Ouvindo a Islândia, Parte 1: Ólöf Arnalds

Por JÚLIO BLACK

Oi, gente.

Minha lista de cinco países dos sonhos, inspirada nos famosos “top 5” do livro “Alta Fidelidade”, inclui Nova Zelândia, Austrália, Escócia, Japão e Islândia, com o País de Gales, Suécia, Inglaterra, Irlanda e Canadá aparecendo como eventuais substitutos – Estados Unidos, convenhamos, seria muito clichê, apesar de ter a NFL; e correríamos o risco de sermos deportados num eventual governo Trump. Dos atuais integrantes do Clube dos Cinco, a Islândia vence a Nova Zelândia nos detalhes: apesar de ser a terra utilizada para as filmagens de “O Senhor dos Anéis”, ter os All Blacks, Jaca Paladium e o Flight of The Conchords, a insular nação da Oceania perde para sua colega europeia no diabo dos detalhes. A Islândia tem pouco mais de 300 mil habitantes, o que significa que a interação com outros seres humanos é reduzida; fica mais perto do continente europeu; faz frio, muito frio; tem paisagens belíssimas; o primeiro-ministro renuncia quando é pego com as calças nas mãos; é a terra dos sonhos da Leitora Mais Crítica da Coluna; e é o país que deu ao mundo não apenas a Björk, como também o GusGus, Sigur Rós, Of Monsters and Men, Sugarcubes e mais um monte de gente.

Mas é um monte de gente mesmo, a Islândia deve ter mais músicos que habitantes – tanto que o Fábio Massari escreveu, anos atrás, “Rumo à Estação Islândia”, livro dedicado apenas à cena musical do país. E é uma cena que não para de crescer, conforme pude conferir, semanas atrás, quando o Canal Bis reprisou um episódio do “Minha loja de discos” dedicado à Smekkleysa, tradicional selo e loja de discos de Reykjavik. Além de contar a história do empreendimento, o programa trazia depoimentos de artistas locais sobre a importância da Smekkleysa, com a galera eventualmente dando uma mostra do seu trabalho.

Foi amor à primeira vista, de querer mudar para a capital islandesa e passar o resto da vida ouvindo toda essa gente boa, comparecendo aos shows e comprando os discos. Uma das descobertas – e encanto imediato – foi a cantora e compositora Ólöf Arnalds. Nascida em 1980, a moça participa da cena islandesa desde o início do século, tendo iniciado suas atividades com a banda experimental múm e colaborado com artistas como Björk, Mugison, Stórsveit Nix Noltes, Slowblow e Skúli Sverrisson.

Além das atividades com outros artistas, os estudos de canto clássico, violino e o período na Academia de Artes da Islândia (onde estudou composição e novas mídias) pavimentaram o caminho para o seu primeiro álbum solo, “Við og Við”, lançado em 2007, e que foi seguido por “Innundir Skinni” (2010), “Sudden elevation” (2013) e “Palme” (2014). Seus quatro discos são marcados pela delicadeza das melodias, letras e, principalmente, pela voz da islandesa de 36 anos, capaz de arrebatamentos sonoros como “Turtledove”, “Klara”, “Crazy car”, “Vinur Minn”, “German fields”, “Patience” e “Defining gender”, entre tantas outras canções que vão conquistar logo nos primeiros acordes. O motivo? Ólöf Arnalds jamais deixa se levar pela canção descartável, mesmo que suas construções sonoras tenham um acento pop formidável, de fazer o cidadão ficar tentado a ouvir as músicas em um loop eterno.

À sua maneira, Ólöf Arnalds é um dos (arrebatadores) nomes da quase infinita fauna sonora islandesa, que merece ser mais e mais conhecida por quem gosta de boa música. Daquele pedaço de terra criado pela atividade vulcânica é capaz de brotar tudo de bom, indo do pop ao metal e passando música eletrônica, experimental, folk etc. Se quiser saber um pouco mais, basta acompanhar a coluna pelas próximas semanas.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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