Dos bombeiros aos voluntários: conheça as histórias dos heróis anônimos da tragédia de Juiz de Fora

Entre resgates, recolhimento de doações e limpeza das ruas, fez-se uma rotina de verdadeiros heróis


Por Fernanda Castilho

31/05/2026 às 06h00

POR JF NOVO LOGO VERSOES 1Em 2026, Juiz de Fora atravessou o que por muitos, de matérias de jornais a relatos pessoais, foi nomeado como “tragédia”. Do dia 23 de fevereiro em diante, chuvas fortes, deslizamentos de terra, alagamentos e casas destruídas, alastraram por toda cidade, deixando mortos, desabrigados, ruas interditadas e rachaduras nos morros de todas as regiões. Uma “experiência sem precedentes”, alguns disseram. Entre aqueles que viveram a situação de perto, muitos tornaram-se “heróis anônimos”.

O jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, em sua coluna “Sobre Palavras”, explica que a palavra “herói” nasce do grego, faz uma passagem pelo latim, e chega ao nosso português reunindo sentidos como “mortal elevado à categoria dos semideuses” e aquele que “arrisca a vida pelo dever ou em benefício de outrem”. Conta também que a concepção da “jornada do herói” desenha o movimento de transformação “do homem comum em herói, com as provações que surgem no meio do caminho”. 

Aqueles dias vividos pela cidade, transformaram o cotidiano de pessoas comuns em uma rotina de verdadeiros heróis. Trabalhadores e trabalhadoras, mães e pais, estudantes, amigos e vizinhos, juntaram forças para ajudar quem precisava diante da tragédia compartilhada. Do bombeiro militar que socorreu um cachorro após o soterramento aos trabalhadores que deixaram seus ofícios para atuar como voluntários no recolhimento de doações e na limpeza das ruas: conheça os nomes dos heróis que atuaram na tragédia de Juiz de Fora.

‘O valor de cada vida’

No fim da noite de segunda-feira, 23 de fevereiro, Jeziel Dias despediu-se de sua família e retornou ao quartel para integrar as equipes de atendimento do Corpo de Bombeiros Militar. Naquele momento, não havia quem compreendesse a dimensão do que estava acontecendo, nem mesmo entre as primeiras equipes acionadas para as ocorrências. Algumas horas depois, ainda na madrugada, a cidade aos poucos avistava a ruptura no horizonte após a terra ceder.

Quando houve o rompimento da barragem da mina em Brumadinho, o cabo esteve entre os 60 bombeiros militares de Juiz de Fora enviados para ajudar no resgate das vítimas. No entanto, mesmo um profissional preparado para lidar com situações extremas, e que em sua trajetória tenha acumulado experiências tão semelhantes, sente-se atordoado quando se vê de frente às ruínas do chão em que pisa.

“Ver minha cidade enfrentando aquele cenário de destruição e sofrimento foi algo profundamente emocionante. Em meio aos inúmeros atendimentos realizados, havia pessoas conhecidas, famílias inteiras vivendo momentos de desespero, o que tornava cada ocorrência ainda mais marcante. A todo instante, meu maior desejo era que todos pudessem ser resgatados com vida”, relata o militar de 35 anos nascido em Juiz de Fora e que há 12 integra o 4º Batalhão de Bombeiros Militar da cidade.

Com as fortes chuvas, os deslizamentos de terra se estenderam para diferentes bairros, como também para a região da Zona da Mata mineira, afetando Ubá e Matias Barbosa, municípios vizinhos a Juiz de Fora. Já na quinta-feira, dia 26 de fevereiro, quase três dias após os primeiros desmoronamentos e enchentes, foram contabilizadas 62 mortes e 5 pessoas desaparecidas.

Na tarde daquele dia, durante uma operação no Bairro Jóquei Clube I, com a ajuda do sargento Nakayama e do soldado Pierre, o cabo Jeziel resgatou o cachorro Pumba de sob os escombros. “Mesmo diante do cansaço físico e emocional daqueles dias intensos, salvar aquela vida simbolizou para nós muito mais do que um simples resgate. Representou a força da esperança e o valor de cada vida, humana ou animal, em meio ao caos causado pela tragédia”, conta.

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Cabo Jeziel resgatou o cachorro Pumba de sob os escombros em operação no Bairro Jóquei Clube I (Foto: Arquivo pessoal)

‘Não fica restrito à memória, fica documentado’

“Nunca tinha visto uma coisa desse tamanho e em tantos locais diferentes ao mesmo tempo, pelo menos não na história recente de Juiz de Fora”, reflete o jornalista Marcelo Ribeiro. Assim como muitos dos moradores da cidade afetados com aquelas imagens, ele se ofereceu para ajudar. Então, juntou-se ao voluntariado do grupo Escoteiros Liz do Amanhã, ligado ao Colégio Academia, do qual suas filhas fazem parte.

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Heróis anônimos tomaram as ruas de Juiz de Fora em ações de solidariedade (Foto: Leonardo Costa)

A princípio, ele trabalhou na triagem das doações de roupas que chegavam à sede da escola. Nos dias que seguiram, também ajudou na limpeza da Rua do Carmelo, localizada no sopé do Morro do Cristo, no Bairro Paineiras. Como as proximidades ficaram cobertas de lama e de entulhos, as equipes dos bombeiros contaram com a ajuda de inúmeros voluntários para conseguir desobstruir a área e, assim, tentar resgatar os desaparecidos.

“Ficamos muito tristes com tudo que aconteceu, morreram pessoas conhecidas, e muitas crianças. Mas também ficamos surpresos com a corrente de solidariedade, muitas pessoas se uniram para trabalhar. Poder participar dessa parte, desse movimento, mesmo que de uma forma pequena, foi muito gratificante”, conta.

Por 12 anos, Ribeiro trabalhou como repórter fotográfico da Tribuna de Minas, período em que viu tragédias através das lentes de sua câmera. Dessa vez, seu trabalho moveu-se para um outro lado. “Nunca deixei de acreditar na força do jornalismo. Na necessidade de mostrar o que está acontecendo e de sensibilizar as pessoas. Também serve como um registro histórico, até como uma prova para um pedido de reparação de um direito que as pessoas têm, como o direito à moradia. Fica documentado, marcado na história da cidade, até para que possamos aprender. Não fica restrito à memória. Embora seja muito difícil de esquecer”.

‘Histórias e verdadeiros motivos’

“Ficar em casa, de braços cruzados, não foi uma opção. Fomos avaliar os estragos e foi algo esmagador”, diz a empreendedora do setor de marketing Betânia Bertelli, de 34 anos. Segundo relembra, quando ela e seu marido Arthur notaram que muitos já estavam atuando com doações e com o oferecimento de alimentação para as pessoas desabrigadas, decidiram ajudar de outra forma e reuniram amigos para somar forças. “Pegamos materiais como enxadas, EPIs, carrinhos de mão, baldes, vassouras, mangueiras e pás para ajudar a limpar as ruas. Sufocante, mas gratificante, com a sensação que o trabalho não vai nunca mais parar.”

No escritório em que trabalham juntos, chamado de Casa Azul, na região Central, também montaram um “ponto de apoio” para organizar roupas e materiais de limpeza e de higiene para doar. “Nossa frente foi tão forte e organizada que recebemos apoio do Instituto Alok, das marcas OMO e Hope, e das instituições Cufa, Viver de Estudos e Sai Pobreza, além de influenciadores e muitas pessoas”, revela.

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Betânia Bertelli fez do próprio escritório ponto de apoio para coleta de doações (Foto: Felipe Couri)

Após três meses, aquela movimentação mudou de ritmo, mas segue forte. Betânia continua recebendo e montando kits de materiais escolares para doação. “Mais de três mil crianças da rede municipal foram contempladas. Nos reunimos, organizamos e seguimos. Conhecemos pessoas, histórias e verdadeiros motivos que nos impulsionam a viver esse movimento até hoje”.