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Lindolfo Hill, um ‘elemento comunista’, ganha biografia

O militante e ex-vereador de Juiz de Fora é protagonista do livro “Lindolfo Hill – Um outro olhar para a esquerda”, de Alexandre Müller Hill Maestrini


Por Gabriel Ferreira Borges

05/09/2021 às 07h00

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Lindolfo Hill foi eleito vereador em Juiz de Fora para a legislatura 1947-1950, mas teve o mandato cassado após o Governo Eurico Gaspar Dutra encerrar as atividades do PCB (Foto: Arquivo pessoal)

Em novembro de 1950, o delegado-geral de Ordem Pública de Juiz de Fora, José Henrique Soares, encaminhou ao delegado especializado da Ordem Pública de Belo Horizonte, João Luiz Alves Valadão, fotografias de elemento subversivo. “Atendendo solicitação constante de vosso radiograma de 6 do corrente datado, remeto-vos inclusas fotografias de Lindolfo Hill, conhecido elemento comunista e ora procurado pela polícia”, escreveu, sem delongas. Pouco antes, Lindolfo (1917-1977) fora eleito vereador em Juiz de Fora para a legislatura 1947-1950 pelo Partido Comunista do Brasil (PCB). Entretanto, o mandato seria cassado antes do término, após o Governo Eurico Gaspar Dutra determinar o encerramento das atividades do “Partidão”.

A memória de Lindolfo Hill será resgatada pelo professor Alexandre Müller Hill Maestrini na obra “Lindolfo Hill – Um outro olhar para a esquerda” (Instituto Caio Prado Jr., 250 páginas). A biografia será lançada em Juiz de Fora na próxima terça-feira (7), em transmissão ao vivo, às 18h. “Ele é renegado em Juiz de Fora. Apesar de Lindolfo ter sido cassado, não tem muita homenagem a ele. Um dos meus objetivos é justamente resgatar a sua memória. Depois, vou pedir à Câmara que restitua o título de vereador, já que, no meu entender, foi injustamente cassado”, observa Alexandre, sobrinho-neto de Lindolfo Hill. A única referência à memória do comunista é uma rua no Bairro Santos Dumont, Cidade Alta. A homenagem foi feita em outubro de 1984.

A militância de Lindolfo começou ainda aos 17 anos, quando trabalhava na construtora Pantaleone Arcuri & Spinelli. “O pai de Lindolfo (Carlos José Hill) tinha uma empresa de construção, mas ele morreu quando o filho nasceu. Não consegui saber por que Lindolfo foi trabalhar na Pantaleone. Talvez tenha caído lá por acaso. Ele não conheceu o pai, mas seguiu a sua carreira”, pontua Alexandre. Lindolfo era conhecido entre os demais pedreiros justamente em razão da militância ativa. “Sempre conversava com os companheiros, gostava muito de ler, era informado etc. Lindolfo era uma liderança natural”, acrescenta. Ele, inclusive, presidiu o Sindicado dos Trabalhadores na Construção Civil de Juiz de Fora. O encontro com o comunismo viria nesta época, em 1934.

O PCB então se reorganizava em busca de afirmação diante da promulgação de nova Constituição e, posteriormente, da eleição de Getúlio Vargas. Na ocasião, o “Partidão” realizou, por exemplo, a I Conferência Nacional. A atuação de Lindolfo junto à categoria chamaria a atenção da legenda. A filiação ao PCB viria pelas mãos de Pedro Pomar (1913-1976) – Pomar seria assassinado na Chacina da Lapa, em 1976. “Qual foi a sacada do PCB? Juiz de Fora era uma das cidades mais industrializadas do Brasil nesta época. Havia várias indústrias de calçados e, depois, se instalou uma siderúrgica. A cidade era industrializada e bem perto do Rio de Janeiro”, explica o biógrafo. Lindolfo passou a fazer parte da célula comunista juiz-forana junto a outros como Luiz Zuddio.

Embora a militância comunista atuasse clandestinamente ao menos desde 1927, quando fora criminalizada depois de poucos meses de legalidade durante o Governo Washington Luís, a vida de Lindolfo era o PCB. “O Partidão tinha prioridade na vida dos militantes. Esta era a filosofia. Todos eram irmãos e dedicariam a vida ao partido. Pelo que os documentos mostram, o Lindolfo, assim como outros militantes, era profissional. As lideranças recebiam do PCB e trabalhavam o dia inteiro”, afirma Alexandre. Desde que entrara no Partidão, Lindolfo já não trabalhava mais como pedreiro. Os empregos eram de fachada onde quer que estivesse, fosse São Paulo ou Rio de Janeiro. Há relatos, conta Alexandre, de que Lindolfo trabalhou em uma tipografia e na própria construção civil. “Mas, nesta época, já estava ativo, fazia parte do Comitê Central e todos os custos eram bancados pelo Partidão.”

Uma vida nas sombras da noite

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Lindolfo Hill ao lado da esposa Carmem Barroso Hill no casamento da filha em 1972 (Foto: Arquivo pessoal)

A própria família de Lindolfo reiterou o comprometimento ao PCB em depoimentos para Alexandre durante a pesquisa. “A filha me disse que, caso o partido lhe pedisse para ir para São Paulo, ele iria para São Paulo.” Os filhos sabiam que o pai viajava. Só não sabiam o porquê. “Eles foram criados praticamente pela mãe (Carmem Barroso Hill). Quando voltava de viagem, Lindolfo pegava o trem à noite para não ser reconhecido. Ele vivia apenas durante a noite. Descia em Juiz de Fora, visitava a família e, na noite seguinte, já ia embora novamente.” No entanto, as poucas memórias de infância que os filhos tinham de Lindolfo são agradáveis. “Eles lembram de um pai carinhoso, brincalhão.”

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O “Partidão” deixaria a ilegalidade ao fim do Estado Novo (1937-1945), quando, provisoriamente, recuperou o registro do partido junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Naquele ano, aliás, Lindolfo se candidataria a deputado pelas fileiras do PCB, mas sem sucesso. O militante já era um dos principais quadros do “Partidão” no Brasil, uma vez que integrava a direção nacional ao lado de Luís Carlos Prestes, Carlos Marighella, Diógenes Arruda Câmara, Pedro Pomar, João Amazonas, Maurício Grabois etc. “Havia um seleto Comitê Nacional, eleito pelas convenções, e o Lindolfo sempre fazia parte. Estava sempre ativo. Só que era muito na dele, recatado. Muitos dos militantes comunistas foram ofuscados por figuras como o Prestes, que era muito forte.”

Ainda em 1945, Lindolfo faria parte da delegação do Movimento Unificador dos Trabalhadores no Congresso Operário Mundial de Paris ao lado de Alcy Pinheiro, Pedro Carvalho Braga e Domingos Mano. A militância não passava desapercebida da repressão do Dops. “Membro da comissão executiva do CN do PCB, no Rio, do CE, em Belo Horizonte. Secretário político do CM de Juiz de Fora. Em fins de 1945, representou os trabalhadores brasileiros no congresso operário de Paris. Não era fichado pela polícia na época da ilegalidade. Contudo, segundo a ‘Tribuna Popular’ do Rio, ‘é dos elementos de mais expressão do PCB’ e é o mais jovem membro da comissão executiva do Partido, tendo ‘dez anos de lida partidária’”, registra um prontuário.

Embora a empreitada para ser deputado tenha sido malsucedida, Lindolfo seria eleito para a Câmara Municipal de Juiz de Fora então “como o segundo parlamentar mais votado”, ressalta Alexandre. “Acho que ele sempre acreditou na via institucional, na legalidade. Tanto é que o Lindolfo lutava pela legalidade do PCB. Ele queria a inserção do PCB no esquema democrático. Eu não vi em momento algum qualquer documento ou até mesmo depoimento que apontavam que ele queria pegar em armas.” Entretanto, o mandato de Lindolfo logo seria cassado. O registro provisório do “Partidão” fora cassado em 1947 e, posteriormente, todos os comunistas com mandato no país, suprimidos no ano seguinte. A nova criminalização daria o contexto para o lançamento do Manifesto de Agosto de 1950.

Um juiz-forano na União Soviética

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Alexandre Maestrini é sobrinho-neto de Lindolfo Hill, que conheceu durante a pesquisa para o título “Franz Hill – Diário de um imigrante alemão” (2018) (Foto: Arquivo pessoal)

Quando o Dops o acusava de perambular pelo interior de Minas Gerais, Lindolfo estava, na verdade, a caminho de Moscou em 1952. “A União Soviética preparava lideranças comunistas, para, depois, caso conseguissem chegar ao poder, ter líderes para a revolução”, pontua o biógrafo. O militante foi um dos indicados pelo “Partidão” para estudar, na então União Soviética, história geral do movimento operário, geografia geral, história do Partido Comunista da União Soviética e russo.” Lindolfo voltaria apenas em 1955 ao Brasil, um ano após ser considerado foragido. “Quando voltou, Lindolfo não fazia ideia de onde estava a família, porque ela estava na clandestinidade, os nomes das crianças foram mudados etc. Após chegar ao Rio, ainda ficou um tempo sem encontrar a família.” A esposa e os filhos estavam em São Gonçalo, no então Estado da Guanabara.

Lindolfo ainda fazia parte do núcleo dirigente do PCB quando Nikita Kruschev, então secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, denunciou os crimes de Joseph Stalin. A denúncia repercutiu no alto escalão do “Partidão”. Líderes até então identificados com o stalinismo, como Diógenes Câmara Arruda, João Amazonas e Maurício Grabois, foram afastados da comissão executiva. A ruptura levaria à dissidência de nomes como os próprios Amazonas e Grabois, assim como Pomar, que criariam, em 1962, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), já que, no ano anterior, o PCB havia voltado a ser Partido Comunista Brasileiro. “O Lindolfo seguiu a linha de Luís Carlos Prestes, que era um comunista, mas não falava em revolução armada, como Marighella e Pomar. Ele permaneceu no PCB.”

Ainda que o comunista tenha sido preso inúmeras vezes, diz Alexandre, não há documento que confirme que Lindolfo tenha sido torturado. Mas o biógrafo supõe que o militante tenha enfrentado duros interrogatórios. “Ninguém foi interrogado de boa. A maioria foi sob tortura. O Lindolfo tem vários depoimentos no Dops. Ele conta, inclusive, qual era o nome de combatente. Ele falou coisas que só pessoas sob tortura diriam.” Nos últimos anos de vida, Lindolfo não era mais ativo, ressalta Alexandre. “Ele morava no Méier, no Rio de Janeiro, e não recebia visitas. Era praticamente ele e Carmem. Ninguém mais dava bola para o Lindolfo.” O comunista morreu aos 60 anos, devido às complicações de um câncer de próstata. O próprio enterro de Lindolfo denunciaria a condição de anonimato da vida do militante. “A filha conta que no enterro havia apenas os familiares próximos. Ninguém foi homenageá-lo.” Lindolfo morreu com o PCB ainda na clandestinidade e dois anos antes da promulgação da Lei da Anistia, em 1979.

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