Maior espécie de morcego-pescador é avistada em Viçosa após 16 anos sem registro; veja fotos

Animal se alimenta de peixes pequenos usando as garras dos pés em formato de anzol; redescoberta chama atenção para importância da preservação da Mata do Paraíso 


Por Nayara Zanetti

07/09/2024 às 06h00- Atualizada 09/09/2024 às 08h18

morcego pescador Deborah Goncalves
Espécie de morcego-pescador não era vista há 16 anos na região (Foto: Deborah Gonçalves/UFV)

Os mitos e lendas que rondam os morcegos não dão conta da diversidade de características desse mamífero, que desempenha um papel muito importante no equilíbrio ambiental. Os morcegos são os únicos mamíferos capazes de voar. Eles contribuem para a polinização e controle de populações. Além disso, os hábitos alimentares das espécies se diferenciam, algumas consomem frutos, outras grãos, insetos, néctar, sangue e até peixes.

Este último faz parte do grupo morcegos-pescadores que se alimentam de peixes pequenos usando as garras dos pés em formato de anzol, o que os torna pescadores altamente eficientes. No dia 9 de agosto, pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) avistaram o morcego-pescador (Noctilio leporinus) na Mata do Paraíso, um remanescente de Mata Atlântica no município de Viçosa, após 16 anos sem nenhum registro da presença do animal na região. 

A redescoberta da espécie foi recebida com entusiasmo pelos pesquisadores do Laboratório de Mastozoologia. O animal foi capturado durante atividade de campo relacionada à pesquisa de mestrado de Deborah Gonçalves, do Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal, orientada pelo professor Guilherme Garbino. O projeto tem como título “Comunidade de morcegos (Chiroptera) em duas áreas de Mata Atlântica inseridas em paisagens com diferentes graus de fragmentação”. A captura ocorreu com o apoio dos demais alunos do Laboratório de Mastozoologia, vinculado ao Departamento de Biologia Animal. Entre eles, a mestranda Thais Silva Alves, quem primeiro identificou o animal. Depois disso, novos estudos serão conduzidos para aprofundar o conhecimento sobre o morcego-pescador e outras espécies de morcegos presentes na região. 

O último registro havia sido feito em outubro de 2008, também na Mata do Paraíso. A reserva é administrada pelo Departamento de Engenharia Florestal da UFV e é constantemente utilizada para pesquisas científicas. Para os pesquisadores, a redescoberta chama atenção para a importância contínua da conservação dos remanescentes de Mata Atlântica e  renova as esperanças de preservação da espécie na área. 

A vida aquática, que serve de alimento para os morcegos pescadores, é muito impactada pela poluição das águas, principalmente devido à bioacumulação. O fato de termos encontrado o morcego Noctilio leporinus na Mata do Paraíso, após 16 anos, pode indicar que a vida aquática nessa área permanece preservada e estável. Os morcegos também sofrem com a poluição, tanto de forma direta, como a poluição do ar e poluição luminosa, quanto de forma indireta, por meio do acúmulo de metais pesados na cadeia alimentar. Por isso, encontrar essa espécie nos deixa otimistas, pois pode ser um sinal de que a população de morcegos da Mata do Paraíso está estável, mesmo se tratando de um fragmento de mata pequeno, afirma a pesquisadora Deborah Gonçalves. 

Hábitos e características do morcego-pescador 

Das sete espécies de morcegos-pescadores do mundo, a Noctilio leporinus é a que tem o maior tamanho e a que se alimenta mais frequentemente de peixes. As outras seis consomem mais outros animais, como insetos aquáticos. É comum ver este animal pescando em noites quentes de verão. Além de peixes, sua dieta inclui crustáceos e insetos. 

Para capturar os peixes, o morcego-pescador usa um sistema de ecolocalização em voos rasantes, ou seja, a espécie consegue identificar a presa por pequenas turbulências na superfície da água que são causadas pelos cardumes durante o deslocamento. Os morcegos conseguem guardar a melhor posição em que a pesca foi mais bem sucedida. Depois de conseguir fisgar o peixe, o morcego guarda o animal em “bolsas” nas suas bochechas para mastigar e engolir quando estiverem em um local mais tranquilo, em segurança. Eles costumam consumir mais peixes das espécies sardinha, manjuba e peixe-rei, enquanto crustáceos são camarões e siris. Já os insetos, consomem muitas mariposas e besouros. 

garras morcego pescador Deborah Goncalves
Animal usa de garras nos pés para capturar peixes e se alimentar (Foto: Deborah Gonçalves/UFV)

Os morcegos desempenham papeis ecológicos importantes, como a dispersão de sementes, o controle de pragas e a polinização, essenciais para a manutenção e regeneração das florestas. Isso é especialmente relevante na Mata Atlântica, uma região de alta biodiversidade

O morcego-pescador é nativo do continente americano e costuma habitar áreas úmidas, como lagoas e riachos tranquilos, estuários, baías e lagoas ao longo das costas. Essa espécie usa ocos de árvores, costões rochosos e cavernas próximas a cursos d’água como refúgio. Além das garras curvadas nos pés, outra característica chama atenção: o morcego pescador possui o lábio superior fendido, dando aparência de “bulldog”.

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