Tópicos em alta: eleições 2022 / coronavírus / vacina / polícia / obituário

Como enfrentar o racismo na infância?


Por Lucimar Brasil

24/04/2022 às 07h00- Atualizada 25/04/2022 às 20h14

Um dia após publicar a coluna anterior, “Elogie o cabelo de uma criança negra”, recebi a ligação de uma leitora que queria desabafar sobre um comentário racista que seu filho de sete anos havia recebido de uma coleguinha branca da escola. Constrangida, a criança ficou profundamente entristecida, mas conseguiu responder, sem qualquer intervenção de um adulto, que gostava muito do seu cabelo crespo. Os pais procuraram a professora para alertá-la sobre o fato que, infelizmente, além de não ser isolado, ainda expõe a fragilidade de ambientes escolares em relação ao racismo na infância.

O assunto, por outro lado, tem ganhado cada vez mais repercussão com discussões em níveis internacionais, a exemplo do fórum Bonnie’s Global Cafe do qual tive a oportunidade de participar com o tema “Vamos conversar! Como abordar o impacto do racismo nas crianças pequenas: estratégias para a mudança”, com a presença de representantes do Brasil, dos Estados Unidos, da Colômbia e da África. Foi nele que conheci a atriz baiana do Bando de Teatro Olodum, museóloga e escritora, Cássia Valle, que acaba de lançar seu terceiro livro protagonizado por crianças negras.

O primeiro deles, “Calu, uma menina cheia de histórias”, escrito em parceria com Luciana Palmeira, com prefácio de Lázaro Ramos, foi premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) dois meses após o lançamento em 2017. Mesmo sem intenção, a publicação se revelou também um enorme sucesso como projeto pedagógico, sendo utilizada por escolas públicas e privadas não apenas da Bahia, mas de todo o país.  Isto sem contar que o livro virou espetáculo de teatro em Salvador e deu origem ao projeto “Cirandando com Calu”, em que Cássia teve oportunidade de chegar às escolas.

(Foto: Divulgação)

Todo o aprendizado adquirido com Calu levou as duas escritoras a lançarem, no mês passado, com enorme sucesso de venda, “Aziza, a preciosa contadora de sonhos”. Uma menina que tem o dom especial de contar suas experiências oníricas de forma surpreendente, despertando os leitores sobre práticas racistas e formas de combatê-las, usando armas da ludicidade e da poesia que cada criança carrega dentro de si.

“Ela sonha que está passeando entre girassóis que viram pessoas, que depois viram dragões e que gritam que o cabelo dela é feio, que ela é macaca. Aziza responde às ofensas muito bem, porque traz um legado de família muito forte. Ela desmascara os dragões, porque não se importa com o que falam, por saber exatamente quem ela é e de onde veio”, conta Cássia que, na infância, se sentia “um pontinho preto” em uma escola tradicional frequentada maciçamente por crianças brancas.

O conteúdo continua após o anúncio

Segundo a narrativa, havia um tempo em que dragões falavam e um tipo deles gostava de machucar. As palavras que proferiam queimavam como brasa. Aziza, porém, observa que eles podiam se transformar, a partir da revisão de pensamentos e atitudes, após um tempinho de reflexão no “cantinho do pensamento”. “A seu modo, ela nos faz pensar sobre nossas atitudes discriminatórias, e como podemos fazer o mundo mudar, trazendo a riqueza da ancestralidade do legado africano para a época atual”, explica a escritora, empolgadíssima com as inúmeras possibilidades que a publicação oferece pedagogicamente.

Cássia Valle usa a literatura como estratégia de enfrentamento ao racismo na infância (Foto: Divulgação)

Tanto que Aziza traz um QR Code para uma versão online em áudio, com trilha sonora de Cell Dantas, narração em português com Cássia Valle e Aya Dantas, além de tradução e narração em inglês. “A escola tem um papel fundamental no combate ao racismo, mas ainda é um espaço cruel. Precisa de pais muito atentos. Acho que estamos cada vez mais ligados, tendo mais letramento antirracista, a partir de literaturas como a minha que conseguem chegar aos pequenos.  Precisamos fazer esse letramento com os menores, com os jovens, porque se não a gente vai escorregar. Nossa geração doeu, mas entendeu”, finaliza a escritora que, assim como Aziza, sonha, mas também, constrói oportunidades de um mundo bem melhor.

COMPARTILHANDO:

Dez maneiras de contribuir para Uma Infância sem Racismo

  1. Eduque as crianças para o respeito à diferença. Ela está nos tipos de brinquedos, nas línguas faladas, nos vários costumes entre os amigos e pessoas de diferentes culturas, raças e etnias. As diferenças enriquecem nosso conhecimento.
  2. Textos, histórias, olhares, piadas e expressões podem ser estigmatizantes com outras crianças, culturas e tradições. Indigne-se e esteja alerta se isso acontecer – contextualize e sensibilize!
  3. Não classifique o outro pela cor da pele; o essencial você ainda não viu. Lembre-se: racismo é crime.
  4. Se seu filho ou filha foi discriminado, abrace-o, apoie-o. Mostre-lhe que a diferença entre as pessoas é legal e que cada um pode usufruir de seus direitos igualmente. Toda criança tem o direito de crescer sem ser discriminada.
  5. Não deixe de denunciar. Em todos os casos de discriminação, você deve buscar defesa no conselho tutelar, nas ouvidorias dos serviços públicos, na OAB e nas delegacias de proteção à infância e adolescência. A discriminação é uma violação de direitos.
  6. Proporcione e estimule a convivência de crianças de diferentes raças e etnias nas brincadeiras, nas salas de aula, em casa ou em qualquer outro lugar.
  7. Valorize e incentive o comportamento respeitoso e sem preconceito em relação à diversidade étnico-racial.
  8. Muitas empresas estão revendo sua política de seleção e de pessoal com base na multiculturalidade e na igualdade racial. Procure saber se o local onde você trabalha participa também dessa agenda. Se não, fale disso com seus colegas e supervisores.
  9. Órgãos públicos de saúde e de assistência social estão trabalhando com rotinas de atendimento sem discriminação para famílias indígenas e negras. Você pode cobrar essa postura dos serviços de saúde e sociais da sua cidade. Valorize as iniciativas nesse sentido.
  10. As escolas são grandes espaços de aprendizagem. Em muitas, as crianças e os adolescentes estão aprendendo sobre a história e a cultura dos povos indígenas e da população negra; e como enfrentar o racismo. Ajude a escola de seus filhos a também adotar essa postura.

Fonte: Participe desta campanha e contribua para Uma Infância sem Racismo. Acompanhe o tema da redução do impacto do racismo na infância e na adolescência por meio do www.unicef.org.br ou siga o UNICEF no Twitter: @unicefbrasil. Divulgue para os seus amigos! Valorizar as diferenças na infância é cultivar igualdades!

Os comentários nas postagens e os conteúdos dos colunistas não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é exclusiva dos autores das mensagens. A Tribuna reserva-se o direito de excluir comentários que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros. Mensagens de conteúdo homofóbico, racista, xenofóbico e que propaguem discursos de ódio e/ou informações falsas também não serão toleradas. A infração reiterada da política de comunicação da Tribuna levará à exclusão permanente do responsável pelos comentários.



Desenvolvido por Grupo Emedia