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O primeiro cargo de gestão: por que ser excelente tecnicamente não prepara ninguém para liderar?

Ser excelente tecnicamente pode ajudar alguém a chegar à liderança, mas não necessariamente ensina a liderar.

Por Marcelle Tristão

Existe uma lógica bastante comum no mercado de trabalho: um profissional entrega bons resultados, domina tecnicamente sua área, torna-se referência para os colegas e, em algum momento, recebe a oportunidade de liderar uma equipe.

À primeira vista, parece o próximo passo natural da carreira. Se aquela pessoa era tão boa no que fazia, por que não estaria preparada para coordenar o trabalho de outras?

É justamente aí que começa um dos desafios mais interessantes do primeiro cargo de gestão.

Ser excelente tecnicamente pode ajudar alguém a chegar à liderança, mas não necessariamente ensina a liderar. Isso acontece porque uma promoção para gestor não representa apenas um aumento de responsabilidade, ela exige uma mudança na maneira como o profissional trabalha, toma decisões, se relaciona com as pessoas e, principalmente, enxerga o próprio valor.

Por que bons especialistas nem sempre se tornam bons gestores

O desempenho técnico costuma ser um critério importante para promoções, e há uma razão para isso. O problema aparece quando presumimos que essas competências são suficientes para liderar.

Isso porque ao assumir uma equipe, o trabalho muda. Agora, não basta saber fazer, é preciso conseguir orientar outras pessoas. Não basta resolver, é necessário decidir quando intervir e quando permitir que alguém encontre a própria solução. Não basta cuidar da própria performance, é preciso lidar com diferentes níveis de experiência, motivação, expectativa e autonomia.

É por isso que a transição de especialista para gestor pode ser tão desconfortável. De repente, aquilo em que você sempre foi muito bom deixa de ocupar o centro da sua rotina.

O erro de continuar sendo o melhor executor da equipe

Imagine que alguém da equipe encontre uma dificuldade em uma tarefa que você domina e ao olhar para a situação, sabe que conseguiria resolver em 15 minutos.

O que parece mais eficiente? Fazer você mesmo?

É justamente essa lógica que pode se transformar em uma armadilha para novos gestores.

No início, assumir algumas tarefas pode até parecer uma forma de ajudar a equipe. O problema é quando isso vira padrão e aos poucos, o líder passa a revisar tudo, participar de todas as decisões, corrigir cada detalhe e assumir atividades sempre que percebe que conseguiria executá-las melhor ou mais rapidamente.

O resultado costuma ser previsível: gestor sobrecarregado e equipe dependente.

Além disso, existe um efeito menos visível, que comentamos anteriormente. Quando o líder resolve constantemente os problemas dos outros, também reduz as oportunidades para que essas pessoas aprendam a solucioná-los.

Isso não significa que um gestor nunca deva colocar a mão na massa. Em determinados momentos, sua experiência técnica será extremamente valiosa, a questão é perceber quando você está contribuindo e quando está centralizando.

Se tudo funciona melhor apenas quando o gestor executa pessoalmente, talvez ainda exista ali um excelente especialista ocupando uma posição de liderança.

Liderar exige competências que talvez nunca tenham sido cobradas antes

A primeira experiência como gestor coloca o profissional diante de situações para as quais nenhuma excelência técnica oferece uma resposta pronta.

São habilidades construídas com prática, repertório e, muitas vezes, alguns erros pelo caminho. Entre elas, algumas merecem atenção especial.

Delegar sem abandonar

Delegar não é simplesmente transferir uma tarefa da sua lista para a lista de outra pessoa. É algo que envolve explicar o contexto, alinhar expectativas, combinar critérios de sucesso e definir o nível de autonomia adequado. Depois disso, é preciso acompanhar, mas sem transformar acompanhamento em controle permanente.

Para quem passou anos sendo reconhecido pela execução, confiar que outra pessoa fará algo de uma maneira diferente da sua pode ser um exercício difícil.

Dar feedback e conduzir conversas difíceis

Antes da gestão, é possível passar anos trabalhando sem precisar dizer a um colega que determinado comportamento precisa mudar.

Já para um líder, evitar essas conversas tem consequências: problemas pequenos se acumulam, expectativas ficam pouco claras e comportamentos inadequados podem ser interpretados como aceitáveis.

Dar feedback não significa procurar erros o tempo todo, mas criar clareza suficiente para que as pessoas entendam o que está funcionando, o que precisa mudar e como podem evoluir.

Desenvolver pessoas, não apenas cobrar entregas

Existe uma diferença importante entre acompanhar resultados e desenvolver profissionais.

Por isso, uma das perguntas mais importantes da liderança não deveria ser apenas “o que precisamos entregar?”, mas também “quem essas pessoas estão se tornando enquanto entregam?”.

Desenvolvimento acontece quando há espaço para assumir responsabilidades, experimentar, errar, receber orientação e conquistar autonomia.

Tomar decisões sem ter todas as respostas

Quanto mais responsabilidade alguém assume, mais frequentes se tornam as decisões em cenários de incerteza.

Nem sempre haverá dados suficientes, consenso entre as pessoas ou uma alternativa claramente correta e isso pode ser especialmente desconfortável para profissionais acostumados a encontrar segurança no domínio técnico.

Na gestão, maturidade também significa reconhecer limites, ouvir perspectivas diferentes e decidir mesmo quando não existe uma resposta perfeita.

Aprender a confiar

Confiar significa aceitar que nem tudo será feito exatamente como você faria e permitir que outras pessoas desenvolvam métodos próprios, assumam responsabilidades e até cometam erros administráveis.

Sem confiança, a delegação vira fiscalização. Com ela, pode se transformar em desenvolvimento.

Como saber se você está realmente fazendo a transição de especialista para gestor?

Nem sempre essa mudança acompanha a velocidade da promoção. O cargo pode mudar em uma segunda-feira, enquanto a identidade profissional leva meses para se ajustar.

Por isso, algumas perguntas ajudam a perceber onde você está nesse processo:

  • Sua equipe consegue tomar decisões sem consultar você o tempo todo?
  • Você passa mais tempo orientando o trabalho ou assumindo tarefas que deveriam estar com outras pessoas?
  • As pessoas sabem claramente o que se espera delas?
  • Você consegue delegar mesmo sabendo que faria determinada atividade mais rapidamente?
  • Quando alguém erra, sua primeira reação é corrigir ou entender o que essa pessoa precisa aprender?
  • Você avalia um bom dia de trabalho apenas pelo que produziu ou também pelo que ajudou sua equipe a avançar?

Não existe uma resposta ideal para todas essas perguntas, o mais importante é observar padrões.

O sucesso na gestão tem outra medida

Quando alguém assume seu primeiro cargo de liderança, é natural querer mostrar que mereceu a oportunidade. O risco está em tentar provar isso usando exatamente os mesmos critérios que funcionavam antes.

Você não precisa deixar de ser um bom especialista para se tornar um bom gestor. Mas precisa sim, entender que o jogo mudou.

Agora, parte do seu trabalho está em dar direção, estabelecer prioridades, criar confiança, desenvolver pessoas e construir autonomia.

No começo, essa contribuição pode parecer menos concreta do que terminar uma tarefa ou resolver um problema sozinho. Com o tempo, porém, ela se torna muito mais visível.

Por isso, talvez uma das melhores perguntas para quem acaba de assumir uma equipe não seja “como posso continuar mostrando que sou bom no que faço?”.

Pode ser outra:

O que precisa acontecer para que as pessoas ao meu redor consigam fazer um trabalho cada vez melhor?

É nessa mudança de pensamento que, muitas vezes, começa a verdadeira transição de especialista para gestor.

 

Marcelle Tristão

Marcelle Tristão

Marcelle Tristão é colunista do jornal Tribuna de Minas e da TV Alterosa, onde apresenta o quadro Negócios e Carreira. É mentora estratégica em liderança, negócios e carreira, palestrante e fundadora do Grupo M.Tristão, um ecossistema voltado ao desenvolvimento de pessoas e organizações.É coautora do livro Mulheres na Liderança: o poder de uma mentoria, pela Editora Leader, contribuindo ativamente para a formação e fortalecimento de lideranças femininas no Brasil.Conveniada à Fundação Getulio Vargas (FGV) em Juiz de Fora, é psicóloga e educadora com mais de 30 anos de experiência. Está à frente da Tristão Escola de Negócios, iniciativa dedicada à formação executiva e ao desenvolvimento de competências estratégicas para o mercado contemporâneo.Com mais de 1.000 horas de mentoria realizadas com CEOs, executivos de alto escalão e empresários, é especialista em gestão comportamental e inteligência emocional. Atua com foco em decisões, posicionamento e fortalecimento de lideranças em contextos cada vez mais digitais, exigentes e competitivos.

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