, brinca. O que mais chama atenção, tanto na atual exposição quanto na trajetória de Mendes Faria é sua destreza ao trabalhar com um emborrachado tão frágil e bastante vulgarizado nos dias de hoje. O EVA no trabalho do artista sai do artesanato e ganha espaço no cubo branco pelas cores e sua flexibilidade. “Não quero ficar caracterizado como o cara que cola borrachinha. Isso é muito chato. Utilizo diferentes materiais, mas como o EVA sempre foi utilizado para decoração e festa, acaba chamando mais a atenção das pessoas. Chego a dizer que não é EVA, é etileno vinil acetato”, comenta.

Segundo o artista, sua preocupação é investigar o misto de tudo que suas criações podem ser, sem ter que, obrigatoriamente, optar por um suporte (escultura, pintura ou desenho). “Gosto muito do que o Mário Quintana diz, que as crianças não brincam de brincar, elas brincam de verdade. A minha pintura é isso, uma brincadeira de verdade. Tem a ver com o colorido, com o lúdico”, explica ele, que tem a cidade no coração e também na certidão de nascimento. “Fui feito na Ilha do Governador e me levaram para nascer em Juiz de Fora”, diz ele, que com cerca de um mês voltou para a Zona Norte do Rio de Janeiro e voltou para passar férias junto de seus parentes mineiros. “Hoje estou no meio do caminho, em Petrópolis”, conta o artista autodidata, com passagem pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro e pela Escola de Artes Visuais Parque Lage.

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JARDIM DAS DELÍCIAS

de Paulo Mendes Faria

Abertura nesta sexta, às 19h

Centro Cultural Bernardo Mascarenhas

(Avenida Getúlio Vargas 200)

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