Mau cheiro atribuído a matadouro em JF vira ação popular na Justiça
Ação destaca que falha operacional admitida pela empresa teria contado com postura passiva da PJF, que tem até 10 dias para apresentar laudo técnico oficial sobre origem e impacto do mau cheiro
O mau cheiro que tomou o Bairro Vila Ideal e áreas vizinhas motivou uma ação popular ambiental, com pedido de urgência, na Justiça. O documento que solicita uma fiscalização rigorosa por parte da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) foi deferido parcialmente pela juíza Roberta Araújo de Carvalho Maciel, que determinou que o Executivo tem até dez dias para produzir uma avaliação técnica sobre origem e possíveis impactos do odor.
Caso o prazo não seja cumprido para a entrega do laudo sobre origem, natureza e extensão da poluição odorífera na região, a PJF pode ser multada em R$ 50 mil. À reportagem, a Prefeitura informou que as informações obtidas junto à empresa – e que compõem o relatório técnico – serão entregues dentro do prazo estabelecido. O posicionamento completo está no final desta matéria.
Segundo o processo, a empresa Fripai Alimentos, dirigida pelo vice-prefeito de Juiz de Fora, Marcelo Detoni, teria admitido publicamente a falha na estação de tratamento por seis dias, que resultou no odor na região. Ainda assim, o Município, conforme a ação, teria adotado uma postura passiva, “beirando a omissão culposa”.
Em nota, a Fripai Distribuidora de Carnes Ltda confirmou que o mau cheiro foi ocasionado por uma “instabilidade no pH da lagoa da Estação de Tratamento de Efluentes (ETE)”, que recebeu uma ampliação em “um investimento de mais de dois milhões e meio” a fim de melhorar a eficiência na estação e evitar impactos ambientais. A empresa também destacou o “compromisso com a preservação do meio ambiente” e que recebeu fiscalização dos órgãos competentes. A nota, na íntegra, também se encontra no fim desta publicação.

Processo milionário
A ação apresentada na 1ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias Municipais da Comarca de Juiz de Fora tem como valor da causa R$ 5 milhões. O montante leva em conta a extensão do impacto sobre milhares de moradores, os custos estimados de medidas de correção ambiental e a relevância social do dano que está sendo apurado. Ainda sim, o valor não é definitivo, conforme explica o advogado Jonas Nunes dos Santos Júnior, autor do processo.
“É importante destacar que não existe cobrança imediata de nenhum valor. Este número serve apenas como um parâmetro processual, permitindo que o Judiciário dimensione a gravidade da situação e fixe eventuais responsabilidades no futuro, caso fique comprovada a ocorrência de dano”, esclareceu o advogado. Ele também deixou claro que sua atuação no caso ocorre exclusivamente a fim de buscar uma solução definitiva.
“O autor da ação popular não recebe dinheiro, não tem qualquer ganho pessoal e age em nome da coletividade. A legislação proíbe que o cidadão que propõe uma ação popular receba qualquer valor decorrente da causa”, destaca.
Moradores compartilham percepções sobre mau cheiro
A Tribuna esteve no Bairro Vila Ideal, na quarta-feira (26), e conversou com moradores. A maior parte deles preferiu não se manifestar, outros disseram conhecer funcionários do local e que evitariam comentar para não prejudicá-los. Também houve quem afirmasse que a situação já estaria resolvida.
Antônio Costa, 68 anos, morador do bairro desde sempre, aceitou falar com a reportagem – mesmo sob o olhar de desaprovação de outro idoso ao lado, que preferiu se retirar do assunto: “Prefiro não me meter”, disse, ao completar que a situação já foi resolvida. Mas o cheiro que pairou pelo local, já quase imperceptível na vizinhança nesta semana, ainda causa indignação entre moradores que conviveram com o forte odor. “Vem um domingo almoçar aqui em casa pra você ver. O cheiro piorou: antes era amônia, agora está misturado. Ninguém aguenta. E não sou só eu quem fala, é todo mundo”, desabafou Costa.
Jose Santos, 32, aguardava a primeira aula de futebol do filho na quadra ao lado da empresa, localizada na Avenida Francisco Valadares. “Não estou sentindo o cheiro agora, no período da tarde é pior, com o vento, ele chega até minha casa e invade o quarto.” Para outro morador, que mora no bairro há 48 anos e que prefere não ser identificado, o cheiro atrapalhou a dinâmica familiar e as reuniões em família.
Prefeitura afirma que fiscalizou
A Prefeitura informou que a equipe de fiscalização esteve na Fripai no dia 15 deste mês, após receber denúncias de mau cheiro, constatadas pela equipe no local. Em nota enviada pela empresa ao Município, alegou que o mau odor, causado pela liberação de gás sulfídrico durante intervenções corretivas na Estação de Tratamento de Efluentes (ETE), com troca de equipamentos e ajustes no sistema, seria controlado com o uso de agentes químicos neutralizantes.
O Executivo acrescentou também que não constatou descarte de resíduos na área em frente ao Matadouro. De acordo com o órgão, os efluentes gerados na sangria e no processamento das carcaças passam pelo tratamento obrigatório e, ao final, são despejados no Rio Paraibuna, prática permitida pela licença ambiental.
Veja a nota da PJF na íntegra
“A Secretaria de Desenvolvimento Urbano com Participação Popular (Sedupp) informa que realizou diligências fiscais nos dias 14 e 15 de novembro de 2025 na empresa Fripai Distribuidora de Carnes Ltda, após denúncias de forte odor proveniente da atividade industrial e possível incômodo à vizinhança.
Durante as visitas, foi possível identificar potencial odor na via lateral do imóvel. No dia 15, a equipe técnica foi recebida no estabelecimento, quando a empresa prestou esclarecimentos e apresentou as seguintes informações:
1- A Fripai realizou recentemente uma manutenção corretiva na Estação de Tratamento de Efluentes (ETE), com substituição de equipamentos e ajustes do sistema.
2- O odor percebido decorreu da liberação de gás sulfídrico (sulfeto de hidrogênio), normalmente produzido na decomposição anaeróbia de matéria orgânica durante intervenções em sistemas de tratamento.
3- A empresa informou estar utilizando agentes químicos neutralizantes, visando reduzir o impacto odorífero no entorno.
4- Durante a fiscalização, não foram identificados lançamentos de resíduos em frente ao Matadouro. Os efluentes provenientes dos processos de sangria e manipulação de carcaças seguem para tratamento e, após todas as etapas, são lançados no Rio Paraibuna, conforme previsto em licença ambiental.
5- A empresa comprometeu-se a apresentar laudo de eficiência do sistema de tratamento de efluentes, conforme solicitado na Diligência Fiscal nº 17.227/2025.
É importante ressaltar que o monitoramento ambiental da atividade licenciada é de competência do órgão estadual, a Fundação Estadual de Meio Ambiente (FEAM), responsável por acompanhar e analisar toda a documentação ambiental da empresa, cuja licença está válida até 2028.
A Sedupp segue acompanhando o caso para garantir que as medidas corretivas sejam adotadas e que a vizinhança seja respeitada, reforçando seu compromisso com a transparência e a segurança ambiental no município.”
Veja a nota da Fripai na íntegra
“A Fripai Distribuidora de Carnes Ltda., diante da recente notícia relacionada a um mau cheiro na região da sede da empresa, vem a público esclarecer que realizou a ampliação da sua Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) e que, durante o processo, ocorreu uma instabilidade no “pH” da lagoa da estação, o que ocasionou o mau cheiro reclamado, no intervalo de alguns dias.
A Empresa informa, contudo, que a situação já foi completamente resolvida e que realizou um investimento de mais de dois milhões e meio na sua ETE, justamente com o propósito de melhorar e tornar mais eficiente a estação, sempre visando a evitar os impactos ambientais em relação ao descarte de efluentes no Rio Paraibuna.
A Empresa destaca o seu compromisso com a preservação do meio ambiente e que foi devidamente fiscalizada pelos órgãos competentes, apresentando todas as análises solicitadas dentro dos parâmetros legais.
A Empresa lamenta o ocorrido e reitera a sua preocupação com o meio ambiente e com o bem-estar da população de Juiz de Fora.”
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