Genésio nunca fora homem de muitas vontades. Viveu uma vida simples, trabalhando para poder oferecer o conforto necessário à mulher e aos filhos, e mesmo satisfazer-lhes alguns desejos supérfluos. Para ele, todavia, uma existência quase monástica. Bastava-lhe o arroz com feijão do dia a dia. A missa dominical. O baralhinho às quartas. O beijo de Zuleica ao acordar e nos meninos antes de dormir. Enquanto gozou dos donativos da boa saúde, essa foi a vida de Genésio. Até que os médicos começaram com as proibições.
– Genésio, o senhor evite consumir ultraprocessados.
E Genésio, que nunca achara graça em cachorro-quente, deu pra manifestar desejo de ir à barraquinha do Caiçaras.
– Vontade danada de comer um hot dog, sô.
E ia e comia mesmo. Comia dois e comia três. Um dia o doutor disse:
– Genésio, o senhor evite beber café.
E Genésio, que nunca ligou pra café na vida, antes um copo d’água em jejum, foi à rua e comprou uma cafeteira Nespresso e um arco-íris metalizado de cápsulas sortidas.
– Trem bão é um cafezinho, nossa senhora.
A companheira já não o reconhecia.
– Mas Genésio, o que lhe deu na veneta, homem? Quer morrer depressa?
E Genésio:
– Mané morrer, mulher.
Mas a cada nova proibição médica, uma nova rebeldia aflorava no comportamento de Genésio. Se o doutor lhe pedia repouso, comprava tênis de caminhada e chuteira de soçaite; se pedia pra cortar o álcool, embriagava-se de rabo de galo na padaria Pão Maior; se aconselhava evitar friagem, dormia nu de janela aberta e sem lençol.
– A bunda de fora, Genésio! -, protestava Zuleica.
E assim persiste Genésio, desafiando as ordens médicas e os embargos da mulher. Pois é próprio de certos homens de temperamento muito austero, ao vislumbrarem a finitude da existência, cismarem de se rebelar contra toda e qualquer censura a suas liberdades.
Uns podem chamar de senilidade.
Outros, de mecanismo de compensação.
Para Zuleica, é pirraça do Genésio mesmo.




