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Literatura no cárcere

Por Marisa Loures

22/10/2019 às 09h59 - Atualizada 22/10/2019 às 10h12

Convidado da Jornada Literária, do PPG Letras: Estudos Literários, o professor Marcelo dos Santos coordena, desde 2016, projeto que permite diminuição de pena através da leitura – Foto Divulgação

Foi em 2016 que Marcelo dos Santos, professor da Unirio, passou a coordenar dois projetos de extensão envolvendo a experiência carcerária no estado do Rio de Janeiro. “O leitor como protagonista” oferece oficinas de leitura, escrita e dramaturgia para egressos do sistema penitenciário e seus familiares. Já o “Remição de pena pela leitura” consiste em uma ação da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) que permite, por ano, uma diminuição de até 48 dias de pena para até 12 livros lidos, sendo um a cada mês. Cerca de 1.300 detentos participam dessa segunda iniciativa, entre eles o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral.

Uma das questões que se levanta em torno de uma iniciativa como essa é sobre o real potencial de mudança que a leitura exerce sobre seus participantes. “Sem dúvida, mas não gostaria de vincular tal mudança somente à atuação do projeto. Ela deve muito à atuação incrível dos professores das escolas do espaço prisional. Devemos ter em mente que, para muitos que cumprem pena, a escolarização só acontecerá naquele espaço. Sobre a mudança do detento em relação à leitura, ouço muitos depoimentos e agradecimentos, claro que por conta do benefício concedido, mas muito também pelo momento de liberdade de pensamento, de reflexão, que a leitura proporciona. Evidentemente que isso não acontece com todos, mas é fato que isso acontece para alguns. A população carcerária tem dentro dela uma população leitora da qual nós, do universo das Letras, talvez nos esqueçamos”, afirma o professor.

Marcelo é pesquisador de arquivos literários e, atualmente, desenvolve pesquisa sobre cartas de escritores brasileiros viajantes. Também é autor do livro “Afonso Henriques Neto por Marcelo Santos”, volume da Coleção Ciranda da Poesia (EdUERJ, 2012), obra na qual escreveu sobre o poeta mineiro, radicado no Rio de Janeiro, importante nome da chamada “geração marginal”. Ele estará em Juiz de Fora, no dia 8 de novembro, às 14h, falando sobre “Leitura e (res) socialização: experiências de mediação de leitura no cárcere”, na nona edição da Jornada Literária. Promovido pelos discentes do Programa de Pós-graduação em Letras: Estudos Literários, da Universidade Federal de Juiz de Fora, o evento é totalmente gratuito e contará com conferências, mesas-redondas e sessões de comunicação.

Quem quiser receber certificado como ouvinte precisa realizar a inscrição, até o dia 28 deste mês, através do site da jornada. Neste caso, é necessário ter, pelo menos, 75% de participação em todo o evento. Para apresentação de comunicações, as inscrições foram prorrogadas até esta quarta-feira (23). Programação completa em https://jornadaliterariauf.wixsite.com/jornadaliteraria?fbclid=IwAR1DqcNc88tO61uBcLIY6tp6_HQduFHvFxVMK0zQOAqKI8naJBXNJWjJyfs

Marisa Loures – Quem é Marcelo dos Santos? Como a literatura foi apresentada a você?

Marcelo dos Santos – Do modo como você me pergunta, juntando a autodefinição e a participação da literatura na minha vida, acredito que posso responder da seguinte maneira: Marcelo dos Santos nasceu no bairro da Tijuca, na Zona Norte do Rio de Janeiro, filho de pais nordestinos e criado pela mãe viúva com pouquíssimos recursos econômicos; e para quem a leitura e a literatura traçaram um roteiro decisivo no que diz respeito à formação acadêmica e ao exercício da profissão.A escola foi importantíssima nessa trajetória: tive a sorte de ter professoras incentivadoras da leitura e da manipulação de livros nas escolas públicas que frequentei. Na minha formação acadêmica, uma outra face da literatura se apresentou: a discussão teórica, o pensamento sobre a literatura. Acho que aí tem um dado de disponibilidade, de vocação se se quiser pensar assim, que me levou a vislumbrar na literatura o caminho da docência.

– Você coordena dois projetos voltados para a leitura, envolvendo a experiência carcerária. “O leitor como protagonista” e “Remição de pena pela leitura”. Como funcionada cada um deles?

Quando entrei para a Unirio, em 2014, fui apresentado a um projeto de extensão chamado Teatro na Prisão, que, há mais de vinte anos, realiza aulas de teatro nos presídios do Rio de Janeiro. O projeto queria expandir as ações para os egressos do sistema, então o “O leitor como protagonista” foi e é uma maneira de garantir espaço para isso, com oficinas de leitura, escrita e dramaturgia para egressos do sistema e seus familiares. Os encontros acontecem na Unirio, e isso é importante porque garante aabertura daquele campus universitário a uma parte da população que não se vê nesse espaço. O projeto “Remição de pena pela leitura” foi possível devido ao esforço da Divisão de Inserção Social da Seap-RJem aprovar uma resolução, seguindo experiências de outros estados, para ações educativas.A ação que coordeno desde 2016 compreende três etapas: a apresentação de livros e a formação de uma turma de leitores, a mediação de leitura, sem dúvida o momento mais importante, quando o projeto se justifica, a meu ver, porque é o momento em que eu e os colaboradores, nas condições disponíveis e raramente ideais, tentamos construir com esses alunos apenadosa experiência da leitura para além da decodificação do texto. No terceiro momento, os participantes realizam a produção textual, com relatórios de leitura e resenhas.

– O que eles mais gostam de ler?  E o que, a seu ver, determina a escolha deles?

As respostas sobre o gosto vêm das produções textuais: os participantes gostam muito de livros de autoajuda e de narrativas que tragam algo edificante, mensagens de esperança, como o romance “A cabana”. Essas leituras têm um facilitador: a linguagem muito acessível. Mas isso não significa que outros interesses não venham disfarçados de resistência. Na mediação, muitos que leram “O processo”, de Franz Kafka, resistem por conta das dificuldades da narrativa. Mas, conversando sobre o livro, e depois lendo as resenhas e relatórios, é revelador perceber a leitura que alguns fazem desse livro pelo viés da identificação.

– Existe um critério de seleção das obras que chegam até os detentos, ou eles podem ter acesso a qualquer tipo de literatura?

Os integrantes do projeto leem os títulos da lista elaborada especialmente para o projeto, isso porque o projeto realiza a mediação de leitura e a correção da produção textual, e os colaboradores precisam ter domínio dos títulos. Existe um critério que norteou a lista de livros: títulos mais buscados e lidos nas unidades que tinham bibliotecas. Hoje temos uma lista maior, ainda longe do ideal, com mais de 120 títulos.

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“É difícil pensar positivamente sobre benefícios a apenados quando estamos nesse contexto, que reforça o punitivismo e oblitera as possibilidades de ressocialização. Essas histórias de ressocialização efetiva existem, conheço algumas de perto. Mas a quem elas podem interessar diante dessa expectativa punitivista?”

– Li reportagens sobre o projeto “Remição de pena pela leitura” publicadas recentemente, e, nos comentários, havia algumas críticas muito fortes. Alguns diziam que a leitura era só um pretexto para saírem e cometerem mais crimes. Como vocês respondem a opiniões desse tipo?

Não sei se elas são respondíveis, na medida em que elas já trazem uma afirmação: ações educativas somente servem para ajudar o condenado a voltar à vida do crime. Prefiro não rebater, mas tentar compreender essas opiniões. Acredito que elas venham da percepção e vivência de um contexto de impunidade, de crime organizado, de corrupção: é difícil pensar positivamente sobre benefícios a apenados quando estamos nesse contexto, que reforça o punitivismo e oblitera as possibilidades de ressocialização. Essas histórias de ressocialização efetiva existem, conheço algumas de perto. Mas a quem elas podem interessar diante dessa expectativa punitivista? Precisamos ouvir críticas ao projeto no sentido de apontar suas limitações, que são muitas, porque acredito na adaptação e no aperfeiçoamento do processo educativo. Não idealizo a leitura a ponto de não saber o que pode estar no horizonte das ações que geram benefícios. Contudo, os benefícios ou a liberdade serão concedidos e a volta ao crime acontecerá – não podemos ser ingênuos e achar que aquele contexto de que falei não possa garantir essa “liberdade”. As ações educativas, a leitura, presentes nesse contexto, podem ter alguma, mínima que seja, chance de alterar esse quadro.

– Sua participação na Jornada Literária, da UFJF, para falar sobre “Leitura e (res) socialização: experiências de mediação de leitura no cárcere” é uma prova de que a academia está se abrindo, cada vez mais, para o que acontece na sociedade, numa tentativa de aproximação, e liquefazendo a ideia de que ela seja muito voltada para si?

Não sei se consigo ver o projeto que coordeno como prova de abertura da academia. Aproveito o espaço para agradecer aos organizadores da Jornada: esses convites é que talvez sejam essa prova. Acho que a abertura da academia veio menos dela própria do que da transformação vinda pela entrada da sociedade na academia, especialmente aquela que veio por conta das ações afirmativas. Diante disso, a atividade intelectual tem condições de abrir a academia sem ter necessariamente ações que possam ser lidas como “práticas” ou “assistencialistas”.

– Atualmente, você também pesquisa cartas de escritores brasileiros viajantes. Poderia nos contar se já houve descobertas curiosas e inéditas nessas correspondências?

Em 2015, comecei esse projeto de pesquisa das cartas de escritores que viajaram no final do século XIX, porque me interessei pela vida literária no compasso da vida diplomática e das viagens constantes. Sobre as curiosidades, logo no início do projeto, me surpreenderam muito as cartas do escritor Aluísio Azevedo. É curioso ver como nas cartas de Aluísio, especialmente naquelas iniciais que relatam seus primeiros contatos com a Europa, há exercícios de literatura na descrição que o escritor faz, por exemplo, de Vigo, seu primeiro posto. Já a primeira viagem é uma narrativa interessante, em cartas que ele remete ao então amigo Graça Aranha, com direito a náuseas, observação de tipos e do lazareto, lugar que o escritor-narrador descreve como sendo sua primeira experiência europeia. Para um escritor naturalista, falar do lazareto é um motivo especial para descarregar toda a intensidade de sua escrita. Essas cartas são encontráveis apenas no arquivo de Graça Aranha.

– Qual é a contribuição dessa pesquisa para a literatura brasileira?

Espero que a pesquisa contribua para o complemento do panorama de escrita e vida literária no final do século XIX. Tenho coletado cartas dos escritores-diplomatas Carlos Magalhães de Azeredo e Domício da Gama, por exemplo, que não têm grande expressão literária. Se, por um lado, esses autores podem ser consideradosmenos importantes por suas qualidades estéticas, isso não significa que essa atuação não possa revelar um panorama de questões no campo da literatura brasileira que digam muito sobre as condições culturais do Brasil. Nesse sentido, a pesquisa pode interessar para os estudiosos da vida literária que veem nos documentos, na pesquisa em arquivos literários, definições mais específicas das condições da intelectualidade e da vida artística.

Jornada Literária

6 a 8 de novembro, na Faculdade de Letras da UFJF, com conferências, mesas-redondas e sessões de comunicação.

Conferência “Leitura e (res) socialização: experiências de mediação de leitura no cárcere”, com Marcelo dos Santos: 8 de novembro, às 14h.

Inscrições para obtenção de certificado, apresentação de comunicações e  programação completa em https://jornadaliterariauf.wixsite.com/jornadaliteraria?fbclid=IwAR1DqcNc88tO61uBcLIY6tp6_HQduFHvFxVMK0zQOAqKI8naJBXNJWjJyfs

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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