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O meu conceito de Herói


Por Daniela Arbex

11/08/2019 às 07h00

Fazer o dever com o Diego é o meu calcanhar de Aquiles. Quanto sinto que ele enrola, fico danada. Dia desses, ele reclamou que eu estava sendo muito exigente. “Você não sabe que as mães são bravas?”, perguntei. Entrei pelo cano. “E os pais são extraordinários”, ele acrescentou, dando uma gargalhada. Touché! Diego tem a sorte de ter realmente um pai extraordinário ao lado dele. Um homem que tem deixado marcas fundamentais na história do nosso filho, das quais ele se lembrará por toda a vida. Eu me lembro das marcas que o meu pai deixou na minha existência. Me lembro de todas as vezes que ele segurava a minha mão durante a aplicação de uma dolorida injeção de benzetacil. E de todas as noites em que me cobriu ou das manhãs em que acordava antes do despertador para me chamar para a escola.

Lembro também do dia em que ele deixou que eu e o Sandro, meu irmão mais velho, maquiássemos o seu rosto e fizéssemos maria-chiquinha em seus cabelos crespos e cuidadosamente penteados. Ainda morávamos na Rua Halfeld. Eu tinha 8 anos, a idade do meu filho hoje, e o Sandro dois anos a mais. Considerando que o Sr. José tem 91 anos agora, ele tinha quase 60 na época e representava uma geração de pais conservadores e cerimoniosos. Mesmo assim, se deixou passar batom e se despentear para nos fazer felizes. E fez!

Nesta semana em que o coronel Ustra, condenado por tortura durante a ditadura brasileira foi alçado ao posto de herói, eu fiquei pensando no que a palavra herói quer dizer. Herói para mim é o meu pai que, durante mais de 50 anos, trabalhou como representante comercial, viajando por todo país para nos dar conforto. Nunca teve uma multa na sua carteira. Nunca se envolveu em um acidente, nunca bebeu antes de dirigir. Mesmo assim, ao se aposentar, foi condecorado pelo Estado com uma aposentadoria de fome, vergonhosa e injusta para alguém que contribuiu por tantos anos com o país.

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Herói para mim são os corajosos pais da boate Kiss, que reúnem forças, diariamente, para se levantar e viver, mesmo que estejam morrendo um pouco a cada dia. Falta-lhes sua melhor metade, a mais essencial. Herói para mim são os bombeiros de Brumadinho que, no cumprimento do estrito dever, colocaram em risco a sua vida para salvar a dos outros ou, pelo menos, salvar a memória dos soterrados pela lama, garantindo a estranhos o direito a um funeral digno. Herói para mim é o pedreiro Antônio Carlos. Sem dinheiro para dar um presente de aniversário para a filha Emanuelly, que completava 5 anos, ele reuniu o pouco que tinha para comprar uma fatia de bolo na padaria e uma vela, a fim de surpreender a menina e não deixar a data passar em branco.

Herói para mim é o pai americano de 96 anos que foi convocado para uma audiência judicial na cidade de Providence, capital do estado de Rhode Island, após ter sido multado por excesso de velocidade. Questionado pelo popular juiz Frank Caprio, o idoso explicou que excedeu o limite da via porque tinha ido levar o filho de 63 anos ao médico. Deficiente e com câncer, o filho do motorista precisa fazer exames de sangue regularmente para o controle da doença. Emocionado, o juiz perdoou o idoso da multa e ainda disse que ele é um exemplo de pessoa que, aos quase cem anos, ainda cuida de sua família.

Agradeço sempre por ter sido criada com valores que me fizeram entender que tipo de pessoas são realmente exemplos: as grandes, as generosas, as vestidas de humanidade. Ustra jamais será referência nacional, pelo menos para mim. A controversa imagem dele só serve para alimentar os delírios do poder. Fico com os meus heróis de carne, osso e alma, as pessoas de verdade, capazes de nos ensinar a amar e a viver.

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