Ficha limpa

Governo deveria avaliar melhor os indicados, mesmo no jogo em que os partidos escolhem os nomes que ocuparão postos na estrutura de poder

Por Tribuna

10/01/2018 às 06h30

Ao recorrer à última instância, no caso o STF, para garantir a posse da deputada Cristiane Brasil como ministra do Trabalho, o Governo incorre num problema recorrente nas instâncias de poder. O argumento central da defesa é o de que não faz sentido uma decisão judicial impedir a posse de um indicado, pois extrapola a sua competência. Até aí é discutível, mas o ponto crucial não é esse. A indicada para a pasta do Trabalho tem um histórico de ações na Justiça e, paradoxalmente, uma delas é por desrespeitar as normas trabalhistas, tema ligado diretamente à sua pasta.

Os governos não precisam ser necessariamente só formados por notáveis, devendo mesmo apresentar nos seus quadros uma clara estratificação da sociedade, mas há questões com as quais não pode transigir, e uma delas é a ética. E tem mecanismos para isso, a começar pelo serviço de informação que deveria ser acionado para ver a idoneidade dos indicados. Feito isso, evita-se o constrangimento de ter que desconvidar indicados ante o fato de alguns deles, em vez de currículos, serem portadores de autênticos prontuários. Num tempo de redes sociais, é pura ingenuidade entender que os dados pessoais não chegam às ruas.

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A ministra é fruto da indicação de seu próprio pai, o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do diretório nacional do PTB. Como esse é o jogo que tem sido jogado, a discussão deve ser passada adiante, mas seria importante que o próprio padrinho escolhesse melhor seus afilhados. As instâncias de poder, inclusive o Governo, têm em postos estratégicos personagens sob investigação da Polícia Federal e sob processos elaborados pelo Ministério Público, embora haja a lei da ficha limpa, que estabelece restrições, e os conselhos de éticas, que precisariam ser mais ativos.

A transparência, hoje, não é mais uma virtude, e sim uma necessidade diante de uma sociedade cada vez mais assertiva e de posse de ferramentas que facilitam tais verificações. Insistir, pois, em manter o rei nu é um contrassenso que não tem razão de ser mantido.
Por isso, o presidente Temer insiste em manter o Governo sob pressão da Justiça e das ruas, embora saiba, especialmente ele que é jurista, tratar-se de um ponto a mais de desgaste.

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