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Coral da UFJF homenageia mães que perderam filhos

Coro grava versão de “Angélica”, de Chico Buarque, composta originalmente para Zuzu Angel, que teve o filho assassinado pela ditadura militar


Por Júlio Black

07/04/2021 às 07h00- Atualizada 07/04/2021 às 07h39

O Coral da UFJF lançou em 31 de março, em seu perfil no Instagram (@coraldaufjf) e em seu canal no YouTube, uma versão gravada de forma virtual da música “Angélica”, composta por Chico Buarque. O artista criou a canção em homenagem à estilista Zuzu Angel, que na época (início dos anos 70) lutava para denunciar o assassinato de seu filho, Stuart, cometido pelos instrumentos de repressão da ditadura militar que comandou o Brasil entre 1964 e 1985.

Além da homenagem à estilista – morta em 14 de abril de 1976, em um acidente automobilístico, sem ter conseguido encontrar os restos mortais do filho -, a publicação do Coral lembra as mães que também choram pelos filhos mortos nas ruas ou dentro de casa, de fome, de bala perdida, entre outras tantas tragédias cotidianas que eventualmente ficam relegadas às estatísticas.

A regente do Coral da UFJF, Hellem Pimentel, conta que o vídeo foi o primeiro trabalho audiovisual realizado pelo coro, ainda que seja o segundo a ser publicado – a primazia coube à versão de “Nada será como antes”, de Milton Nascimento, lançado em dezembro para celebrar os 60 anos da UFJF e que também está na playlist do Coral da UFJF no YouTube. Foi a maneira – assim como a de tantos coros e artistas espalhados pelo mundo – de continuar com suas atividades.

“Quando se estabeleceu o isolamento social, retomei o trabalho do coro de maneira virtual ainda no primeiro semestre, e pesquisei como coros do mundo todo estavam trabalhando, para não ficarmos parados. Estamos tentando equilibrar tudo isso mantendo nossos ensaios semanais e uma produção musical de forma virtual, já que não podemos nos apresentar ao vivo”, explica. Assista ao vídeo abaixo:

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Duro aprendizado

Como a única forma de gravar seria com todos mantendo o isolamento social, Hellem passou a pesquisar formas de realizar as gravações com qualidade. A regente destaca que eles buscaram iniciar o projeto virtual com uma música que já estivesse no repertório do Coral da UFJF, e “Angélica” já se encontrava no rol das apresentações do coro desde 2019.
“Começamos a gravar em agosto, e foi muito trabalhoso. Todos tiveram que aprender a trabalhar com novas ferramentas. Primeiro gravamos o áudio, e depois o vídeo em cima dessas vozes, com todos ainda entendendo como trabalhar com esse aplicativo”, diz. “Gravar e ouvir sua voz é muito diferente de quando estamos juntos.”
Ainda segundo Hellem, o trabalho de edição de áudio e vídeo foi feito por dois bolsistas, com sua supervisão. “Um bolsista fez o trabalho de sincronização das vozes, e eu dava algumas orientações, e outra bolsista foi a responsável pela edição do vídeo. Montamos um roteiro com o que queríamos mostrar com o vídeo, com o objetivo de que fosse histórico e atual. Pensamos não apenas na Zuzu Angel, mas também nas mães que perdem seus filhos diariamente, por isso temos as imagens das mães e movimentos ligados a essas questões.”

Luta contínua

Ao mesmo tempo, eles aproveitaram para gravar o segundo trabalho audiovisual, em homenagem aos 60 anos da UFJF, e só depois finalizaram a versão para “Angélica”, que consideraram pertinente ser lançado em março, no Mês da Mulher.
“Nós temos essa luta e pauta constantes, em busca de respeito, igualdade de direitos. E quando pensamos na Zuzu enquanto mulher e mãe, ela mostra essa força de lutar, de não se calar, e de encontrar maneiras criativas de colocar sua voz no mundo”, pontua Hellem. “Ela tem essa importância histórica que nos faz pensar nessas mães e mulheres em geral que buscam sua voz e lugar, que não se deixam calar.”
“Lançar o vídeo em março serve como homenagem e lembrança de luta que ganha novos contornos e que continua por aí. Mesmo sendo sobre a história da Zuzu e uma homenagem a ela, é um lugar para se pensar todas as mulheres e mães que estão em busca de seus filhos. É mostrar não só a singeleza, mas também essa luta e garra constantes”, acrescenta a regente, sem esquecer que a escalada da violência nas últimas décadas, em que crueldades como as cometidas contra Stuart Angel não estão mais escondidas nos porões da ditadura.
“É triste e angustiante, depois de tanta luta, conscientização e estudos que são cada vez mais constantes, ainda nos deparamos com essa realidade, até pior em alguns aspectos”, lamenta. “Receber todos os dias a notícia de que uma criança morreu de bala perdida, ou por outros motivos, tem esse lado mais angustiante de perguntar ‘por que ainda está assim?’. Por isso a importância de se colocar essas questões em pauta por meio do coro, com cada um trazendo a sua voz”, reforça. “Nós conhecemos a história de uma pessoa que sumiu na época da ditadura, das pessoas não saberem o que aconteceu e não poderem enterrá-la.”

Feedback emocionado

Em menos de uma semana na internet, o vídeo de “Angélica” já teve mais de dez mil visualizações no Instagram, e outras 1,5 mil pelo YouTube. “Praticamente 99% do feedback que recebemos eram de pessoas emocionadas, que tiveram que parar o vídeo no meio para recuperar o fôlego, que estavam em prantos, emocionadas”, revela Hellem, lembrando que já trabalham um terceiro vídeo, em fase de edição. “O retorno foi além do que esperávamos. Apesar do formato de coro virtual, da distância física entre as pessoas, entendemos que conseguimos tocar uma memória intelectual e afetiva. A palavra ‘emoção’ foi uma das mais constantes nas respostas que tivemos, sentir empatia das pessoas foi muito importante. Todo o trabalho que tivemos para gravar ‘Angélica’ valeu a pena com esse retorno, que veio ainda de várias páginas que compartilharam o vídeo.”

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