É preciso mais do que uma troca em ministério
Troca em ministério vai implicar, também, novo titular da articulação política, mas, sem metas, de pouco adiantará
O ministro Alexandre Padilha, responsável pela articulação política do Governo, teve sérias dificuldades com o ex-presidente da Câmara Arthur Lira, que, em determinado momento, deixou de reconhecer sua autoridade e passou a tratar diretamente com o presidente Lula quando havia questões a resolver envolvendo o Planalto e a Câmara dos Deputados. Lira deixou o posto, e Padilha deve mudar de pasta. Será mais uma troca em ministério.
De acordo com o noticiário, o ministro deve ser transferido para o Ministério da Saúde, pasta que conhece bem por já tê-la ocupado em outras gestões petistas. A atual ministra Nísia Trindade tem destino incerto, mas será substituída por não ter entregado o que dela se esperava.
Essa talvez seja a grande questão que envolve governos – e não apenas do presidente Lula. Ministros ou secretários são mudados de função ou demitidos em razão de dificuldades do próprio Governo, como se tal movimento fosse a saída adequada para resolver os possíveis impasses. Em Minas, o governador Romeu Zema colocou o ex-deputado Marcelo Aro na articulação política com a Assembleia na esperança de resolver problemas na relação com os deputados. Ledo engano, pois a dificuldade não se deve a este ou àquele nome, e sim ao modo como o governador trata a relação.
No Planalto a linha de argumentação é a mesma. A ministra vai perder o cargo como se fosse ela a responsável pelos baixos índices de popularidade do mandato Lula. Pode até ser parte do problema, mas não é a principal peça desse xadrez. O Governo tem dificuldades por não entregar o que foi prometido em campanha e por não saber enfrentar a oposição, especialmente nas redes sociais, nas quais a direita é especialista.
No presidencialismo de coalizão, o Executivo atua em simbiose com o Congresso, numa interdependência que nem sempre dá certo. A ex-presidente Dilma Rousseff caiu por não ter trânsito na Câmara e no Senado e por se recusar a ceder aos pleitos dos partidos. Anos antes, Fernando Collor, com seu estilo único de se achar o todo-poderoso, também foi apeado do poder por conta de escândalos que hoje são “fichinha” diante dos que vieram pela frente, como petrolão, mensalão, joias etc.
Nos seus dois primeiros mandatos, o presidente conseguiu se articular com o Congresso utilizando não apenas seu poder de sedução, mas também projetos que, de fato, alteraram o perfil social do país. A classe média chegou aos aeroportos, e os menos favorecidos tiveram comida à mesa com o Bolsa Família.
O Lula do terceiro mandato tem dificuldades de cumprir a sua agenda e se depara com um país mudado, fruto, sobretudo, da polarização que ganhou corpo a partir de 2018, com a chegada do ex-deputado Jair Bolsonaro ao poder. A direita se modernizou, e o PT, especialmente, não soube reagir. O resultado está nos números das mais diversas pesquisas.
Portanto, não basta trocar ministros para agradar o Centrão. Este, desde o advento da Nova República, aprendeu a ser poder sem deixar de ser oposição, fazendo um jogo de conveniências no qual é o principal beneficiado.