Fila de cirurgias eletivas em Juiz de Fora chega a 8.106 procedimentos represados em janeiro e segue em alta
Cirurgias eletivas acumulam alta e dobram em cerca de cinco anos; pacientes veem quadro agravar e Comissão de Saúde defende mutirões e mais recursos
A fila de espera para cirurgias eletivas em Juiz de Fora registra um aumento progressivo ao longo dos último anos e chegou a 8.106 procedimentos represados em janeiro, segundo dados da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF/SS). Em relação ao mês anterior, quando havia 7.913 pessoas aguardando, o aumento foi de 193 cirurgias em menos de um mês.
O avanço ocorre em uma trajetória de alta registrada nos últimos anos e acompanhada pela Tribuna: em dezembro de 2021, a demanda era de cerca de 4 mil pacientes; em abril de 2022, passou para 6 mil. Agora, ultrapassa 8 mil, o que representa aproximadamente o dobro em cerca de cinco anos.
Por trás das estatísticas, pacientes relatam esperas prolongadas, necessidade de refazer encaminhamentos e exames e agravamento de quadros enquanto aguardam consulta e cirurgia. Na avaliação da Comissão de Saúde da Câmara Municipal, parte do represamento tem relação com a suspensão de procedimentos durante a pandemia e com a dificuldade de absorver a demanda acumulada. A Comissão defende a ampliação de recursos e maior articulação entre governos, além de medidas como mutirões e a adoção de estruturas voltadas a cirurgias de baixa complexidade, a exemplo de hospital-dia, para reduzir a fila.
A Prefeitura reconhece o aumento da fila e afirma que o cenário é consequência direta da pandemia de Covid-19, época em que os atendimentos eletivos foram suspensos e provocou acúmulo gradativo de pacientes. “Desde então, a Secretaria de Saúde atua para reduzir esse passivo. Em 2025, foram realizados cerca de 3 milhões de procedimentos ambulatoriais e 24 mil cirurgias, com melhoria significativa no fluxo assistencial”, informou em nota.
Na distribuição por especialidade, a maior parte do represamento se concentra em poucos grupos de procedimentos. Segundo os dados, entre os tipos de cirurgias eletivas na fila, as dos aparelhos geniturinário, digestivo e de órgãos da região abdominal, osteomuscular e circulatório somam, juntas, mais da metade da demanda acumulada.
Em sentido oposto, as cirurgias bucomaxilofaciais, torácicas e de glândulas endócrinas registram, cada uma, menos de 100 procedimentos em espera. Já as cirurgias oftalmológicas, como correção de miopia, catarata, glaucoma, ceratocone e descolamento de retina, concentram 697 procedimentos aguardando realização.
‘Saiu do sistema’: relatos expõem entraves na fila de cirurgias eletivas

“Fui diagnosticada com hérnia de disco em outubro de 2024, e o posto do meu bairro encaminhou o pedido de consulta ortopédica para dois hospitais, então, fiquei aguardando. Em junho de 2025, quando fui checar o andamento, a atendente disse que saiu do sistema”, conta a assistente Maria Aparecida de Paiva, 49 anos, moradora da região Norte. A trabalhadora revela que precisou “entrar na fila” novamente, na qual ainda aguarda pela consulta com um especialista e pelo procedimento cirúrgico.
Ela afirma ter realizado uma reclamação sobre a sua situação junto à Ouvidoria Municipal de Saúde, mas conta que, durante o atendimento, alegaram ser um processo demorado. “Minha hérnia evoluiu, já tem mais duas e só vai piorando. É essa a minha situação.”
O aposentado Vicente de Paula Freitas, 71 anos, também morador da região Norte, aguarda por uma cirurgia de hérnia umbilical há cerca de um ano e quatro meses. O paciente relata já ter realizado diversos exames pré-operatórios, como hemograma e eletrocardiograma (ECG). “O problema é que os médicos pedem os exames, faço todos, mas demoram tanto a entregar os resultados que logo perdem a validade, então preciso refazer”, conta.
A espera pelas cirurgias também tem sido longa para Ricardo Möller, 69 anos, morador do São Mateus, Zona Sul. Desde 2024, o aposentado está na fila para realizar duas cirurgias para retirada de pedras na vesícula e nos rins, e uma terceira para tratar o aumento do tecido da próstata. Todos os exames pré-operatórios foram feitos logo quando solicitados, como afirma o paciente, mas perderam a validade e precisam ser repetidos, podendo adiar ainda mais as operações.
Comissão de Saúde defende mutirões e mais recursos para reduzir fila de cirurgias
O presidente da Comissão de Saúde da Câmara Municipal de Juiz de Fora, vereador Antônio Aguiar, analisa que durante a pandemia muitos procedimentos cirúrgicos eletivos foram suspensos para priorizar os atendimentos emergenciais e se acumularam. “Muitos pacientes tiveram agravamento dos seus quadros, precisando, inclusive, de atendimento de emergência. Tivemos uma mistura de níveis de complexidades em um sistema que não estava preparado para poder atender essas condições.”
O parlamentar, que também é médico, avalia o agravamento dos casos como uma questão preocupante, porque converte o que antes seria um procedimento inicial, resolutivo e de baixo custo, em algo que pode se tornar emergencial, elevando os gastos da saúde pública e aumentando o risco para o paciente. O médico também considera a insuficiência de recursos como um dos fatores que contribuem para o represamento desses procedimentos. Dentre as soluções apontadas pela comissão legislativa, estão a maior colaboração entre as esferas federais, estaduais e municipais, além da ampliação de recursos para a saúde.
“Precisamos ver a capacidade dos hospitais para realização de um mutirão, tentar dimensionar o quantitativo de cirurgias que poderíamos fazer para reduzir a fila de espera. Também poderíamos ter um hospital-dia, no qual o paciente interna pela manhã, faz o procedimento e volta para a casa, uma coisa muito simples”, sugere.
A Administração municipal informou que, em 2025, Juiz de Fora destinou 21,24% do orçamento à saúde, acima do mínimo constitucional de 15%. Ainda conforme a Prefeitura, os atendimentos a pacientes de outros municípios – mais de 200 sob referência da cidade – são financiados por repasses dinâmicos do Estado e do Ministério da Saúde, no âmbito da Programação Pactuada Integrada (PPI), sem uso de recursos do orçamento municipal.
PJF não detalha programa federal e sistema ‘Pronto’ fica para o fim do ano
Em reportagens publicadas no fim de 2025 e no início de 2026, a Tribuna mostrou que a fila de espera por cirurgias eletivas em Juiz de Fora manteve trajetória de alta e foi apontada como um dos principais desafios da gestão da Saúde Pública do município para 2026. Na ocasião, a Administração municipal reconheceu o represamento e citou ações previstas para enfrentar a demanda acumulada.
Agora, a Tribuna voltou a questionar a PJF sobre quais medidas estão planejadas pela Saúde para diminuir o tempo de espera em 2026 e quais resultados são esperados. A Prefeitura informou que aderiu ao programa federal “Agora Tem Especialistas” como uma das estratégias para reduzir a fila, com duas etapas já executadas – as quais não detalhou.
Segundo a PJF, a iniciativa integra um conjunto de ações que também inclui análise constante da fila regulada, com priorização de pacientes em maior risco, além da realização de mutirões de procedimentos e de consultas especializadas, que já atenderam quase 25 mil pacientes. A Prefeitura acrescentou que amplia continuamente a rede de prestadores para atender à demanda. “Atualmente, estão pactuados com o município: Hospital Maternidade Therezinha de Jesus, Hospital Universitário, Santa Casa, Hospital São Vicente de Paulo, João Penido, Evandro Ribeiro, Associação dos Cegos e Unacons, oferecendo todas as especialidades previstas na Programação Pactuada Integrada (PPI).”
A Tribuna também pediu informações sobre a programação detalhada de cirurgias prevista pelo programa, com metas e prioridades locais: se ela já foi elaborada, como será divulgada e se haverá previsão de consulta pública da posição do paciente na fila. Em resposta, a PJF informou que a programação com metas e prioridades locais é divulgada nos canais institucionais do Executivo. A Tribuna, entretanto, não encontrou o detalhamento. Questionada sobre este ponto, a PJF não respondeu até a publicação desta matéria.
A reportagem também questionou a atualização sobre o Sistema Pronto – citado em novembro de 2025 pelo secretário de Saúde, Jonathan Ferreira Tomaz, como “em fase de finalização” – e a estimativa de quando usuários poderão acompanhar atendimentos pelo Busca Saúde.
De acordo com a Prefeitura, a fila regulada pode ser consultada pela população via BuscaSaudeJF – a Tribuna tentou verificar o site, mas em três tentativas o sistema estava fora do ar. Sobre o sistema Pronto, a PJF informou que “está em fase final de implementação, com previsão de conclusão até o fim deste ano”.