Cientistas conversam com público em bares no primeiro Pint of Science de JF

Evento reúne 18 especialistas e pesquisadores em três dias de festival. Provocar reflexões e divulgar pesquisas acadêmicas são os objetivos dos organizadores

Por Por Julia Campos, estagiária sob supervisão da editora Isabel Pequeno

12/05/2018 às 07h00 - Atualizada 12/05/2018 às 13h38

O coordenador do Pint of Science em Juiz de Fora Lucas Miranda (à esquerda) e o sócio do bar Arteria, Luan de Carvalho Rocha já são parceiros no Ciência ao Bar (Foto: Marcelo Ribeiro)

Sabemos que conversa de bar transita por vários assuntos em uma noite (ou um dia), sem seguir um roteiro. Fala-se da vida, de dinheiro e amores, contam-se casos engraçados e inusitados o tempo inteiro em todas as mesas – e ainda sobra tempo para filosofar. Mas você já imaginou um bar inteiro falando apenas de ciência? É exatamente essa a ideia do Pint of Science, ou dose de ciência em português – um festival nascido na Inglaterra em 2013, que acontece simultaneamente em 21 países e que, no Brasil, ocorrerá em 56 cidades entre os dias 14 e 16 de maio. Juiz de Fora está, pela primeira vez, inserida na programação do evento.

Dezoito pesquisadores e especialistas, de diferentes áreas, estarão divididos em nove painéis, três por dia, um em cada bar. Na cidade, o festival desembarca nos bares Arteria, Brauhaus e Na Garganta Pub. Todos os painéis terão início às 19h30 e têm previsão de término às 21h.

“O Pint of Science é uma tentativa de tirar os pesquisadores dos laboratórios e das universidades e levá-los para conversar diretamente com a população em um lugar que já é, naturalmente, mais descontraído, informal, para popularizar o conhecimento científico”, explica o coordenador do evento em Juiz de Fora, Lucas Miranda. “Quando há cortes orçamentários no campo das pesquisas, e a população não se manifesta, é porque ela não sabe a importância da ciência”, comenta.

Lucas explica que o formato do evento não se parece com uma aula ou uma palestra, e sim com um bate-papo, em que cada especialista fala de 20 a 25 minutos sobre o tema proposto. “Os mediadores fazem provocações, e depois o público tem espaço de uma hora a uma hora e meia para esclarecer dúvidas. Não é preciso inscrição, e é gratuito”, informa o coordenador do Pint. A maior parte da programação da primeira edição do evento em Juiz de Fora é voltada para a área de humanas. Lucas explica que o fato ocorreu por acaso, visto que outros cientistas, de outras áreas, não poderão comparecer. A programação foi montada em parceria com a Diretoria de Imagem da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Confira a programação:

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Pesquisa com células-tronco

Doutor em Biotecnologia e professor da UFJF, Carlos Maranduba falará sobre pesquisas com células-tronco de diferentes fontes de tecidos humanos (Foto: Olavo Prazeres)

O professor no Instituto de Ciências Biológicas e Presidente do Comitê Interno de Biossegurança, ambos da UFJF, Carlos Maranduba, é um dos pesquisadores que integram os painéis do Pint of Science, e estará presente no evento no dia 15 de maio no bar Na Garganta. Ele conversará sobre pesquisas com células-tronco de diferentes fontes de tecidos humanos. “As pessoas têm muitas dúvidas sobre o uso potencial das células-tronco, de onde elas são retiradas. Muita gente não sabe, por exemplo, que da gordura descartada de uma lipoaspiração há um grande potencial para recolher este tipo de célula para a própria pessoa. Também há possibilidade de isolamento de células nos dentes de leite, tecido do cordão umbilical… este material serve tanto para pesquisa quanto para utilização terapêutica. Eu vou colocar este assunto de fontes alternativas e o potencial delas para qualquer dúvida que possa aparecer”, adianta.

Maranduba comanda estudos clínico-moleculares em doenças genéticas humanas, pesquisas com célula-tronco de diferentes fontes de tecidos humanos e para produção de biomateriais. “Em uma pesquisa mais avançada, tiramos os minerais e as células do osso bovino. Podemos pegar as células da polpa do dente de uma pessoa, colocamos nesta matriz do osso bovino e conseguimos reconstruir o tecido ósseo novamente, mas agora com células humanas. Outra pesquisa, iniciada agora com cartilagem, parte deste mesmo princípio.” O primeiro estudo citado por Maranduba foi patenteado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

“Apesar de as pesquisas nas universidades serem voltadas para a sociedade, existe um certo distanciamento ou um problema de divulgação. O evento é uma oportunidade e um desafio de levar este conhecimento com linguagem acessível, para que as pessoas possam tirar as suas dúvidas, o que é fundamental”, ressalta ele.

A escritora e jornalista da Tribuna Daniela Arbex estará presente no primeiro dia do Pint of Science, falando sobre a Loucura na Sociedade, também no bar Na Garganta. Daniela escreveu o livro “Holocausto Brasileiro”, que teve 300 mil exemplares vendidos, e narra as histórias de pacientes que viveram no maior hospício do Brasil, o Hospital Colônia , onde aconteceram 60 mil mortes. “Estou feliz em poder falar de questões fundamentais, como a saúde pública e mental, a construção da saúde mental no Brasil e de que forma a gente lida com isso”, diz Daniela, que divide o espaço com a psicanalista Rita de Cássia de Araújo Almeida, que falará sobre “Medicalização da vida: uma política contemporânea para lidar com o mal-estar”.

Um bom negócio

O Bar Arteria, que, tradicionalmente, recebe o Ciência ao Bar, abraça o Pint of Science em suas três noites. Para um dos sócios do estabelecimento, Luan de Carvalho Rocha, o festival é vantajoso para empreendedores, organização do evento e público. “As pessoas vão, consomem e, ao mesmo tempo, ficam em silêncio para prestar atenção na pessoa que está falando e participam muito”, destaca Luan.

Nos mesmos moldes do Pint Of Science, o Ciência ao Bar leva, quinzenalmente, cientistas e pesquisadores de Juiz de Fora para conversar com o público sem formalidades. O projeto, nascido em agosto do ano passado está crescendo. “A gente percebe um interesse cada vez maior das pessoas. Atualmente não precisamos ir atrás de gente para poder participar e apresentar o evento, porque os próprios professores já nos procuram.”

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