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A economia prateada vai criar uma nova geração de carreiras?

A economia prateada não é um setor específico. Ela atravessa diferentes mercados a partir de uma característica em comum: oferecer produtos, serviços e experiências que considerem as necessidades de uma população que está vivendo mais.

Por Marcelle Tristão

Quando pensamos no envelhecimento da população, é comum que as primeiras palavras que venham à cabeça sejam aposentadoria, saúde e cuidados. Mas existe outra transformação acontecendo, e ela interessa diretamente a quem está pensando na própria carreira: as pessoas estão vivendo mais, trabalhando por mais tempo e criando novas demandas de consumo, serviços e experiências.

É nesse cenário que ganha força a chamada economia prateada. Você sabe o que é isso?

E estamos falando de um público que cresce rapidamente. Segundo os dados mais recentes do IBGE, o número de brasileiros com 60 anos ou mais passou de 22 milhões, em 2012, para 34,1 milhões, em 2024. Isso representa um crescimento de 53,3% em 12 anos.

A longevidade também avançou. Em 2024, a expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos.

Diante desse cenário, uma pergunta começa a fazer sentido também para quem está olhando para o próprio desenvolvimento: que profissionais serão necessários para atender às novas demandas desse mercado?

O que é economia prateada?

A economia prateada não é um setor específico. Ela atravessa diferentes mercados a partir de uma característica em comum: oferecer produtos, serviços e experiências que considerem as necessidades de uma população que está vivendo mais.

Isso pode envolver saúde e bem-estar, mas também tecnologia, turismo, educação, finanças, entretenimento, alimentação, mobilidade, varejo e comunicação.

E existe um ponto importante nessa discussão: pessoas com 60 anos ou mais não formam um grupo homogêneo.

Uma pessoa de 60 anos pode estar trabalhando, empreendendo, viajando, começando uma graduação ou aprendendo uma nova tecnologia. Outra pode precisar de apoio para atividades cotidianas. Há diferentes condições financeiras, estilos de vida, interesses e níveis de autonomia.

Por isso, pensar na economia prateada apenas como o “mercado da terceira idade” é simplificar demais a questão.

O desafio está justamente em compreender essa diversidade e criar soluções que façam sentido para diferentes momentos da vida.

O que a economia prateada tem a ver com carreira?

Imagine uma empresa de tecnologia que percebe que uma parcela crescente dos seus clientes tem mais de 60 anos.

Ela pode precisar repensar a interface do aplicativo. Talvez precise melhorar sua comunicação, simplificar determinadas jornadas, adaptar seus canais de atendimento ou pesquisar melhor os hábitos desse público.

Nenhuma dessas necessidades está necessariamente ligada à criação de uma profissão inédita.

Ela pode demandar um designer, uma pessoa de produto, um profissional de marketing, alguém de pesquisa com usuários, um especialista em acessibilidade ou um profissional de atendimento.

O que muda é o problema que esses profissionais precisam resolver.

Esse é um ponto importante para quem está planejando a carreira. As grandes transformações do mercado nem sempre aparecem na forma de novas profissões, muitas vezes, elas criam novos contextos para profissões que já conhecemos.

Quais carreiras podem crescer com a economia prateada?

A economia prateada pode abrir espaço para profissionais de áreas bastante diferentes. E entender isso ajuda a enxergar oportunidades que talvez ainda não estejam no radar.

Tecnologia e experiência digital para pessoas 60+

A ideia de que pessoas mais velhas estão necessariamente distantes da tecnologia já não corresponde à realidade.

Em 2025, 74,5% das pessoas com 60 anos ou mais utilizaram a internet, segundo a PNAD Contínua sobre acesso à Internet e televisão e posse de telefone móvel celular para uso pessoal 2025, divulgada pelo IBGE em julho de 2026.

Aplicativos de banco, compras online, serviços públicos digitais, redes sociais e ferramentas de comunicação atuais são exemplos que fazem parte dessa realidade. E isso cria espaço para profissionais de tecnologia, produto, UX, UI, pesquisa com usuários e acessibilidade digital.

Mais do que saber desenvolver uma solução, será necessário entender para quem ela está sendo desenvolvida. Afinal, uma experiência digital pode funcionar perfeitamente para determinado grupo e ser confusa ou pouco acessível para outro.

Profissionais capazes de identificar essas diferenças terão um papel importante na construção de produtos melhores.

Marketing e comunicação para o público 60+

Também existe uma oportunidade importante para quem trabalha com comunicação.

Por muito tempo, a publicidade representou o envelhecimento de maneira bastante limitada. O público mais velho aparecia associado quase exclusivamente a aposentadoria, doenças ou cuidados familiares.

Marketing, conteúdo, publicidade, branding e pesquisa de comportamento podem encontrar novos desafios nesse território.

E há uma competência essencial por trás de todos eles: saber enxergar pessoas para além dos estereótipos associados à idade.

Como falar com uma pessoa de 65 anos que está começando um negócio? Como criar uma campanha para alguém que viaja frequentemente? Como vender tecnologia sem pressupor que toda pessoa mais velha tenha dificuldade com ela?

Saúde, bem-estar e longevidade

A saúde continua sendo uma área central, mas a discussão sobre longevidade vai além do tratamento de doenças.

Prevenção, atividade física, alimentação, saúde mental, qualidade de vida e envelhecimento ativo também fazem parte desse cenário.

Uma população que vive mais tempo demanda novas formas de cuidado e acompanhamento. Isso amplia possibilidades para profissionais da saúde e também para quem atua em tecnologia, gestão, educação e desenvolvimento de serviços.

Aqui, a oportunidade não está necessariamente em uma nova profissão. Ela pode estar na criação de novos modelos de atendimento, produtos e experiências que acompanhem diferentes momentos da vida.

Finanças e planejamento para uma vida mais longa

Viver mais também pode significar planejar financeiramente para um período maior.

Esse cenário abre espaço para profissionais que trabalham com planejamento financeiro, seguros, previdência, investimentos e educação financeira.

Mas existe uma mudança importante nessa conversa. Não basta pensar apenas em produtos financeiros para aposentados.

O mercado financeiro também precisará compreender essas trajetórias mais diversas.

Turismo, educação e lazer

Existe ainda uma dimensão que costuma ficar de fora dessa conversa: o desejo de continuar vivendo novas experiências.

Turismo, cultura, entretenimento, educação e lazer também podem se beneficiar do crescimento desse mercado.

A aposentadoria, por exemplo, não precisa representar o fim da aprendizagem. Para algumas pessoas, pode significar justamente a possibilidade de voltar a estudar, aprender um idioma, fazer uma nova formação ou explorar um interesse antigo.

Isso cria oportunidades para profissionais que trabalham com educação continuada, turismo, hospitalidade, cultura, eventos e produção de experiências.

As profissões não precisam ser novas para atender a um mercado novo

Talvez esse seja o ponto mais interessante para quem está pensando na própria carreira.

Quando falamos sobre “profissões do futuro”, existe uma tendência de procurar cargos com nomes completamente novos. Mas nem sempre é assim que as transformações acontecem.

O que pode mudar é o repertório necessário para fazer esse trabalho.

Com o avanço da economia prateada, pode se tornar cada vez mais relevante entender envelhecimento, acessibilidade, comportamento, diversidade etária e diferentes formas de interação com produtos e serviços.

A carreira, nesse sentido, não precisa ser reinventada do zero. Ela pode (e deve) ser ampliada.

Quais habilidades podem ganhar importância?

Se o mercado começa a olhar para uma população mais diversa em idade, profissionais também precisam desenvolver a capacidade de trabalhar com essa diversidade.

A primeira competência é a capacidade de compreender comportamentos. Não basta saber a idade de um consumidor. É preciso entender seus objetivos, dificuldades, hábitos e expectativas.

Outra é a escuta. Criar produtos para determinado público sem ouvir as pessoas que fazem parte dele aumenta o risco de reproduzir estereótipos.

Também entram nesse repertório conhecimentos sobre acessibilidade, comunicação, tecnologia e experiência do usuário.

E existe uma habilidade que vale para qualquer área: aprendizagem contínua.

O mercado de trabalho já está passando por transformações provocadas pela tecnologia, pela inteligência artificial e por mudanças demográficas. O envelhecimento da população acrescenta mais uma camada a esse processo.

A economia prateada pode mudar o jeito como pensamos carreira

Talvez a economia prateada não crie uma nova geração de carreiras. É uma transformação que acontece de uma maneira menos óbvia.

Em vez de vermos surgir uma lista de profissões completamente inéditas, podemos assistir à expansão de novas possibilidades dentro de carreiras que já conhecemos.

Quando a sociedade muda, o trabalho também muda.

O envelhecimento da população brasileira não diz respeito apenas ao futuro da previdência ou da saúde. Ele também fala sobre consumo, tecnologia, educação, lazer, serviços e trabalho.

E os números mostram que essa mudança já está acontecendo: temos mais pessoas 60+, elas estão vivendo mais, uma parcela significativa continua trabalhando e quase três quartos delas já acessam a internet.

Para quem está construindo uma carreira, vale observar essa transformação antes que ela se torne evidente em todos os setores.

A pergunta talvez não seja “qual será a profissão do futuro?”.

Pode ser algo mais próximo da realidade:

“qual problema novo está surgindo e como aquilo que eu sei fazer pode ajudar a resolvê-lo?”

Essa é uma forma mais interessante de pensar o futuro da carreira. Porque, em uma sociedade que está vivendo mais, as oportunidades não estarão apenas nas profissões que ainda não existem. Elas também estarão nas novas perguntas que as profissões de hoje precisarão aprender a responder.

 

Marcelle Tristão

Marcelle Tristão

Marcelle Tristão é colunista do jornal Tribuna de Minas e da TV Alterosa, onde apresenta o quadro Negócios e Carreira. É mentora estratégica em liderança, negócios e carreira, palestrante e fundadora do Grupo M.Tristão, um ecossistema voltado ao desenvolvimento de pessoas e organizações.É coautora do livro Mulheres na Liderança: o poder de uma mentoria, pela Editora Leader, contribuindo ativamente para a formação e fortalecimento de lideranças femininas no Brasil.Conveniada à Fundação Getulio Vargas (FGV) em Juiz de Fora, é psicóloga e educadora com mais de 30 anos de experiência. Está à frente da Tristão Escola de Negócios, iniciativa dedicada à formação executiva e ao desenvolvimento de competências estratégicas para o mercado contemporâneo.Com mais de 1.000 horas de mentoria realizadas com CEOs, executivos de alto escalão e empresários, é especialista em gestão comportamental e inteligência emocional. Atua com foco em decisões, posicionamento e fortalecimento de lideranças em contextos cada vez mais digitais, exigentes e competitivos.

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