Cirurgia de transgenitalização: entenda o que é, como funciona e de que forma é oferecida no SUS

Em podcast da Tribuna, especialistas explicam sobre procedimentos de transgenitalização que estão sendo oferecidos no Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora


Por Elisabetta Mazocoli

11/08/2024 às 06h00- Atualizada 14/08/2024 às 10h53

A cirurgia de transgenitalização ou cirurgia de redesignação sexual é feita para que as características sexuais e genitais de nascença sejam adequadas ao gênero do indivíduo. A partir de avanços médicos, é possível realizar cirurgias que constroem um novo órgão genital e também fazer a remoção de órgãos acessórios (como testículos ou mama). Esse é um procedimento que começou a ser oferecido no Sistema Único de Saúde, a partir de uma demanda da comunidade trans, e que atualmente pode ser feito no Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU/UFJF). Em entrevista ao Podcast Tribuna No Ar, com apresentação de Paulo César Magella, a médica ginecologista Carolaine Bittencourt e o médico urologista José Murillo Netto esclarecem como o procedimento é feito, quais são os preparativos necessários e como é a recuperação dos pacientes.

“A cirurgia muda tanto as funções quanto a parte estética. A ideia é que a gente consiga alinhar a parte física ao gênero de identificação com a pessoa”, resume Carolaine. Para isso, a médica explica que existe um longo processo tanto de entendimento do paciente, seja um homem trans ou uma mulher trans, para que tenha segurança do que quer fazer. É possível, por exemplo, que a pessoa opte por retirar apenas o testículo, enquanto outros apenas o pênis – e também há quem queira tirar só a mama.

Esse processo começa com o desejo da pessoa e a procura pelo serviço de saúde. “A pessoa é recebida por uma equipe multidisciplinar, com psicólogo, assistente social e fisioterapeuta. A fisioterapia prepara a parte pélvica. E precisam passar por um período de pelo dois anos de acompanhamento psicológico para que possam fazer a cirurgia”, define José Murillo. Como destaca Carolaine, uma pessoa trans pode optar por esse procedimento para ter mais autoconfiança e liberdade na hora de “vestir biquíni, usar uma roupa apertada e até ir no banheiro”. No entanto, não é algo que todas as pessoas trans optam por fazer, até porque os procedimentos de transgenitalização são delicados.

A primeira cirurgia de transgenitalização foi realizada no HU em junho deste ano, e mais pessoas já estão buscando os procedimentos. “Nós estamos falando de ciência. Quando falamos de gênero, não se trata de uma construção biológica. Os profissionais de saúde e as pessoas que nos acompanham precisam entender do que estamos falando. É uma demanda legítima, espontânea e real da população pelos seus direitos, que não podem ser ignorados pelo sistema de saúde que é único e universal”, destaca a profissional.

Preparativos para cirurgia de transgenitalização

Os médicos destacam que existem vários preparativos antes da cirurgia de transgenitalização, e que eles são essenciais para o sucesso do procedimento e o bem-estar dos indivíduos. “Qualquer decisão precisa ter o momento adequado. E é nessa parte que o psicólogo faz o acompanhamento, porque, muitas vezes, ao longo dos processos, essas pessoas passam por grandes crises de ansiedade, quadros de depressão e angústias. Então o ideal é que essas grandes decisões, como o momento de iniciar hormônio ou de fazer um procedimento, estejam suportadas pelo acompanhamento psicológico, para que tome a decisão em um momento que esteja estável emocionalmente”, explica a ginecologista.

Além disso, é preciso ter um laudo psiquiátrico atestando que estão em plena sanidade mental e que a pessoa esteja fora da taxa de obesidade. Como deixa evidente José Murillo, neste momento, também é necessário que o paciente tenha acompanhamento de fisioterapia pélvica. “Na pessoa trans feminina, que urinava em pé e passa a urinar sentada, tem uma mudança grande na musculatura da região. Na cirurgia, mexemos perto do intestino e do reto, e isso pode alterar alguma coisa. É uma cirurgia bastante complexa e que mexe numa região também bastante complexa. É uma região com musculatura toda integrada e que tem uma coordenação, para que se tenha continência urinária e continência fecal”, conta.

Pacientes conseguem ter prazer

Uma dúvida bastante comum, respondida pelos especialistas, é se os pacientes conseguem ter prazer após fazerem a redesignação sexual. “Não se perde a sensibilidade sexual durante o procedimento. Mas é todo um caminho de reabilitação, todo um pós-operatório que dura um período”, esclarece Carolaine. Ela explica com detalhes sobre o procedimento: “A gente faz um túnel no períneo. As mulheres cis têm uma falha na musculatura pélvica onde está o canal vaginal, e as mulheres trans não têm essa falha. Então, fazemos um túnel cirurgicamente para colocar a nova vagina nesse espaço. Em uma mulher trans, inicialmente, assim como num homem cis, temos a bexiga e o reto encostados. Em uma mulher cis, temos a bexiga, o reto e no meio temos a vagina e o útero. Quando abrimos esse espaço em que vai ficar a neo vagina, o reto e a bexiga mudam de posição”. “Além disso, é preservado um pedaço da glande, a cabeça do pênis, com toda a enervação que vai para lá. Isso que a gente preserva, que se torna o clitóris, tem sensibilidade.”

No caso dos homens trans, no entanto, esse processo para a cirurgia de transgenitalização pode ser mais difícil. “A construção do pênis é uma cirurgia muito mais difícil. O número de complicações é infinitamente maior, e a questão da sensibilidade é diferente”, afirma o urologista.

Riscos 

A cirurgia de transgenitalização traz alguns riscos, ainda mais dependendo do procedimento escolhido. Mesmo em casos que são bem-sucedidos, é preciso ter cuidados: “Há lesão de reto em 30% de casos, e abertura de pontos em praticamente 100% dos casos, porque as tensões são muito grandes. Também é uma cirurgia que secreta, que fica úmido bastante tempo, porque o tecido vai se recuperando e se entendendo nas novas posições”, explica Carolaine. Os profissionais defendem, por isso, que o procedimento seja buscado sempre em locais com profissionais qualificados e que ofereçam todo o suporte possível ao longo do processo.

Recuperação é lenta

A recuperação da cirurgia de transgenitalização leva no mínimo 90 dias, e a média é entre 7 e 10 dias de internação. Durante todo o tempo de recuperação, Carolaine afirma que é necessário pausa na atividade sexual pelo órgão operado e até nas atividades físicas. Também é necessário ter uma série de cuidados, além de visitas ao médico frequentes. “Durante esse período de recuperação da cirurgia, é trabalhado para a pessoa se entender com aquelas novas funções”, explica a médica. A parte psicológica também precisa ser trabalhada neste período, já que os desconfortos da cirurgia e o próprio desgaste do paciente podem intensificar emoções, como destaca o urologista.

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