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Hábitos ineficazes contra a Covid-19 seguem na rotina de brasileiros

Mesmo com comprovações científicas, medidas que eram recomendadas no início da pandemia ainda persistem; porém, momento pandêmico não permite total relaxamento


Por Elisabetta Mazocoli, estagiária sob supervisão de Luciane Faquini

05/12/2021 às 07h00

Aferir a temperatura na entrada de estabelecimentos, cardápios em QR Code, tapetes sanitizadores e a higienização de todos os produtos vindos dos supermercados são alguns dos hábitos que marcaram os primeiros meses da pandemia. Com o tempo, no entanto, foi comprovado que esses protocolos de segurança são ineficazes contra a transmissão da Covid-19. Mesmo assim, muitas dessas práticas continuam sendo adotadas por indivíduos e por estabelecimentos como parte da rotina de prevenção contra o vírus.

Programa Juiz de Fora Viva, da Prefeitura, não prevê mais a medição de temperatura como obrigatória para entrada nos estabelecimentos, mas medida acaba inibindo entrada de pessoas com suspeita de febre (Foto: Fernando Priamo)

Para o médico infectologista Mário Novaes, a permanência destes protocolos se dá devido ao fato de que as informações sobre o vírus estão em constante mudança. “Nós temos sempre que atualizar nosso pensamento em relação à Covid-19, já que os estudos estão acontecendo agora”, ele explica. Assim, algumas das recomendações que eram vistas como eficazes, anteriormente, continuam sendo usadas e ainda fazem parte da rotina de muitos brasileiros, sem que de fato elas sejam necessárias.

Em Juiz de Fora, algumas dessas medidas já foram liberadas dos protocolos de segurança, como é o caso da medição de temperatura. No programa “Juiz de Fora Viva – Cidade em Movimento”, lançado pela Prefeitura de Juiz de Fora em setembro, essa medida já não é prevista como obrigatória. Os protocolos, no entanto, continuam exigindo a utilização de máscara, distanciamento social e medidas de higiene, normas que o médico concorda que sejam ainda bastante necessárias.

Para ele, há uma razão pela qual muitos estabelecimentos podem ainda optar por continuar adotando essas medidas iniciais. Na sua visão, isso pode acontecer por “mais por uma questão comportamental do que científica”, já que a medida de aferição da temperatura, por exemplo, acaba inibindo indivíduos com febre ou com suspeita de febre de tentarem entrar em locais em que podem ser barrados. Para ele, no entanto, isso pode trazer uma falsa segurança em relação aos cuidados com o vírus, já que, de fato, essas medidas não oferecem maior proteção.

O melhor caminho para o combate da pandemia

Para Mário Novaes, o caminho para o combate do Covid-19 deve ser um: “a vacinação, uso de máscara, evitar aglomeração, higienização das mãos e distanciamento social, nessa ordem”. Essas normas são comprovadas como eficazes e, em sua visão, podem realmente mudar a situação dos brasileiros frente ao vírus.

De acordo com o médico, é preciso reforçar essas medidas o tempo inteiro, já que entre a população também há uma grande parcela que se descuida em relação aos protocolos corretos. Ao observar as ruas da cidade, Mário enxerga que grande parte dessas normas não estão sendo seguidas, e o problema se aprofunda quando fala em relação às taxas de vacinação e do retorno para o recebimento da segunda dose ou das doses de reforço.

Outra questão que o infectologista aponta como muito importante é a do passaporte de vacinação. Para ele, ainda que essa medida esteja sendo pouco discutida no Brasil, ela tem um grande potencial de prevenção no estágio atual da pandemia. Ele explica que a vacinação é uma medida com dois impactos: “o individual e o coletivo, já que previne que a pessoa desenvolva a doença e também a transmita”.

Para o médico, portanto, essa é uma medida que tem evidente efeito junto à população como um todo. Sabendo que o passaporte de vacinação sofre várias críticas em relação ao direito de ir e vir dos cidadãos, ele lembra que especialmente nos momentos pandêmicos se deve sempre priorizar de fato a segurança da população com um todo e não preferências ou interesses de ordem apenas individual.

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Dispensar todos os protocolos não é seguro

Outro aspecto destacado pelo infectologista é que ainda não é seguro dispensar os protocolos. Para ele, as medidas de liberação que estão sendo discutidas e implementadas em alguns estados do Brasil são muito precoces e podem ter efeitos bastante nocivos dentro de poucos meses.

No mesmo sentido, a Vigilância Epidemiológica, da Secretaria de Saúde de Juiz de Fora, orienta que “neste momento da pandemia, a vacinação continua sendo a medida mais eficaz de prevenção, porém mesmo após o recebimento das doses dos imunizantes, o uso de máscaras continua sendo essencial”.

Sobre as liberações, o médico ressalta que, ao negar certos hábitos, a situação se torna muito complexa. “A gente vê que os governos que não tomaram medidas protetivas e optaram por uma liberação maior acabam tendo um retorno alto dos casos, como é o caso de Nova York”. No estado de Nova York, o cenário epidemiológico se agravou bastante na última semana, com as mais altas taxas de transmissão da doença desde abril de 2020.

Sua recomendação de cuidados se estende inclusive às festas de final de ano e ao carnaval. “Pode ser que a situação mude em duas semanas, mas por enquanto acho inviável pensar em grandes festas”, avalia Mário. Além disso, ele recomenda que as famílias que decidirem se reunir mantenham o uso de máscaras, apenas tirando durante as refeições e fazendo silêncio neste momento, já que assim o risco de contágio é diminuído.

Sem previsão de flexibilização de máscaras em JF

De acordo com a Secretaria de Saúde, não há previsão de flexibilização do uso de máscara de proteção na cidade. A pasta informa que seguirá focada no avanço da vacinação e reforça a recomendação de que a população mantenha os cuidados necessários.

A Tribuna conferiu que alguns espaços com alta circulação de pessoas já deixaram de oferecer álcool em gel para a população. Sobre esse problema, a Secretaria de Saúde afirma, ao ser questionada, que “o Juiz de Fora Viva mantém a responsabilidade de estabelecimentos e promotores de eventos disponibilizar dispensadores com álcool 70% (setenta por cento) em locais visíveis e de fácil acesso”. Mesmo assim, com o avanço da vacinação, é possível ver que alguns desses protocolos estão sendo negligenciados.

A variante Ômicron no Brasil

Para o infectologista, apesar do avanço da vacinação, o surgimento de novas variantes é uma prova de que as medidas ainda devem ser mantidas por mais tempo. A identificação da variante Ômicron gerou novamente apreensão entre a comunidade mundial. Sobre o assunto, Mário ressalta que “uma pandemia é fruto de um vírus e de toda uma estrutura social e econômica” e, quando questionado quanto aos motivos do surgimento, afirma que a falta de vacinas para alguns países pode ser um dos motivos para continuarem surgindo variantes.
Para ele, é preciso um pacto mundial para que não continuem surgindo variantes. O infectologista também explica que ainda não se sabe como a variante vai reagir no Brasil, pois cada país tem as suas caraterísticas geográficas e genéticas que podem propiciar ou impedir o contágio.

Ele explica que, por exemplo, a variante Delta foi menos agressiva no país do que se imaginava, já que as outras variantes continuam circulando com mais intensidade. Em todo caso, enquanto não há mais estudos sobre os impactos da variante e a eficácia da vacinação nos casos de contágio, ele recomenda que os protocolos sejam mantidos e reforçados.

A Secretaria de Saúde reafirma que o cenário epidemiológico de Juiz de Fora é monitorado, semanalmente, pelo comitê do programa “Juiz de Fora Viva”, e qualquer informação nova é levada em conta para que sejam pensados os cuidados a serem adotados na cidade.

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