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Leitores e mercado se abrem para o debate sobre as mulheres na literatura

Ano marcado por lançamentos e homenagens promete não deixar esfriar o debate


Por Mauro Morais

18/02/2018 às 07h00

A poetisa indiana Rupi Kaur é uma das autoras mais lida no mundo (foto: divulgação)

A parcial dos livros mais vendidos de 2018, publicada pelo portal PublishNews, especializado no mercado editorial, aponta para a presença, numa listagem de 20 títulos, de apenas três autoras, dentre elas a poetisa indiana Rupi Kaur, que também se encontra na lista do ano anterior. Em 2017, por sua vez, são cinco as autoras, uma delas, a cantora Rita Lee com sua autobiografia. No ano anterior, oito escritoras aparecem no ranking, entre elas, a britânica Jojo Moyes, com dois títulos – “Como eu era antes de você”, na primeira posição, e “Depois de você”, na terceira. Em 2015, novamente oito mulheres constam na lista dos 20 livros mais vendidos no Brasil, sendo que a criadora do fenômeno dos livros de colorir Johanna Basford soma duas posições, e a juiz-forana Isabela Freitas surge com seus dois primeiros livros: “Não se apega, não” e “Não se iluda, não”.

Desigualdade que se repete ano a ano e contra a qual luta o projeto Leia Mulheres, iniciado em 2014, nos Estados Unidos e importado para o Brasil no ano seguinte. Presente em Juiz de Fora desde 2016, o clube de leitura de livros escritos por mulheres chama atenção para uma discussão que crescentemente tem ultrapassado os limites da academia para balizar eventos, prateleiras e interesses.

“Acredito que hoje em dia o setor de marketing tem prestado mais atenção a blogs, instagramers literários, clubes de leitura e booktubers porque muitas das tendências literárias saem desses canais. Servem de termômetro para identificar o interesse em certos temas ou falta de livros de determinado nicho. Aí depende do mercado absorver essa tendência”, comenta a livreira e consultora Juliana Gomes, responsável por traduzir o #readwomen2014 da escritora britânica Joanna Walsh para o português, ao lado das amigas Juliana Leuenroth e Michelle Henriques. “Espero que deixemos o legado da universalidade da escrita da mulher”, defende Juliana. “É importante perceber que mulheres escrevem romance, suspense, poesia, ficção científica, fantasia e não-ficção. O importante é ler essas autoras sem colocá-las em um nicho de literatura feminina e sim literatura.”

Para a estudante de psicologia da UFJF, youtuber e coordenadora do Leia Mulheres em Juiz de Fora, Letícia Zampiêr, as estatísticas confirmam a desigualdade observada no universo dos livros. “Quantas mulheres você vê nas premiações literárias nacionais? Nas listas de mais vendidos? Nas indicações de livros para o vestibular? Nas listas de melhores livros da literatura? Esse cenário está mudando, mas a passos lentos. Porque mesmo quando mulheres aparecem, são quase sempre brancas, heterossexuais, de classe média e do eixo Sul-Sudeste. Isso é um grande problema”, discute, negando haver o que poderia se denominar de literatura feminina. “Assim como os homens vêm de locais diferentes, com histórias diferentes e coisas diferentes para dizer, as mulheres também. Falar em uma literatura feminina implica uma literatura masculina, e isso não existe. Algo que me incomoda profundamente nessa discussão é a noção de que livros escritos por homens dizem de questões de todos os seres humanos e que livros escritos por mulheres só falam para mulheres. É claro mulheres passam por situações e questões particulares, por conta da posição e dos papéis sociais que lhes são impostos. E isso deveria importar e falar a todos! Não só às mulheres”, questiona.

Mulher plural

Retratada na objetividade dos noticiários e na sutileza das relações diárias, a condição da mulher, de acordo com a escritora e editora Anelise Freitas ainda hoje exige punho cerrado. “Certas produções acabam ficando reféns de falar da realidade que é ser mulher, de sentir medo o dia todo – em casa e fora dela -, de não reconhecer nosso próprio corpo em meio à padronização imposta socialmente, de como não podemos nos expressar livremente. A mulher está presa a seu próprio corpo que deve ser e portar-se de um determinado jeito”, comenta a autora de “Pode ser que eu morra na volta”, publicado pela Edições Macondo, que coordena ao lado de Otávio Campos e Fernanda Vivacqua. “Não consigo me distanciar da minha condição de mulher ao escrever porque também não consigo me distanciar dessa condição no ambiente acadêmico, não consigo me distanciar dessa condição em casa, não consigo me distanciar dessa condição enquanto mãe, não consigo me distanciar dessa condição em uma entrevista. Agora, é importante perceber na literatura feita por mulheres as distintas poéticas e vozes em contato que essa poesia – digo poesia, porque é o circuito que eu mais percorro – produz. Ser mulher é pluralíssimo, e essa condição se mostrará na escrita de cada uma de nós de uma maneira diferente. E aí está a questão, porque um homem não se distancia da sua condição de homem, mas não falamos em uma literatura masculina. Talvez, essa seja mais uma questão, e não uma resposta.”

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‘Só falta te cuspir na cara’

Num ano de altas expectativas, o país vê chegar às livrarias o premiado “Karen”, da portuguesa Ana Teresa Pereira; “Baratas”, estreia da ruandesa Scholastique Mukasonga; “Desmoronamentos”, da poetisa e contista Micheliny Verunschk; e “Oryx e Crake”, novo título da canadense-fenômeno Margaret Atwood, dentre outras obras de autoria feminina, reafirmando um cenário de distintas vozes e dicções. Dona de um discurso ácido e, sobretudo, comprometido com a liberdade que só brota em terreno de igualdades, Hilda Hilst ajuda a iluminar o assunto na homenagem póstuma que a Festa Internacional de Paraty, a Flip, lhe faz em julho deste ano. “Existe um grande preconceito contra a mulher escritora. Você não pode ser boa demais, não pode ter uma excelência tão grande. Se você tem essa excelência e ainda por cima é mulher, eles detestam e te cortam. Você tem que ser mediano e, se for mulher, só falta te cuspir na cara”, defendeu a escritora paulista em entrevista ao amigo Caio Fernando Abreu para a “Revista A-Z”, em 1990.

Para Juliana Gomes, do Leia Mulheres, Hilda Hilst é exemplo de escritora acima de quaisquer rótulos. “A Flip ter maior participação de negros e mulheres apenas mostra que os leitores têm interesse por esses autores, apenas está mostrando o leque de opções que a literatura tem, seja estrangeira ou nacional. Os autores dessas minorias que tiveram destaque na Flip desse ano como Conceição Evaristo, Paul Beaty, Maria Valéria Rezende são de qualidade incontestável, e isso vai além de manter sempre os mesmos nomes em festas literárias e prêmios. Estava mais que na hora de ter mais mulheres e negros em uma das festas literárias mais importantes do país e Josélia Aguiar conseguiu nos trazer isso”, diz, referindo-se à maior abertura sentida no evento após a chegada da nova curadora, que permanece neste ano.

“Apesar de esse perfil da Flip de 2017 ser muito válido, acredito ser paralelo ao feminismo comercial que muitas marcas têm vendido hoje em dia. É ótimo ter representatividade? É. Mas o que isso muda te fato, no cotidiano dessas pessoas? Fazem uma festa literária com negros e mulheres protagonizando, mas no resto do ano botam eles nas prateleiras do fundo da livraria. É a mesma coisa na vida como um todo. Dão um mínimo de representatividade, como uma política do ‘pão e circo’, sem que se faça mudança estrutural de fato”, pondera Letícia Zampiêr, do Leia Mulheres de Juiz de Fora.

Mais fortes

“Penso que a perspectiva das editoras independentes é importante porque vemos hoje editoras em várias partes do interior do Brasil, que vêm para mostrar a produção não só de mulheres, mas de outras minorias. O mercado é um lugar onde os agentes trocam bens, a partir da demanda de oferta e procura. No mercado editorial esses agentes são, praticamente, os mesmos: quem procura e quem oferta são xs poetas, xs escritorxs. Então, eu acho que a gente deveria dominar não só o espaço de escritora, mas também o de produção (editorial). Uma amiga disse, recentemente: ‘Se eles não quiserem nos publicar, abrimos nossa própria editora’. Talvez o mercado editorial explicite não o preconceito da vida real, mas ele seja o preconceito da vida real”, pontua Anelise Freitas. “Toda mulher que está inserida nesse meio editorial vai ter que politizar em maior ou menor grau (quanto mais privilégio, menos opressão, a conta é essa)”, acrescenta.

Espalhados por todos os estados brasileiros – exceto Acre e Mato Grosso – o Leia Mulheres, que em Juiz de Fora se reúne no primeiro sábado do mês, às 14h, na Biblioteca Redentorista, aponta para a força do indivíduo diante da opressão de um sistema que sugere, dia após dia, continuidades. Casa do sensível, as páginas que abrigam palavras se configuram, portanto, como relevante eixo da transformação que protestos e debates propagam.

“É difícil falar sobre o feminismo hoje porque, apesar dos avanços inegáveis, ainda estamos a anos luz de uma equidade. Parece que andamos um passo para frente, dois passos para trás. Com o momento político atual, no Brasil e no mundo, temo que os poucos direitos que conquistamos desde o sufrágio universal sejam retirados, pouco a pouco. Apesar disso, sou otimista. O que temos visto são mulheres que se recusam a se calar. Isso desde as mulheres de Hollywood denunciando assédios e pedindo salários iguais até os coletivos feministas das escolas secundárias. E mais do que isso, mulheres que antes eram silenciadas dentro do próprio feminismo, como as negras e as trans, por exemplo, têm se organizado e reivindicado seus lugares de fala”, comenta Letícia Zampiêr, para logo concluir: “O terreno é árido, a luta é difícil, mas juntas somos mais fortes”.

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