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20 fósseis do parente humano encontrado em cavernas da África do Sul tiveram diagnóstico enigmático

Descoberta de fósseis do Homo naledi na África do Sul levanta mistérios sobre sexo e comportamento.


Por Leticia Florenco

03/07/2026 às 09h05

20 fósseis do parente humano encontrado em cavernas da África do Sul tiveram diagnóstico enigmático
Programa Rising Star/National Geographic

Uma nova pesquisa envolvendo fósseis do Homo naledi, um dos parentes humanos mais enigmáticos já descobertos, trouxe uma revelação inesperada que está mobilizando a comunidade científica.

A análise de proteínas preservadas em dentes encontrados no sistema de cavernas Rising Star, na África do Sul, indicou que os 20 indivíduos estudados eram do sexo feminino, um resultado considerado incomum e ainda sem explicação definitiva.

A descoberta amplia os mistérios em torno da espécie, que desde sua identificação, em 2015, desafia conceitos tradicionais sobre a evolução humana e o desenvolvimento de comportamentos complexos entre hominídeos de cérebro reduzido.

Descoberta revolucionou a paleoantropologia

Os primeiros fósseis do Homo naledi foram encontrados na Câmara Dinaledi, uma região profunda e de difícil acesso do sistema de cavernas Rising Star.

Desde então, centenas de ossos pertencentes à espécie foram recuperados, formando um dos conjuntos fósseis mais completos já encontrados de um hominídeo extinto.

O Homo naledi viveu entre aproximadamente 335 mil e 241 mil anos atrás. Embora apresentasse um cérebro com cerca de um terço do tamanho do cérebro humano moderno, possuía características anatômicas que combinavam traços primitivos e relativamente avançados.

Desde sua descoberta, pesquisadores discutem a possibilidade de que esses indivíduos realizassem práticas funerárias intencionais, depositando seus mortos no interior das cavernas, hipótese que permanece cercada de controvérsias.

Estudo utilizou proteínas preservadas nos dentes

Na pesquisa mais recente, cientistas analisaram proteínas preservadas no esmalte dentário de 23 amostras fósseis.

Após eliminar amostras repetidas e materiais sem qualidade suficiente para análise, foram estudados os dentes de 20 indivíduos diferentes.

A técnica utilizada procura identificar a proteína amelogenina ligada ao cromossomo Y, presente apenas em indivíduos masculinos. No entanto, nenhum dos fósseis apresentou esse marcador biológico.

O resultado chamou a atenção porque sugere que todos os indivíduos analisados eram mulheres, algo extremamente incomum em um conjunto tão grande de fósseis pertencentes à mesma espécie.

Resultado surpreendeu os pesquisadores

Os responsáveis pelo estudo afirmaram que o resultado foi recebido com cautela. Segundo eles, os testes foram repetidos diversas vezes e analisados por laboratórios independentes para descartar qualquer possibilidade de erro técnico.

Mesmo após novas verificações, os pesquisadores confirmaram a ausência completa do marcador masculino em todas as amostras examinadas.

O achado também ajuda a explicar uma característica observada desde a descrição inicial da espécie: a pequena diferença de tamanho entre os indivíduos adultos encontrados no local.

Em diversas espécies de primatas e de hominídeos, machos costumam apresentar maior porte físico, característica conhecida como dimorfismo sexual. No Homo naledi, essa diferença praticamente não foi observada.

Hipóteses dividem especialistas

A principal questão levantada pelo estudo é por que apenas indivíduos femininos teriam sido encontrados naquele setor da caverna.

Uma das interpretações sugere que poderia existir algum tipo de separação por sexo durante os rituais funerários da espécie.

Caso essa hipótese seja confirmada, representaria um comportamento social extremamente sofisticado para um hominídeo com cérebro relativamente pequeno.

Outra possibilidade considerada pelos cientistas envolve uma alteração genética. Os pesquisadores destacam que o gene responsável pela proteína amelogenina-Y pode, em casos raros, sofrer mutações ou até desaparecer completamente, impossibilitando sua identificação mesmo em indivíduos masculinos.

Apesar disso, os autores consideram pouco provável que essa alteração tenha ocorrido em todos os indivíduos analisados.

Comunidade científica mantém cautela

Nem todos os especialistas concordam com as interpretações mais ousadas apresentadas pelo estudo.

Pesquisadores que acompanham as descobertas envolvendo o Homo naledi afirmam que ainda faltam evidências para confirmar que a espécie enterrava seus mortos de forma intencional ou realizava práticas simbólicas semelhantes às dos humanos modernos.

Alguns cientistas defendem que o acúmulo de indivíduos do sexo feminino pode estar relacionado ao comportamento natural desses grupos.

Entre chimpanzés, por exemplo, já foram registrados agrupamentos compostos predominantemente por fêmeas utilizando cavernas e abrigos rochosos como proteção contra o clima.

Segundo essa linha de interpretação, o conjunto de fósseis poderia refletir hábitos sociais da espécie, sem necessariamente indicar qualquer tipo de ritual funerário.