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Profissionais de saúde denunciam falta de EPIs no HPS

Secretaria de Saúde nega desabastecimento de equipamentos, como máscaras e capotes; Sinserpu acompanha situação


Por Sandra Zanella

01/04/2020 às 20h53- Atualizada 01/04/2020 às 22h06

Se o medo de ser infectado pelo novo coronavírus (Covid-19) ronda praticamente a cabeça de todos, para os profissionais de saúde, que estão na linha de frente, o temor é ainda maior. Denúncias recebidas pela Tribuna sobre a situação no Hospital de Pronto Socorro (HPS) e na Regional Leste apontam que haveria um cenário de precário diante da pandemia no sistema público de saúde de Juiz de Fora. Mesmo com os 60 leitos destinados a pacientes com Covid-19 no HPS, conforme anunciado pelo prefeito Antônio Almas (PSDB), parte do corpo clínico afirma não ter equipamentos de proteção individual (EPIs) suficientes, como máscaras N95, consideradas as mais seguras, e nem capotes impermeáveis para lidar com os doentes. Embora os servidores afirmem estar “acostumados” com a constante falta de materiais e insumos básicos, a situação tem apavorado a categoria, mesmo porque, caso estes profissionais sejam contaminados, não poderão continuar trabalhando. Outra queixa é em relação à falta de treinamento da equipe para lidar com os casos de coranavírus.

“O HPS atende Juiz de Fora e região como referência de trauma. O Município colocou na mídia que separou 60 leitos para atender Covid, mas, até terça-feira (31), esse fluxo não estava sendo feito. Os pacientes estavam sendo internados no segundo andar, junto com pacientes clínicos. Em enfermarias diferentes, mas no mesmo andar”, contou uma profissional de enfermagem, que preferiu ter sua identidade preservada. Segundo ela, colegas comentaram que a ala destinada ao coronavírus seria no terceiro pavimento, onde há 60 leitos, mas nenhuma movimentação teria sido vista nesse sentido. Ainda conforme as denúncias, os servidores estariam trabalhando apenas com máscaras cirúrgicas simples. “Estão sendo dispensadas duas máscaras comuns para cada funcionário. O capote impermeável não existe e não tem nem previsão de chegada, mas é o único eficaz no atendimento do paciente com Covid. Estamos usando o capote comum, só para descargo de consciência, porque na verdade não tem eficácia nenhuma”, desabafou a servidora, acrescentando acontecer o mesmo com as máscaras, na falta da N95.

Segundo a profissional de enfermagem, mesmo diante desse cenário, casos suspeitos de coronavírus estariam chegando. “Inclusive ontem foi transferida uma paciente para o João Penido com grandes suspeitas de Covid. Ela estava com todos os sinais e os sintomas característicos.” No entanto, com a demora no resultado dos testes, ainda não foi possível a confirmação. “A paciente foi sem diagnóstico, mas já expôs todas as equipes, porque não temos o EPI próprio para atender.” Conforme ela, a escassez de materiais vai desde insumos básicos, como algodão, até os respiradores, tão fundamentais nos tratamentos dos infectados.

Com todos os problemas e riscos, a servidora ponderou que a classe não tem como parar.

“Somos porta aberta, não tem como falar que não vamos atender. É nossa obrigação, afinal, fizemos um juramento para isso. Não estou questionando o atendimento a essas pessoas. Pelo contrário, esse papel é dos profissionais de saúde sim. Mas queremos atender com responsabilidade e com os materiais e os equipamentos de proteção devidos.”

Segundo a denunciante, a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) do HPS estaria ciente. Ela argumentou também que faltaria treinamento para as equipes. “O que se faz e o que se fala é o que se ensina na televisão.”

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Na avaliação da servidora, é preciso “cuidar da nossa saúde, senão daqui a pouco vamos começar a afastar. E não vai ter mão de obra para atender essas pessoas e outras que são da nossa referência (trauma)”. Na Regional Leste, segundo ela, o quadro é semelhante. “Estão em obras e atendendo Covid. Só o médico e o enfermeiro têm o capote, mas nem é o impermeável. E não estão dispensando máscaras N95. Se precisar entubar um paciente lá, não tem nem como isolá-lo. É uma situação muita grave. O ideal seria termos um local apropriado, como um hospital de campanha, para atender apenas esses pacientes. Porque doentes clínicos também estão correndo risco de pegar a Covid.”

Sindicato busca diálogo

De acordo com a diretora de Saúde do Sindicato dos Servidores Públicos de Juiz de Fora (Sinserpu-JF), Deise da Silva Medeiros, a entidade está a par da situação, considerada crítica, do HPS e da Regional Leste, e tenta discutir a questão da falta de equipamentos com a administração pública. “Ainda não obtivemos resposta, só dizem que os materiais estão para chegar. O sindicato não está participando do comitê (de enfrentamento à pandemia) e, por isso, não estamos cientes das medidas que estão tomando.”

Ainda conforme Deise, diante da ameaça da Covid-19 e da possível necessidade de afastamento de alguns profissionais, há também preocupação financeira. “O sindicato conseguiu na Justiça que o adicional de penosidade seja pago mesmo quando o servidor entrar de licença. Mas, de acordo com queixas dos trabalhadores, estaria havendo orientação para não pagarem essa penosidade a quem entrar com atestado. Ou seja, o funcionário, mesmo com essa falta de equipamentos de proteção, não pode nem ficar doente, porque senão perde o adicional, que aumenta o salário dele em 47%.”

PJF responde

Em nota enviada na noite desta quarta-feira (1º), a Secretaria de Saúde confirmou que a área do terceiro andar do HPS foi destinada para tratamento de pacientes com suspeita de Covid-19. “Além disso, o hospital também conta com uma entrada e espaço de triagem específicos para esse tipo de atendimento. O espaço já foi sinalizado com banner na última semana.” Sobre os equipamentos de proteção individual (EPI), a pasta ressaltou que, no momento, não há desabastecimento. “Quanto à capacitação, o procedimento de paramentação e desparamentação é inerente à profissão e não é diferente para atuação em casos de Covid-19. Entretanto, ciente da demanda, o HPS está oferecendo, durante esta semana, uma espécie de reciclagem para seus profissionais, sempre em pequenos grupos para evitar aglomeração.”

Na última terça-feira (31), a Tribuna mostrou que a qualidade e segurança dos equipamentos de proteção individual (EPIs) utilizados por enfermeiros no Hospital Regional Doutor João Penido preocupavam o Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde de Minas Gerais (Sind-Saúde). Em resposta, a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), que administra a unidade, afirmou cumprir a orientação prevista em norma técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

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