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20 apresentar 20 álbuns de 1990 – Parte 3

Por Júlio Black

14/10/2020 às 07h00 - Atualizada 13/10/2020 às 15h22

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Oi, gente.

Chegamos à terceira e penúltima parte de nossa série com grandes álbuns lançados em 1990, e dá para dizer que a seleção desta semana tem música para todos os gostos – ou para quem sabe curtir todas as coisas boas da vida, independente do gênero musical.

A turma do synth-pop tem o Depeche Mode em seu melhor álbum, enquanto o rock tem mais um clássico dos negões superpoderosos do Living Colour; as ilhas britânicas marcam presença com a estreia dos escoceses do Teenage Fanclub; Andy Warhol foi dignamente homenageado por Lou Reed e John Cale; e o rap e hip-hop ganharam um de seus álbuns fundamentais graças ao quarteto A Tribe Called Quest.

Coloque seus fones e aproveite, que a seleção desta semana tá supimpa.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

DEPECHE MODE, “Violator”
O sétimo álbum de estúdio do Depeche Mode mereceria uma coluna exclusiva não apenas por ser o melhor trabalho do (então) quarteto, mas igualmente por ser um dos melhores discos dos anos 80, da música eletrônica e do synth-pop.

O Depeche Mode já vinha se tornando mais popular desde que iniciou a mudança do synth-pop alegrinho de “Just can’t get enough” para o big hit “Strangelove”, mas a primeira parceria com o produtor Flood (de “Zooropa”, do U2) foi a tempestade perfeita musical, com a mistura de música eletrônica, rock e pop a temas que incluem sexo, religião, dominação, poder, o desejo de isolamento, devoção, resultando em um trabalho mais sombrio que solar.

Tudo, mas TUDO MESMO, é perfeito em “Violator”. A começar pelo título, uma piada com o mais ridículo título de um álbum de heavy metal que o grupo conseguiu imaginar, segundo Martin Gore. Depois vem a belíssima capa criada pelo fotógrafo e diretor Anton Corbjn, com a rosa que remete à flor de “O pequeno príncipe”. E as músicas, claro: são apenas nove faixas em pouco mais de 47 minutos, mas entre elas estão clássicos do nível de “Personal Jesus”, “World in my eyes”, “Policy of truth” e o hit supremo do Depeche Mode, “Enjoy the silence”.

Também inspirada em “O pequeno príncipe”, a dançante “Enjoy the silenece” é _ veja só a ironia _ uma ode ao silêncio e à introspecção. Essa é a melhor música já feita pelo quarteto inglês, e que ainda ganhou um dos três melhores videoclipes de todos os tempos. Com direção de Anton Corbjn, temos o vocalista Dave Gahan vestido de príncipe e com uma cadeira de praia embaixo do braço tentando encontrar o local de silêncio absoluto.

Na época, perdi a conta das vezes que cheguei atrasado à escola só para assistir ao videoclipe na MTV. Eu e minhas irmãs gostávamos tanto do videoclipe que ele foi um dos primeiros que gravamos no primeiro videocassete da família.

TEENAGE FANCLUB, “A catholic education”
Já declarei inúmeras vezes neste espaço o meu amor pelo Teenage Fanclub. O grupo escocês criou álbuns clássicos como “Bandwagonesque” e “Grand Prix” graças às influências de bandas como os Byrds, Beatles e Big Star, transitando entre o power pop e o soft rock, mas seu álbum de estreia só não é o mais diferente entre a discografia da banda por causa de “The King”, lançado unicamente para cumprir contrato _ e mesmo assim tem a sensacional versão de “Like a virgin”, da Madonna.

Mas chega de digressões. “A catholic education” apresentou o Teenage Fanclub ao mundo, porém mal se percebe as influências sessentistas do grupo neste trabalho. Em retrospectiva, está mais próximo do indie rock americano, com momentos que remetem a Dinosaur Jr. e Yo La Tengo, às vezes um Neil Young lá pelos anos 70.

Dentre as faixas de “A catholic education”, “Everything flows” era a única que já carregava o espírito musical que ouvimos a partir de “Bandwagonesque”, mas o álbum ainda apresenta ótimos momentos em “Everybody’s fool”, “Eternal light”, “Critical mass” e nas duas versões de “Heavy metal”, entre outras. Para os neófitos, “Grand Prix” e “Bandwagonesque” ainda são melhores cartões de visita, mas quem esbarrar em “A catholic education” vai curtir de montão.

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E nunca é demais repetir: o mundo seria muito melhor se as pessoas ouvissem Teenage Fanclub.

LIVING COLOUR, “Time’s up”
É difícil explicar o quanto eu gosto do segundo álbum do Living Colour, mas vamos lá. Para início de conversa, é mais uma das bandas que conheci graças à MTV, com o videoclipe de “Type”, e assim que tive a oportunidade fui lá e comprei o vinil deste e do álbum de estreia, “Vivid” _ que está na lista de 20 álbuns de 1988, claro.

“Time’s up” venceu o Grammy em 1991 na categoria hard rock, dando rasteira em todas as bandas posers da época. Com produção de Ed Stasium (Rolling Stones, Ramones, Talking Heads), “Time’s up” tem entre suas 15 faixas clássicos como “Elvis is dead”, “Pride”, “New Jack Theme”, a já citada “Type”, “Solace of you” e seu maior hit, o poderoso blues “Love rears its ugly read”, que soam atuais não apenas nas letras, mas também no que diz respeito à música.

Além de fazer rock que 99% dos artistas por aí sequer conseguem sonhar, Vernon Reid (guitarra), Corey Glover (vocais), Muzz Skillings (baixo, depois substituído por Doug Wimbish) e Will Calhoun (bateria) misturaram blues, funk, hip-hop, jazz e toques eletrônicos em suas músicas, com letras que tratavam de política, racismo, crítica social e questões pessoais. É disco para fazer parte da discoteca básica de qualquer cidadão afeito à boa música.

Se não estiver na lista do Sr. Guiducci, perco a pouca fé que ainda tenho na humanidade.

LOU REED & JOHN CALE, “Songs for Drella”
Lou Reed e John Cale fizeram parte de um dos grupos mais importantes da história do rock, o Velvet Underground, até Cale sair da banda após o segundo álbum. Foram mais de 20 anos sem trabalharem efetivamente juntos, e o motivo da reunião foi o luto pela morte de Andy Warhol, um dos maiores nomes da pop art e mentor da dupla na criação do VU.

Warhol morreu em 1987, e foi durante o velório do artista que Reed e Cale começaram a pensar em uma homenagem a ele. O que inicialmente seria uma peça musical tornou-se o álbum “Songs for Drella” (Drella foi um apelido criado pelo ator Ondine, que mistura Drácula com Cinderela), gravado e produzido exclusivamente pela dupla.

Como foi pensado no formato de musical, o álbum conta a trajetória, relações e experiências vividas por Warhol em ordem cronológica, seja em primeira ou terceira pessoa e comentários de Reed e Cale a partir das próprias experiências com Andy. O resultado é belíssimo, graças a músicas como “Small town”, “It wasn’t me”, “Forever changed” e “Hello Andy”, entre outras.

Infelizmente, Lou Reed e John Cale voltaram a brigar novamente durante as gravações do álbum, que por isso não teve turnê de divulgação. Pelo menos temos o registro sonoro em estúdio de um grande álbum e uma homenagem tocante a um dos grandes artistas do século XX.

A TRIBE CALLED QUEST, “People’s instinctive travels and the paths of rhythm”
Enquanto o Public Enemy era a voz da revolta e o N.W.A. indicava os primeiros passos do gangsta rap, o grupo A Tribe Called Quest seguia os passos do De La Soul para estrear com um álbum de hip-hop otimista, relaxado, desacelerado e que virou um dos clássicos do rap, celebrado até hoje por artistas, crítica e público.

“People’s instinctive travels and the paths of rhythm” começou a ser gerado ainda em 1982, quando o produtor e performer Q-Tip estava com apenas 12 anos e criava seus samples e beats a partir de um cassete com duplo deck e dos discos de seu pai. Foi esse processo que ajudou o artista, anos depois, a entrar no estúdio com os parceiros Phife Dawg, Ali Shaheed Muhammad e Jarobi White para gravar clássicos como “Can I kick it”, “Bonita Applebum”, “I left my wallet in El Segundo”, “Push it along”, “Footprints” e “Ham ‘n’ Eggs”.

“People’s instinctive travels and the paths of rhythm” misturava rap, blues, hip hop, jazz e R&B e soul music de forma magistral, além de ser uma aula no uso do sample com inserções das mais diversas, que vão de Lou Reed e Stevie Wonder e passam por Funkadelic, Cannonball Adderley, Rotary Connection e Earth, Wind and Fire. O resultado é um disco sem igual, três décadas depois.

Júlio Black

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