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Cada vez mais diretores buscam trabalhar com atores não profissionais

O desejo de registrar as reações da pessoa, do ator e da atriz em si, e não da personagem, é uma das características do cinema contemporâneo

Por Carime Elmor

12/02/2018 às 14h32

O desejo de registrar as reações da pessoa, do ator e da atriz em si, e não da personagem, é uma das características do cinema contemporâneo

Há uma tendência de hibridização entre o cinema de ficção e o documentário. As classificações se confundem. Isso me faz pensar nos motivos de muitos realizadores estarem buscando trabalhar com atores não profissionais, visando a um caráter de plena realidade. Talvez não mais criando personagens, mas buscando escolher aqueles que já existem na vida real e inserindo-os em suas narrativas. Alguns filmes surgem, inclusive, a partir do registro de uma pessoa, suas histórias de vida e a interação com o ambiente em que vive, construindo uma narrativa ficcional com camadas de realidade. Mas qual o lugar das atrizes e atores dentro deste panorama, sobretudo aqueles e aquelas que estudam teatro e atuação como uma carreira?
Quando fiquei sabendo da oficina de Direção de Atores, que aconteceu na Mostra de Cinema de Tiradentes em janeiro, pensei na importância e no pouco espaço que se é dado a pensar neste assunto, envolvendo ainda teste e preparação de elenco. O instrutor de São Paulo, Eduardo Bordinhon, é ator de teatro e cinema, faz parte da Companhia de Teatro Acidental (SP), além de ser professor e pesquisador de direção de atores. Na oficina, que aconteceu ao longo de quatro dias da mostra, ele conseguiu um feito que muito desejava, que foi o de ocupar as 20 vagas da oficina quase metade para atores e metade para realizadores, estabelecendo esse vínculo entre diretor e elenco, que, por incrível que se possa parecer, não é muito próximo.

O movimento de aproximação do cinema com o teatro tem acontecido aos poucos, demonstrando uma vontade dos atores em se prepararem para atuar no cinema, por ser, talvez, uma arte que cresce no Brasil e que poderia ser espaço de oportunidade e experimentação para a classe que trabalha com teatro. “Quando dou aula de interpretação para cinema, muitos alunos perguntam sobre quais outros cursos eles deveriam fazer na área. E sempre digo: parem de fazer curso de atuação, atuar vocês já sabem, o que vocês precisam aprender é a linguagem do cinema. Poucas escolas de ator têm esse módulo. Então, comecem a fazer curso de cinema por uma dupla vantagem, às vezes você vai ser o único ator/atriz da turma, então todo mundo vai querer fazer exercício com você. E você vai entender, de fato, o que compõe a linguagem cinematográfica.”

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De volta ao Cinema Novo

O movimento da arte contemporânea em buscar um material do concreto, da realidade, para suas produções, é uma retomada do que sempre ocorreu em filmes por uma escolha de gênero e estilo. “Isso não é novo. Eisenstein já fazia os filmes dele buscando o operário, porque ele queria o corpo daquela pessoa e sua vivência, com as marcas dos homens e mulheres que trabalhavam nas fábricas. Esses vestígios do real eram elementos que ele queria trazer para o cinema. Pensando o cinema como foto, era o desejo de registrar esses corpos”, diz Bordinhon. Trazendo essa reflexão para a produção cinematográfica brasileira entre os anos 1960 e 1970, dentro do Cinema Novo, ele pensa nas obras do Rogério Sganzerla como exemplo. “Os filmes do Sganzerla, para mim, têm um paralelo muito forte com o teatro pós-dramático, que possui uma instância do performático. Ou seja, o que lhe interessa registrar são corpos fazendo essas ações e performances. Muito do que acontece no filme do Sganzerla se deve a ele e a Helena Ignez se amarem, ele tinha um desejo profundo em filmá-la, e ela, em ser filmada por ele. Tinha esse encontro entre esses corpos.”

Até mesmo os filmes biográficos estão sendo pensados de outras formas para se contar sobre corpos que já existem, e não mais apenas partindo de um ator que se assemelhe fisicamente sendo treinado a reproduzir trejeitos dos personagens reais. Um bom exemplo é “Não estou lá” (2007), filme biográfico sobre o compositor Bob Dylan, em que vários atores, de gêneros, idades e fisionomias diversificadas, são usados para “ser” Bob Dylan. “A gente tem muito esse fetiche do ator que virou o personagem. Quando se pensa o ator, pensa em se agregar coisas, mas o processo é inverso: como, a partir do meu próprio corpo, eu consigo me descamar a fim de que apareçam outras reflexões e outros corpos? O ator pode ser outra coisa sempre a partir do que já é”, reflete Eduardo Bordinhon.

A busca pela aproximação do real, do registro documental, também aponta para uma descrença em relação às técnicas para se chegar a uma atuação em que seja quase imperceptível o caráter de ficção. O desejo de registrar as reações da pessoa, do ator e da atriz em si, e não da personagem, é uma das características do cinema contemporâneo. Dessa forma, convidar atores não profissionais, mesmo realizando testes de elenco, é considerado mais justo com seus próprios anseios estéticos e narrativos. Principalmente quando os filmes são realizados em um recorte social muito específico, dentro de comunidades e culturas que possam construir o filme junto aos realizadores.

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