Trilha do Mel: projeto da UFJF pretende construir meliponário no Jardim Botânico

Iniciativa vai reunir coleção viva de abelhas nativas sem ferrão da tribo Meliponini e promover atividades de divulgação científica, destacando a importância dessa espécie cada vez mais ameaçada


Por Nayara Zanetti

15/07/2023 às 11h17

Cada vez mais ameaçadas pelo avanço do desmatamento e uso de agrotóxicos, as abelhas desempenham importante papel para a manutenção dos ecossistemas, que vai muito além da produção de mel. De acordo com dados recentes do primeiro relatório temático sobre polinização, polinizadores e produção de alimentos no Brasil, quase 80% dos cultivos agrícolas são polinizados por esse grupo de insetos. Ou seja, produtos como café, feijão, morango, coco, melancia e muitos outros dependem das abelhas como polinizadores efetivos ou para incremento da produção. É pensando em divulgar conhecimentos científicos como esse para toda a população, que o projeto de criação da Trilha do Mel e do primeiro meliponário da Zona da Mata Mineira está sendo desenvolvido no Jardim Botânico da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

A previsão é de que, até o final deste ano, os visitantes do Jardim Botânico tenham mais uma opção de roteiro através da Trilha do Mel e do meliponário com uma coleção viva de espécies de abelhas da tribo Meliponini, conhecidas como abelhas nativas da Mata Atlântica sem ferrão. A proposta é, por meio de atividades de educação ambiental, divulgar informações sobre temas relacionados à biologia de abelhas sem ferrão, polinização e as relações dos povos originários do Brasil com as abelhas nativas, oferecendo cursos, oficinas e outros eventos.

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Caixas para abelhas sem ferrão criadas por alunos do Bacharelado em Design da UFJF que foram doadas ao projeto (Foto: Silvia Xavier)

Tribo Meliponini e a manutenção da flora brasileira

A professora do Departamento de Botânica do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) Ana Paula Gelli explica que as abelhas da tribo Meliponini, quando comparadas com a Apis mellifera (abelha africana), têm se mostrado tão ou mais sensíveis às ações negativas causadas pelo ser humano. “O avanço do desmatamento e o uso indiscriminado de inseticidas e pesticidas estão, de fato, contribuindo para a redução das populações de muitas espécies de abelhas nativas.” A pesquisadora destaca as consequências para todo o meio ambiente, já que se uma espécie de planta perde o seu polinizador efetivo, a estrutura da comunidade vegetal pode sofrer mudanças drásticas.

“Além de garantirem a nossa segurança alimentar e nutricional, as abelhas nativas sem ferrão da tribo Meliponini também desempenham papel crucial na manutenção da diversidade da flora brasileira. Existem mais de 200 espécies de abelhas sem ferrão descritas para o Brasil, e estima-se que elas contribuam com a polinização de quase 90% de nossas árvores nativas”, aponta a bióloga.

Comunidade ajuda a dar vida ao projeto

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Mirim-preguiça, uma das espécies de abelhas sem ferrão que fará parte do Meliponário do Jardim Botânico (Foto: João Lobo)

O meliponário é um abrigo para a criação de abelhas, composto por caixas e outros materiais. Para que essa estrutura seja montada, o Jardim Botânico tem contado com o apoio de parte da população. O meliponicultor (criador de abelhas sem ferrão) e marceneiro Paulo Munck é responsável pela confecção das caixas de abelhas e, junto a outros meliponicultores de Juiz de Fora, fará a doação de espécies que futuramente habitarão o espaço.

Além disso, alunos do Instituto de Artes e Design da UFJF também doaram caixas didáticas e decorativas. As caixas de abelhas foram produzidas durante disciplinas do Curso de Design com diferentes temas. Foram fabricadas caixas voltadas para o ensino de crianças, caixas específicas para a polinização de lavouras e jardins e outras com foco na produção do mel.

Antes de colocar em prática, os estudantes tiveram acesso a pesquisas e palestras sobre meliponicultura, sendo que muitos não haviam tido contato com esse tema antes e nem conheciam as abelhas nativas do país. À UFJF, as alunas Fernanda de Castro e Ana Maria Cunha demonstraram entusiasmo com o processo de construção e concretização da obra.

“A experiência me surpreendeu muito. Foi um grande desafio sair da minha zona de conforto e mergulhar em um mundo desconhecido para mim e acredito que para a maioria dos meus colegas de sala, a meliponicultura. A proposta da disciplina me mostrou um potencial criativo que eu não sabia que existia em mim e, com certeza. me diverti muito mais no processo do que pensei que seria possível,” diz Fernanda.

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