Juiz-foranos com estúdio no Rio de Janeiro vencem premiação nacional de design

Por Mauro Morais

07/03/2018 às 07h00 - Atualizada 07/03/2018 às 07h28

Felipe Vargas, Fernando Fernandes e Flavia Araujo formam o F Studio, especializado em arquitetura e design, com sede na extinta Fábrica Bhering (Foto: Divulgação)

À pergunta sobre o que seria o contemporâneo – termo tão subjetivo quanto virtual -, os móveis dos juiz-foranos Felipe Vargas, Fernando Fernandes e Flavia Araujo respondem com agudeza, como a dizer que se trata da capacidade de olhar para trás e para frente em igual medida. Eleita como melhor peça de mobiliário do ano, na noite da última segunda (5), a Estante Plana do trio que assina como F.Studio acena para o passado e para o futuro.
Mostra-se frontalmente influenciada pelo moderno design brasileiro, sem perder de vista a multiplicidade que se impõe na era tecnológica com seus centros urbanos excessivamente globalizados. “Nossas influências são mais antigas, como Geraldo de Barros, Sérgio Rodrigues e Jean Gillon, o móvel moderno”, reconhece Fernando, para logo acrescentar sobre a atualização que trazem: “Estamos sempre invertendo as escalas, readaptando os usos. O desenho remete ao urbano, brincando com o olho, com vários materiais. Essa estante representa a F.Studio. Foi um estudo de composição muito grande.”

Complexa: criação premiada conjuga espaços vazios e cheios, utilizando-se de linhas, planos e volumes (Foto: Divulgação)

Produzido em madeira maciça (freijó), ferro, couro, aço-carbono, latão e concreto, o móvel de quase dois metros de altura elabora paralelos e perpendiculares linhas e planos, com a maioria de seus espaços vazios. “Essa estante é resultado de uma experimentação e foi desenvolvida para uma feira que teve no ano passado, a Made (Mercado, Arte e Design, de São Paulo). Expomos e concorremos a uma premiação na feira, e ela ganhou. A ‘Casa Vogue’ viu e indicou na categoria mobiliário”, conta Fernando, sobre uma das mais importantes premiações do setor, que esse ano homenageou o veterano arquiteto Paulo Mendes da Rocha na cerimônia realizada no Masp (Museu de Arte de São Paulo), cujo projeto arquitetônico, um dos mais imponentes e respeitado do país, leva a assinatura da italiana radicada no Brasil Lina Bo Bardi.

Criado há quase cinco anos, o estúdio tem se destacado no cenário nacional com projetos que fazem dialogar arquitetura e design, seus principais interesses. “É uma forma interessante de trabalhar. Nossos projetos de arquitetura têm influência do mobiliário. E nosso mobiliário tem esse lance do conceito dos vazios, que é próprio da arquitetura”, defende Fernando, apontando para a amplitude de um escritório que avista o Cristo Redentor e espraia-se pelas montanhas mineiras, onde o trio se encontrou, nos corredores do curso de arquitetura do Centro de Ensino Superior (CES/JF). “A gente trabalha junto no conceito, mas também temos muito chão de fábrica, desenvolvendo as peças em Juiz de Fora. Parte do processo começa com as três cabeças e refinamos tudo na fábrica.”

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Numa extinta fábrica de chocolates, Felipe, Fernando e Flávia formalizaram o encontro profissional. “Começamos na Bhering (Zona Portuária do Rio de Janeiro) e ficamos com o ateliê lá até dezembro (de 2017), mas saímos porque nosso escritório já estava funcionando no Alto da Boa Vista. Foi mais prático colocar tudo num mesmo lugar. A Bhering influenciou muito o nosso desenho, tanto por ser um ambiente fabril quanto por ser um local de artistas”, comenta Fernando, denunciando a forte referência artística que as pessoas expressam e que o trio deixou claro quando abriu o ateliê para exposições e fez intercâmbio entre juiz-foranos e cariocas.

Conceito pra todos

Um dos trabalhos mais conceituais da F.Studio, a peça Urbe é um banco formado por um bloquete de concreto sobre uma estrutura em ferro. Trata-se, segundo Fernando Fernandes, de uma referência direta à cidade ao elevar um bloco utilizado amplamente para o calçamento de vias. “A gente se enxerga com uma proposta de desenvolver design contemporâneo, acessível e capaz de ressignificar as peças, que podem ser utilizadas em vários lugares. Os bancos podem ser bancos, mas, se juntos, podem ser mesas. Nossa ideia é não determinar o que o móvel vai ser, mas permitir que ele seja o que a pessoa que adquirir queira que ele seja. Temos a preocupação de que elas sejam desmontáveis, capazes de entrar numa porta, num elevador, de poderem ser utilizadas em vários cômodos”, analisa o arquiteto, nascido em Salvador e criado, desde os 3 anos, em Juiz de Fora. “Somos todos mineiros”, ri.

Apontado por diferentes publicações como sendo a face da produção atual do design brasileiro, o ateliê de Felipe, Fernando e Flávia convive com um presente em que o consumo já não é mais um vilão no universo da criação. Sequer uma quimera. “As pessoas estão pensando mais ao adquirir peças de design, e estão adquirindo mais, também, porque o design está mais acessível. Vejo o hoje de maneira mais positiva”, pontua Fernando. Onde planejam chegar, portanto? “Continuar fazendo o que a gente faz, com amor, e sempre evoluindo”, responde Felipe. “Aprimorar nosso desenho e fazer com que mais e mais pessoas tenham acesso a ele”, confirma Fernando.

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