Famílias são expulsas de casa por traficantes

Parque das Águas, na Zona Norte, é o maior conjunto habitacional do ‘Minha casa, minha vida’, com moradias para 565 famílias
Famílias moradoras de conjuntos habitacionais do “Minha casa, minha vida” em Juiz de Fora estariam deixando seus imóveis após sofrerem ameaças de traficantes. A situação denunciada no maior residencial do programa no município, o Parque das Águas, na Zona Norte, onde vivem 565 famílias, levou a Caixa Econômica Federal a solicitar ontem “providências urgentes” à Polícia Civil (ver fac-símile). Por meio de sua área de segurança empresarial em Belo Horizonte, a Caixa oficiou a 3ª Delegacia de Polícia Civil a respeito das denúncias recebidas pelo serviço de atendimento ao cliente. As informações são de que moradores teriam deixado seus imóveis para que fossem transformados em pontos de venda de drogas. A situação já era investigada pelo delegado Rodolfo Rolli, titular da 3ª Delegacia, há cerca de três meses. Segundo ele, existem pelo menos cinco casos nos quais traficantes expulsaram famílias. Além do Parque das Águas, o delegado investiga episódios em outras unidades do “Minha casa, minha vida”, na Zona Norte.
Na avaliação do delegado, “a situação é gravíssima. Os principais alvos são as famílias nas quais não há homens. Geralmente são casas onde residem só a mulher e filhos pequenos. Ao receber o pedido da Caixa ontem, Rodolfo Rolli abriu inquérito e comunicou o fato como violação de domicílio em um Registro de fatos policiais (Refap). A denúncia recebida pela Caixa dá conta de pelo menos um imóvel ocupado pelo tráfico e alerta “que outras unidades já foram tomadas e invadidas por traficantes e usuários”.
Apesar da gravidade dos registros, a polícia destaca a dificuldade na apuração dos casos, já que, por medo de represálias, muitos preferem manter a lei do silêncio, vendo, porém, o sonho da casa própria ser destruído. “Aqueles que vêm até aqui pedem anonimato e não oficializam a denúncia”, revelou Rolli, acrescentando que são investigados episódios de casas transformadas em bares, onde também estaria ocorrendo o comércio de entorpecentes.
Segundo a assessoria da Caixa, em Brasília, a denúncia foi recebida pelo telefone 0800-7216268, serviço “De olho na qualidade”, por meio do qual os residentes nos conjuntos habitacionais do “Minha casa, minha vida” podem encaminhar suas queixas. Como o problema era relacionado à segurança, o encaminhamento foi feito à Polícia Civil. Por meio de nota, a assessoria informou ainda que, “com relação ao residencial Parque das Águas, a Caixa Econômica Federal esclarece que, nos casos em que a expulsão da família por ação criminosa for comprovada pela investigação policial, o banco suspenderá as prestações até que a família seja realocada na unidade”.
Mapeamento
Para tentar desmantelar o esquema, a delegacia vem fazendo um mapeamento detalhado de todos os conjuntos. “O que vamos fazer é representar pela prisão destes suspeitos. O problema é que estes saem e, logo, outros tomam o lugar. O que resolve permanentemente é uma intervenção urgente do Poder Público”, disse Rolli.
Sob a condição de terem os nomes preservados, residentes e ex-residentes do Parque das Águas conversaram com a Tribuna e afirmam que, em cada rua do bairro, tem, pelo menos, uma boca de fumo. “De noite, só ficam na rua traficantes e compradores de droga. Quem é ‘de bem’ tem medo até de chegar do trabalho mais tarde. Eu tinha medo de estar em nossa própria casa”, diz uma empregada doméstica, 57 anos, que se mudou há três meses. “Eu sei que não é certo passar o imóvel para outra pessoa, mas não tinha condição de pagar a prestação e outro aluguel.” Um homem de 60 anos também vai deixar o local por conta do medo. “Não tem como viver assim o tempo todo. Não posso criar meus filhos em um lugar onde matar e traficar é tido como normal.”
Em um dos últimos residenciais entregues na cidade, em dezembro de 2012, e onde moram 344 famílias, o Residencial Miguel Marinho, também na Zona Norte, moradores relatam a insegurança para chegar na própria janela de casa. Por conta da situação, famílias já teriam deixado o espaço. “Alguns não tinham a menor condição de pagar um aluguel, então, preferiram ir morar de favor a continuar correndo risco”, diz ela, afirmando que só não toma a mesma decisão por não ter familiares em Juiz de Fora. “A gente finge que não está vendo nada.”
Em um dos apartamentos, criminosos teriam atirado pedras em uma janela, já que teriam achado que aquela família teria denunciado à polícia uma briga ocorrida no conjunto. “Durante a noite, fico em casa com as luzes apagadas para não chamar atenção. Me sinto presa em minha casa”, desabafa uma moradora.
Na Zona Sul, a situação não é diferente. No Residencial das Araucárias, no Bairro Sagrado Coração, moradores também dizem conviver de perto com o tráfico de drogas e com a rivalidade.
PM diz que maior problema é a ameaça
Sobre o policimento nas unidades, a assessoria de comunicação da Polícia Militar informou, por meio de nota, que ele é feito em diversas modalidades, 24 horas por dia. Além disso, são realizadas operações com cunho preventivo e/ou repressivo, sendo observada a necessidade para cada condomínio. “A Polícia Militar atua também de maneira compartilhada com outros órgãos do Sistema de Defesa Social, objetivando proporcionar ainda maior segurança para os moradores dos residenciais mencionados.”
Conforme a corporação, a ocorrência com maior reincidência nos residenciais é a de ameaça, “sendo esta também uma preocupação da Polícia Militar, pois tal postura de uma minoria de moradores pode redundar em algo de maior gravidade, o que motiva a implementar ações preventivas”. A PM reiterou a importância de a população denunciar os casos às autoridades e afirmou que, em relação às solicitações de mais policiamento nesses locais, os interessados devem procurar o 27º BPM, na Avenida Juscelino Kubitschek 401, no Bairro Santa Lúcia.
Adaptação
Na avaliação do diretor-presidente da Emcasa, Luiz Carlos dos Santos, os problemas de violência enfrentados pelos residentes dos empreendimentos do “Minha casa, minha vida” já vêm sendo minimizados. Para ele, a adaptação dos moradores aos novos endereços é o ponto chave para a resolução de conflitos. “Nos modelos anteriores do projeto, não haviam critérios para conduzir estes moradores aos conjuntos habitacionais. Foi necessário um tempo para que as famílias se sentissem alinhadas nesta nova situação. Hoje estes moradores estão fortalecendo os laços. Há ainda problemas, mas são pontuais, e serão resolvidos”. Segundo ele, equipes estão levando aos locais cursos de manicure, educação ambiental, informática e culinária. Além disso, a expectativa é que seja inaugurada, no Parque das Águas, uma escola e uma creche.
Sobre as denúncias de que estaria ocorrendo expulsão de famílias por traficantes, ele disse que os casos precisam ser apurados e ressaltou a parceria entre a administração pública e a Polícia Militar. “É importante destacar que os problemas que aconteceram nas unidades já entregues estão servindo de solução para os empreendimentos que ainda serão entregues: tanto a questão dos vícios construtivos, quando a territorial. Nosso principal esforço é de não tirar as pessoas de suas regiões de origem, de elas não perderem seus vínculos sociais e comunitários.”