Dona Nilva

Por Wendell Guiducci

Eu fiquei sabendo que Dona Nilva nasceu em Torreões, terceira filha de uma renca de 11, um falecido no nascimento, outra aos 3 anos de meningite e um, o mais velho, recentemente, lá em Alto Paraíso de Goiás, vitimado por muitas primaveras. Ela foi de avião com o marido e o filho caçula. Pousou em Brasília e de lá foi de carro alugado até o destino final daquela triste viagem. Foi chegar e tampar o caixão para conduzir o irmão ao jazigo do Cemitério Portal da Esperança. Havia muita gente, porque o primogênito, dono de comércio e cujo nome não me recordo, era muito querido no município. Mas me recordo do nome da necrópole, porque “Portal da Esperança” não deixa de ser um curioso epíteto para um sítio onde se põe gente embaixo do chão.

Eu também fiquei sabendo que Dona Nilva tem três filhos, todos homens. Um é médico em Ubá e leciona no Centro Universitário Governador Ozanam Coelho. É o mais novo. O do meio ninguém podia segurar, queria viver na praia e botou com a namorada uma lojinha que vende bijuterias e maquiagem, tudo a dez reais, em Rio das Ostras. A família achou que ele se perderia, mas vai muito bem: casou com a moça e já abriram filial em Macaé e Cabo Frio. Ano que vem talvez inaugurem uma em Nova Friburgo. E o mais velho não quis saber de estudar. Terminou o científico e voltou pra Torreões, onde toca o sítio da família e faz uma boa renda com leite, queijo e porco. Parece que a linguiça que produz é algo de excepcional.

Dona Nilva e o marido, cujo nome não me foi dado a saber, têm apartamento em Juiz de Fora – ele aposentado da antiga Telemig -, mas gostam mesmo é de ficar em Torreões, com os netos, o filho e a nora. Lá tem curral de boi e de porco, tem galinha solta no terreiro, tem piscina e churrasqueira, e é uma farra quando os três filhos se encontram, graças a Deus sem briga nenhuma entre eles nesses anos todos. Dona Nilva acredita que é por isso, por essa harmonia, pela fé em Jesus Cristo e pelo orgulho que sente dos meninos, que ela vem ao médico e sempre sai do consultório com esse sorriso e essa disposição, pois a saúde está um troço que é pra dar e vender.

O senhor seu marido também, vai muito bem, obrigado, sempre usando agasalhos esportivos e tênis de caminhada, prática irremovível de todas as manhãs pelas estradas encardidas de Torreões. Se está em Juiz de Fora, dá 20 voltas em torno do lago do Museu Mariano Procópio, que fica ali perto do apartamento que têm no Morro da Glória. Tem um probleminha com o colesterol, que agora só monitora, mas quem é que na idade deles não tem, não é mesmo? Foi por isso que ele também veio ao metabologista, em cuja antessala, por acaso, também estou. Agora ele está lá no corredor chamando o elevador, pois chamar Dona Nilva é inútil enquanto ela termina de contar para a secretária um último caso. Quando ela enfim se vai, a secretária levanta discretamente a cabeça em minha direção:

– Ela é animada, né?

Wendell Guiducci

Wendell Guiducci

Wendell Guiducci é jornalista formado pela UFJF. Foi repórter e editor da Tribuna entre os anos 2000 e 2024. Hoje assina, como colaborador, a coluna de crônicas "Cronimétricas". É autor dos livros de minificções "Curto & osso" e "Suíte cemitério", e cantor da banda de rock Martiataka.Instagram: @delguiducci

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