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Tecnologia sim, mas com sentido verdadeiro

Jornalista largou tudo e se dedicou a conhecer escolas para entender as práticas pedagógicas


Por Carime Elmor

20/08/2017 às 06h56- Atualizada 20/08/2017 às 10h42

Caio Dib, além de amar café e ser um ávido leitor, com apenas 26 anos, já se tornou referência em Educação e Inovação. O paulistano, graduado em jornalismo, largou tudo aos 22 e passou cinco meses visitando escolas de 58 cidades, em 12 estados diferentes, além do Distrito Federal. Um colecionador de boas práticas em salas de aula e, principalmente fora delas, que impacta o processo de aprendizado oferecido em escolas, a partir de seu projeto “Caindo no Brasil”. As memórias da viagem, com a descrição de inusitadas práticas, ou pequenas ações que transformaram a realidade pedagógica de algum canto do Brasil, estão todas no livro “Caindo no Brasil: uma viagem pela diversidade da educação”. Caio é um dos participantes do “Educação 360” deste ano, um dos grandes eventos em inovação e educação, e desenvolveu uma ferramenta útil e prática para motivar professores a buscarem experimentar o novo. Para encerrar nosso primeiro ciclo da série Educa+, tivemos uma conversa pautada na realidade das escolas brasileiras. O alerta de Caio é: para se criar inovação, é preciso ouvir alunos e professores.

Tribuna: Como e quando começou a seguir o campo da educação? A intenção sempre foi a de impactar positivamente a sociedade?

Caio Dib: Meu pai é professor universitário, minha mãe é estudiosa, enche a casa de livros. Nas refeições, ficamos todos juntos debatendo questões da sociedade. E, no colégio, eu fiz um curso de Comunicação e Educação. Isso me fez pensar: “Nossa, eu quero isso para a minha vida.” E fui para o Jornalismo já para trabalhar com essas áreas. Comecei com projetos em institutos, fundações e mercado corporativo, sempre nesse mundo de inovação em educação. Mas foi em 2013, quando estava no escritório, que comecei a me questionar “o que estamos fazendo se não conversamos com o professor?” Foi aí que a viagem começou. Se eu quero estar perto de quem vai se beneficiar dos meus produtos e serviços, eu tenho que estar nas ruas conhecendo essas pessoas. Descobri que, tanto em educação, quanto em outras áreas, a gente conversava muito pouco com o usuário final. Isso acontece até hoje. Esses dias eu estava em um evento, que é um dos principais em educação e inovação no Brasil: o “Educação 360”. A gente conseguiu fazer duas rodas de conversa com jovens entre 7 e 20 anos. Um evento com grandes caras no palco, falando, e a gente deu espaço para os jovens serem ouvidos. Isso foi um mega diferencial. Precisamos ouvir muito professor, jovens, alunos em geral, para conseguirmos criar soluções significativas em educação. Hoje, meu trabalho é o de buscar boas práticas e tentar trazer o que está acontecendo, no chão da escola, para outros lugares.

– Pode destacar práticas de processos de aprendizagem que conheceu entre as escolas que visitou?

– Uma que eu adoro é o “Prece”, do interior do Ceará. Uma aprendizagem cooperativa, em que os alunos aprendem entre si, e com isso, conseguem entrar na universidade. Manoel Andrade saiu do interior do Ceará e foi para Fortaleza, fugindo da seca. Passou a morar a um quilômetro da universidade federal, e, quando conseguiu se formar em química, pensou: “Quero devolver de algum jeito esse privilégio que tive para o pessoal da minha comunidade.” Ele não tinha tempo de ficar indo e voltando todo dia, então, ele chegou na comunidade e perguntou: “Quem aqui quer acabar o ensino médio?”. Vários já tinham abandonado a escola. Sete levantaram a mão. Ele propôs: “Eu convido vocês para morar em uma casa desativada, eu trago livros didáticos, você que sabe mais letras e você que sabe mais química, um ensina letras, o outro ensina química. Vocês aprendem entre si, e eu venho aos finais de semana tirar dúvida”. Ele não esperava que dos sete, seis entrassem na universidade. Então, estes, pensaram: “A gente teve um privilégio, vamos fazer isso continuar rodando.” Não tinha escola que recebesse os garotos, não tinha professores e educadores dando aulas para eles, mas eles deram um jeito. O projeto chamou tanta atenção da federal do Ceará, que ela adotou esse projeto para si. E chamou tanta atenção do governo do estado, que foi criada uma escola nessa metodologia. Em 20 anos que isso aconteceu, Manoel, com o tempo, descobriu que essa pegada de aprendizagem cooperativa não era exclusiva deles, já acontecia em milhares de países. E na real ele inventou uma metodologia porque tinha um problema e precisava resolver. Esse é um dos projetos que eu mais gosto, justamente por isso, de ser um empreendedorismo de necessidade mesmo. Isso acontece muito no Brasil como um todo.

 

“A experiência de sair pelo bairro falando com as pessoas foi o mais importante, e a tecnologia foi usada depois”

 

– Depois da viagem às escolas e do livro, o projeto Caindo no Brasil continua ativo. Pode explicar melhor no que consiste?

– O Caindo no Brasil tem como objetivo principal dar luz a projetos que fazem a diferença em educação e não conseguem ser vistos, não conseguem entrar na mídia e nos eventos. Então, por um lado, a gente faz curadoria de projetos para eventos. Selecionamos os melhores e os colocamos em um evento que dificilmente estariam, e, por outro, criamos conteúdos de produção de texto, podcasts, vídeos, com boas práticas, teorias e ferramentas para quem quer fazer a diferença local na educação e não sabe por onde começar. A gente olha exatamente para isso: você não precisa destruir as paredes da sua escola e criar grandes salões ou reformar toda a sua grade curricular, para fazer diferença. São pequenos dispositivos, simples, que já podem começar a mudar o modelo de educação que a gente conhece.

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– Quais seriam pequenas ações possíveis de serem aplicadas pelos professores?

– Eu posso te dar dois exemplos: um é de contratos didáticos. Porque, muitas vezes, o professor acha que uma coisa está clara, mas aquele combinado só está claro na cabeça do professor. A partir do momento que você, no começo do seu ano letivo ou semestre, resolve criar acordos e combinados, construindo um contrato didático mesmo, você aumenta o canal de diálogo com aqueles alunos. Eu estive em duas rodas de bate-papo com 40 garotos e garotas dos ensinos fundamental 1 e 2 e médio. E o que eles mais falaram foi: “Queremos mais diálogo com os nossos professores”. Outra ferramenta que adoro, também citada em uma roda de conversa do ‘Educação 360’, é abrir o planejamento do semestre para os garotos. Planejamento do mês, que seja. Uma coisa que eu adoro fazer nas minhas aulas, porque eu estou uma vez por semana dentro de sala de aula para ter essa vivência, é pegar um papel craft, colocar na parede, criar colunas, cada uma sendo um encontro, e aí a gente escreve os objetivos de cada dia. O aluno tem visibilidade e clareza. Ele olha para o papel, lê o que aconteceu na aula passada, lê o que vai acontecer nessa aula e sabe o que vai acontecer nas próximas. Então, ele começa a enxergar as conexões entre as diversas áreas, ver sentido na trajetória de aprendizagem dele. Ou não, ou questionar o professor. Tipo perguntar porque adjetivo está na aula 8, se na aula 2 a gente vai falar sobre uma coisa, que parece, para ele, muito próxima de adjetivo?

“Muitas vezes, o professor acha que uma coisa está clara, mas aquele combinado só está claro na cabeça dele”

– O ensino das escolas é voltado para o ingresso nos cursos superiores. Não seria condizente, então, que trabalhassem mais iniciação científica?

– Acho importante. Há um problema de pesquisa no Brasil. Tanto de investimento, quanto de metodologia. A gente não consegue unir teoria e prática e tirar coisa proveitosa disso. Muitas vezes, fica muito teórico ou muito prático. A gente não consegue refletir sobre a prática a partir da teoria, ou refletir a teoria, a partir da prática. Então, eu acho que isso vem desde a educação básica, desde quando você começa a trazer essa cultura acadêmica, essa cultura de pesquisa, essa cultura de você refletir sobre o que você faz. Tem um projeto Cientista Beta, no Sul, mas funciona em todo Brasil, que incentiva isso: pesquisa científica na escola de educação básica. Ou o Technovation Challange, que incentiva meninas a programarem. Conheci uma menina que fez Technovation Challange, e ela falou: “Achei que era péssima em programação, odiava ciências e, agora, quero ser cientista da computação”.

Caio Dib visitou escolas de 58 cidades do país (Foto: Arquivo pessoal)

– E sobre os desafios dos docentes em motivar seus alunos e inovarem? Há ferramentas que os ajudem a se atualizar?

– Os docentes não têm muito espaço ou recurso para inovar em sala de aula, e tempo, principalmente. O cara que tem três períodos de aula no dia, cinco dias da semana, em uma aula de 50 minutos com 50 alunos, tem muito desafio para inovar. E, muitas vezes, ele nem sabe onde encontrar essas possibilidades. A Caindo no Brasil tenta trazer isso. Inovação, mas inovação com significado. Tem duas frentes: tem os conteúdos abertos, no site caindonobrasil.com.br, no Facebook e em Newsletter semanal. E tem o conteúdo fechado, pago, que é o livro, que conta de maneira mais profunda sobre as iniciativas que a gente conheceu, e tem o Drops Caindo no Brasil, programa semanal de conteúdo via whatsapp feito para ser lido no celular a caminho da escola, ou enquanto você espera o seu almoço. São conteúdos em pdf, vídeo e podcast, curtíssimos, de 2 a 8 minutos, de leituras ou escutas, com teoria, boa prática e ferramenta sobre alternativas educacionais brasileiras. A gente sempre pega um livro ou uma teoria, destrincha, pega o ouro dele, depois, em outro Drops, conta sobre uma boa prática que segue essa teoria, e, no terceiro Drops, você recebe uma ferramenta para se aplicar essa teoria na sua escola e na sua realidade.

– Muito tem se falado sobre o uso de tecnologias não significar inovação pedagógica. Como você reflete sobre isso?

– Não mesmo, não dá para se inovar fazendo a mesma coisa, colocar lousa digital, sendo que o formato da sala e da aula é o mesmo. Quando comecei a dar aula, quebrei muito a cara. Peguei uma turma de produção de projetos, em que os garotos de 10 a 14, juntos, criam projetos para melhorar o bairro. E daí, eu pensei: “Não sei o quanto eles conhecem do bairro, vou levá-los para a sala de informática, abrir o Google maps, e eles vão mapear e criar conjuntamente um mapa, com os pontos que conhecem”, e foi um fracasso. Em dois minutos, eles estavam mapeando a Torre de Pisa. Não compraram a minha ideia. O que a gente fez? A gente pegou o mapa e criou um trajeto para caminharmos pelo bairro. Começamos a conhecer as pessoas, ouvir suas histórias e observar opiniões diferentes. Foi incrível. A partir disso, a gente criou um projeto para fazer um folder com um mapa com os pontos turísticos do bairro para os gringos da Copa do Mundo, que aconteceria em um mês. Usando tecnologia para arrecadar fundos, para diagramar, imprimir e depois distribuir. A experiência de sair pelo bairro falando com as pessoas foi o mais importante, e a tecnologia foi usada depois. O uso da tecnologia precisa ter um sentido verdadeiro, e esse sentido tem que estar compartilhado com o grupo.

 

 

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