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O mundo da velhice e o mundo da mulher

Por Jose Anisio Pitico

08/03/2019 às 05h52 - Atualizada 07/03/2019 às 19h55

Eu fico preocupado quando escrevo esse título, porque passa pela minha cabeça que o leitor ou a leitora pode pensar que eu estou sendo categórico, ditando regras, sendo radical ou fechando questão sobre o comportamento de gênero. Não é isso. É que eu observo na lida diária, e os estudos apontam, que as mulheres vivem mais do que os homens. Por essa razão é que eu afirmo que o envelhecimento é uma questão eminentemente feminina. No trabalho social gerontológico, por onde você for em um grupo de pessoas idosas, a presença delas é muito maior do que a deles.

Aprendi e vivencio que homens e mulheres envelhecem de modos diferentes. Homens, de um modo geral, em menos quantidade, nos programas sociais, apresentam-se mais tímidos, em pequenos grupos, estão a fim de jogos, como baralho, sinuca, atividades físicas, dançar e de sexo também. As mulheres, em grande maioria numérica, aqui, na China ou em Porciúncula, vivem mais, participam de várias organizações sociais para a Terceira Idade. E é interessante comentar que aquelas mulheres idosas que se permitem experimentar a vida participam de tudo e estão presentes em várias atividades promovidas pelas entidades que trabalham com pessoas idosas. Elas estão em todas. São “figuras” carimbadas. Têm pressa de viver e bebem a vida, de um gole só. Elas querem mais. Os homens, nem tanto. Quando viúvos, alguns almejam um novo amor. Penso que é muito mais difícil para o seu “Manoel” ficar sozinho, do que para a dona “Vera”, que é viúva há muito tempo e dá conta de dormir sozinha.

A resiliência é muito diferente por sexo. Conheço gente que ficou sem marido há um tempão e não arrumou outro homem. Como conheço também gente idosa que se libertou em todos os sentidos para a vida quando o marido foi morar no andar de cima. A viuvez pode ser libertadora. E é para muitos casos. Por isso eu percebo que a velhice tem muito a ver com o mundo feminino. Quando efetivamente a pessoa idosa passa a viver para si.

Quanto à presença maior de mulheres do que de homens na velhice, os estudiosos dão nome a esse capítulo de feminilização da velhice. As mulheres vivem mais do que os homens. Não me perguntem porque. Aqui abre-se um campo para especulações de naturezas variadas. E convenhamos, numa sociedade machista, como a nossa, é difícil o envelhecimento para as mulheres porque elas têm que estar bonitas e atraentes o tempo todo. Fora todo o discurso moralista existente. Ao homem é permitido relações amorosas e sexuais com mulheres mais novas. As mulheres quando estão com homens mais novos são reprovadas socialmente.

As relações afetivas estão em afirmação social por novas configurações amorosas. E aí o poeta está certo, quando escreve que qualquer forma de amor vale a pena. O amor entre pessoas do mesmo sexo ganha expressão e respeito (pouco), apesar de todo preconceito existente, inclusive no envelhecimento. Será que as instituições de longa permanência para as pessoas idosas estão com a gestão prevista para o acolhimento de casais homoafetivos? Acredito que não. Mas é preciso se organizar.

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Se o mundo da velhice é o mundo da mulher, é importante que os gestores, os formuladores de políticas públicas para as pessoas idosas levem em consideração, em seus planejamentos, as questões que envolvem as mulheres: suas necessidades, interesses, expectativas de vida, gestão de futuro, vida financeira e profissional, saúde física, emocional e espiritual. E, nesse campo do envelhecimento humano, quem cuida das diferentes velhices – porque elas não são iguais, são múltiplas e complexas – é a mulher. Hoje tem sido e é muito comum senhora idosa cuidando de outra senhora idosa. A estrutura familiar contemporânea não favorece o cuidado aos mais velhos. Só para dar um exemplo.

O Japão, tido como uma cultura de atenção milenar aos mais velhos, em função das transformações sociais capitalistas, vem produzindo efeitos nefastos aos mais velhos, principalmente às idosas centenárias, que vivem sozinhas e que só são descobertas mortas em casa quando o corpo dá sinais avançados de putrefação, chamando atenção para o o socorro dos vizinhos. O capitalismo de lá está presente aqui no Brasil. E traz os mesmos impactos para a velhice brasileira. Ainda mais diante da expectativa de uma reforma da previdência que não protege os futuros e os já idosos.

Diante dessas reflexões, sou levado a pensar e reconhecer, com orgulho, que meu lugar no mundo é no campo do feminino.Vejam só minha trajetória. Sou assistente social, profissão majoritariamente constituída de mulheres. Quando entrei para a Faculdade de Serviço Social da UFJF, em agosto de 1979, éramos três alunos: eu, o Luciano e o André. Para uma turma de 25 estudantes. Não tínhamos contingente para disputar os Jogos Universitários na modalidade de futebol de salão. E, com o tempo, quase entrando para o clube dos sessentões, reconheço que minhas observações e modo de ver as pessoas, de senti-las e minha inserção profissional têm muito a ver com o que aprendi de minha mãe. E até percebo que para onde estou caminhando e o que escolhi na vida, são formas e meios de reconhecê-la e de dedicar-lhe retorno em forma de amor o que dela recebi: também carinho, cuidado, respeito, educação e o próprio amor. De casa para o mundo.

Velhices não são iguais, Não são as mesmas. Várias determinações sociais-econômicas-culturais moldam nossa trajetória no tempo ou para o tempo do nosso futuro. E o fato político de ser homem ou mulher é preponderante para as definições de vida que começam desde cedo e vão para a velhice. Homens e mulheres envelhecem diferentemente. São construções marcadas por histórias de vida completamente desiguais. Como a coluna está publicada hoje, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, deixo aqui e compartilho o meu carinho, o meu afeto o meu amor a todas as mulheres que me ajudaram a ser o que eu sou e continuarei sendo. Muito obrigado, mãe, dona Lúcia!

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Jose Anisio Pitico

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