Juiz-foranos relatam falta de médicos, escassez de insumos e longas esperas nas UBSs

Queixas são recorrentes em unidades de diferentes regiões da cidade


Por Fernanda Castilho

05/04/2026 às 06h00

Em Juiz de Fora, usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) enfrentam, no dia a dia de atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), a sobrecarga do sistema, considerada falha sistêmica. Em visitas realizadas em fevereiro e março, a Tribuna constatou relatos recorrentes de falta de médicos, longas filas de espera, escassez de insumos e medicamentos – problemas que comprometem a assistência e o tratamento dos pacientes. 

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Usuários da UBS do Bairro Santa Cruz relatam dificuldades para atendimento (Foto: Felipe Couri)

Segundo uma usuária de 46 anos, que não quis se identificar, a área de cobertura da UBS de Santa Cruz, na região Norte, está sem médico há mais de seis meses. Ela convive com doenças crônicas e, por isso, necessita de acompanhamento médico regular e da renovação periódica de receitas, mas enfrenta dificuldades. Há meses, aguarda a realização de um exame, no entanto, como seu registro no sistema foi perdido, precisou solicitar novamente a inclusão na fila de espera. “Quer dizer que eu vou morrer sem ter uma consulta?”, questiona. Ela relata que, quando um paciente não consegue atendimento na UBS, a própria equipe da unidade encaminha para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima.

Vicente Reis, 66 anos, também afirma ter dificuldades para consultar, renovar receitas e retirar remédios na farmácia da unidade. “O médico de outra área não atende se não for emergência. Mas não adianta brigar com as meninas do atendimento, esse é um problema de gestão. Já que não estou conseguindo atendimento, preciso pagar um médico particular.”

Grávida de seis meses, Patrícia Scaldini, 38 anos, diz que se desloca até o Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF) para realizar o acompanhamento pré-natal. Segundo ela, o agendamento de consultas e a liberação de resultados de exames na UBS de Santa Cruz também são demorados, o que compromete a avaliação clínica. 

Maísca Cristine de Souza, 24 anos, aguardou cerca de duas horas até ser avisada de que a médica responsável não poderia comparecer. “Consegui uma vaga para me consultar com outra médica, que não é da minha área.” Ela relata que, frequentemente, a farmácia da unidade está fechada, o que compromete a retirada de remédios essenciais para idosos e pessoas com doenças crônicas.

A Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) foi procurada pela Tribuna, mas não respondeu até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.

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Fila de espera na UBS do Bairro Linhares (Foto: Felipe Couri)

Morosidade prejudica diagnóstico

A visita à UBS Jóquei Clube I, também localizada na região Norte do município, confirmou um cenário semelhante. Antes da abertura, às 7h, Camila Ribeiro, 28 anos, chegou ao local. Após a triagem, foi atendida por um médico  que a solicitou um exame de ressonância magnética. “Consegui o pedido para o particular, porque eles não dão para o SUS, falaram que não podem. Inclusive, é um exame solicitado há seis meses, mas entrou no sistema, não me chamaram e foi cancelado. Eu não posso esperar mais.”

Com suspeitas de endometriose, ela relata aguardar pelo resultado de um exame preventivo há seis meses. Para o diagnóstico conclusivo sobre sua condição, também precisa de uma consulta com ginecologista e um ultrassom transvaginal. “Pediram para eu voltar outro dia, pois os atendentes disseram que não sabem fazer o agendamento.”

Na semana anterior, Anderson Souza, 37 anos, buscou atendimento na unidade. Segundo ele, embora tenha conseguido se consultar após uma longa espera, devido à ausência do médico de uma das áreas, muitos moradores do bairro ficaram sem atendimento. Após a consulta, como a farmácia da unidade não estava aberta, ele ainda precisaria comprar os remédios receitados.

Falta de medicamentos compromete tratamentos contínuos

Na UBS do Bairro Linhares, região Leste, Larissa de Melo, 27 anos, tentava conseguir uma caneta de aplicação de insulina para sua sogra, diagnosticada com diabetes há dez anos. “Tentamos desde o ano passado pegar esse medicamento no SUS, mas não conseguimos. Levamos ela para uma consulta particular e pagamos por esse remédio, mas e se não tivéssemos condições? Cheguei aqui cedo, mas até agora não me entregaram, disseram que preciso esperar a responsável.”

Ainda na unidade, em meio à extensa fila de espera, Marília Silva, 39 anos, reclamava sobre a demora tanto para receber orientações na recepção, quanto para consulta médica. “Essa demora é assim todos os dias, normalizaram.”

Já na UBS Vila Ideal, na região Sudeste, Dulce Bárbara da Silva, 69 anos, afirma estar satisfeita com o acompanhamento médico que recebe na unidade, porém, tem dificuldade para conseguir os remédios que precisa. “Às vezes, não mandam os remédios, por isso, faltam. Preciso de medicação para pressão alta e para controle da glicose, não posso ficar sem. Quando não tem, preciso comprar do meu bolso. Há um ano não tem o Losartana aqui, procuro mas não tem.”

Problemas na atenção básica em JF são crônicos

Os problemas relatados por quem busca atendimento nas UBSs de Juiz de Fora não são recentes. Reportagem publicada pela Tribuna em agosto de 2025 já denunciava a sobrecarga no sistema da atenção básica, considerada uma falha sistêmica, não um problema pontual. Em diferentes regiões da cidade, usuários relataram longas filas de espera, falta de profissionais para atendimento e escassez de insumos e medicamentos nas unidades. Queixas sobre a gestão de contratos e o planejamento da rede também persistem.

Segundo o presidente do Conselho Municipal de Saúde (CMS), Jorge Ramos, os trabalhadores da rede pública de saúde enfrentam vínculos precários, marcados por contratações temporárias e baixa remuneração, fatores que explicariam a alta rotatividade e a busca por estabilidade na rede privada. Já um ex-conselheiro de saúde, que não quis se identificar, afirma que áreas sem cobertura ou pacientes sem atendimento nas unidades procuram as UPAs, sobrecarregando o serviço de emergência com demandas que deveriam ser resolvidas na atenção básica.

Quanto à atenção secundária, a fila de espera para cirurgias eletivas aumento progressivo ao longo dos últimos anos, chegando a 8.106 procedimentos represados em janeiro, segundo dados da PJF. Pacientes também relataram esperas prolongadas, necessidade de refazer encaminhamentos e exames, além de agravamento de quadros enquanto aguardam consulta e cirurgia.