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O flautista mágico

Por Marcos Araújo

13/01/2022 às 07h10 - Atualizada 12/01/2022 às 19h10

Não vivemos em um país de conto de fadas, pelo contrário, mas quem olha para o Brasil quase pode confundi-lo com Hamelin, na região da Baixa Saxônia, na Alemanha. Quem não se lembra da cidade que contratou um flautista para livrá-la da praga de ratos? A história tem origem no folclore medieval e foi reescrita pelos Irmãos Grimm. Seguindo a melodia hipnótica da flauta mágica do caçador de ratos, os roedores atravessaram os portões da cidade e se afogaram no fundo do rio. Porém, eles não foram os únicos atraídos por sua música.

Quando a cidade se recusou a pagar o flautista por tê-la livrado da infestação de ratos, ele colocou em prática seu plano de vingança, atraindo as crianças de Hamelin com sua melodia. Em transe, meninos e meninas seguiram o flautista para fora da cidade e simplesmente desapareceram.

Difícil recordar-se da lenda da flauta de Hamelin e não compará-la com a história do flautista que anda por terras brasileiras e que usa seu discurso para encantar pais e mães negacionistas, levando seus filhos para a morte. Usando de sua verborragia, o flautista, não o da cidade alemã, jurou que não tem conhecimento de uma única morte de criança por conta do coronavírus. Mas os dados disponíveis mostram que, até agora, foram registradas 301 mortes de crianças entre 5 e 11 anos por Covid-19 no país. Utilizando-se da mesma lábia que enfeitiça ouvidos negacionistas, ele chamou aqueles que alertam sobre os riscos de uma nova variante de “tarados por vacinas”, uma fala que mais evidencia uma tara incompreensível em negar proteção e cobertura vacinal para crianças.

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Já sabemos que não é só uma gripezinha. Já sabemos que a cloroquina não serve para esse tratamento. Então, até quando esse tipo de discurso encontrará pessoas dispostas a escutá-lo? Não é possível que não se entenda que estamos diante de uma irresponsabilidade atroz apenas em razão de um projeto eleitoral. Não é possível que não se entenda que faz parte do rito ter que governar para todos. Para crianças, para jovens, para adultos, para idosos, para quem gosta, para quem não gosta, para quem ama e para quem odeia. Essa é a dor e a delícia de ser o servidor público número um de uma nação.

Diante de comentários desajuizados, a Sociedade Brasileira de Pediatria saiu a público para reiterar aos pais e responsáveis que a população não deve temer a vacina, mas, sim, a doença que ela busca prevenir, bem como suas complicações. Não queremos mais melodias hipnóticas de flautistas vingativos. A hora do transe já acabou. Para concluir esse texto, recorro ao médico de Ribeirão Preto (SP), Rodolfo da Silva, pai de Alicia, que morreu aos 7 anos com Covid-19, e está feliz e aliviado com a inclusão das crianças de 5 a 11 anos no Plano Nacional de Vacinação pelo Ministério da Saúde.

Ele disse: “Nem sempre a criança vai falar o que está sentindo por medo de remédio, injeção. Vacinar é o que vai fazer a diferença. A gente nasce e já ganha a vacina. É a diferença que pode salvar a vida das pessoas”.

Marcos Araújo

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