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O Brasil doente

Facilitar o uso de armas só faz aumentar o medo e levar ao enclausuramento da população. A escola, principalmente a pública, que deveria ser o espaço da comunidade, passa, cada vez mais, a ser um lugar em que crianças e jovens precisarão ficar trancafiados, diante do medo crescente do outro

Por Tribuna

15/03/2019 às 06h10

“O Brasil está adoecendo a gente.” Essa frase encontrada nas redes sociais reflete o que está no coração e na mente de milhares e milhares de brasileiros um dia após o massacre que deixou dez mortos e 11 feridos no município de Suzano, em São Paulo. A barbárie repete um modelo antes mais frequente nos Estados Unidos, onde ocorrem, em média, dez incidentes em escolas com tiros por ano.

Em vez de buscar soluções, diálogo e debate, parte da sociedade cobra das autoridades mais segurança, muros e barreiras em uma escola onde já havia câmeras para todos os lados. O massacre em Suzano – em que dois jovens de 17 e 25 anos se mataram, depois de assassinarem duas funcionárias da escola, cinco alunos e um dos tios do mais jovem – levou várias autoridades de todo o país a se manifestarem e trouxe à tona a discussão sobre o Estatuto do Desarmamento, a flexibilização da posse de arma e agora o risco da flexibilização do porte. Integrantes da bancada da bala no Congresso fazem pressão para que o porte também seja facilitado.

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Felizmente, no meio do caos, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, falou, após o massacre, que liberar o porte de arma em área urbana “é barbárie”. “Já não basta o debate sobre posse, mas agora um pedido desse que não é posse, é discussão sobre porte em área urbana, aí nós passamos para uma proposta de barbárie no nosso Brasil, que não deve avançar”, defendeu Maia, completando: “O que eu espero é que alguns não comecem a dizer que se os professores estivessem armados iam resolver o problema, pelo amor de Deus”.

No entanto, esse absurdo já havia sido dito pelo senador Major Olímpio, do PSL, de São Paulo. Para esse cidadão, se os professores estivessem armados, a tragédia poderia ter sido minimizada. Esse pensamento equivocado só mostra o nível a que chegou o culto à violência e às armas em nosso país, e o medo de que importemos também dos Estados Unidos este modelo de uma sociedade doente, que tem fácil acesso às armas, que se choca um dia com um massacre destes, mas que amanhã não se escandalizará com uma cena que, como nos Estados Unidos, pode passar a vir a ser mais frequente em todos os tipos de ambientes públicos.

O psicanalista Christian Dunker, da USP, ouvido pelo jornal Nexo, diz que a tragédia de Suzano traz uma violência visceral contra uma instituição simbólica: o lugar onde se estuda, onde se dialoga, onde se aprende. E faz uma triste conclusão: “Temos uma violência que se ancora num discurso disponível na cultura atual, um discurso que legitima a violência e que recentemente se mostrou vencedor na sociedade brasileira: as armas são a cura para todos os males, são a força maior a dar fim aos conflitos”. A barbárie em Suzano prova que não, que o caminho não é esse. Agora é preciso ter muita reflexão social e consciência política antes de cultuar aquilo que está nos matando.

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