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Velho cacique

Sem mandato, ex-presidente continua exercendo seu poder de veto dentro do Governo Temer, como ao rejeitar a indicação do novo ministro do Trabalho

Por Tribuna

04/01/2018 às 07h00

Aos 86 anos e sem mandato, o ex-presidente José Sarney ainda se apresenta como um coronel da política brasileira. Embora negue, ele vetou a indicação do deputado Pedro Fernandes (PTB-MA) para o Ministério do Trabalho, como era desejo da bancada do PTB na Câmara Federal. O parlamentar, que já foi do grupo do ex-presidente de carteirinha, é, agora, próximo do governador Flávio Dino (PCdoB), inimigo do clã de longa data. O presidente Temer admitiu a manobra e disse que deve muito a Sarney, por isso, recomendou aos trabalhistas que apresentassem outro nome. O PTB indicou a deputada Cristiane Brasil, coincidentemente, filha de Roberto Jefferson, presidente nacional do partido.

O episódio não surpreende, mas mostra duas situações que ainda prevalecem no Brasil do século XXI. A primeira é o caciquismo. Sarney é um remanescente da velha política, que controla feudos e define o destino de populações inteiras. No Maranhão, seu estado, a situação está mudando, mas a velha guarda ainda lembra a sua passagem pelo poder. Os mais jovens, nem tanto, preferindo respirar ares de mudança. Sem mandato, o ex-presidente está sem opção nas eleições de outubro e deve forçar sua filha Roseana a mais uma tentativa para manter a família no poder.

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O outro dado é a subserviência dos governantes a determinadas causas. O presidente da República admitiu o veto por ter gratidão ao ex-presidente, algo inaceitável, pois a dívida pessoal não pode migrar para o campo da política, sobretudo quando se trata de relação de poder. O ministro do Trabalho indicado dançou por desagradar ao coronel e está fora do páreo. Sem avaliar suas qualidades, ele também faz parte de um processo em que a indicação vale mais do que a causa. O PTB, como tantos outros partidos, quer seu espaço no Governo sem se importar com a competência do indicado.

Tais distorções, é fato, não foram criadas na gestão Temer. Desde a redemocratização, inaugurada com o mandato indireto de Tancredo/Sarney, o poder tem sido dividido como capitanias hereditárias. E quem não entra nesse jogo não governa. Os que não entenderam, como Collor e Dilma, caíram.

Mudar o presidencialismo de coalizão é uma demanda que entra e sai da pauta do Congresso sem avançar. As poucas tentativas deram em nada. Enquanto isso, o atual e o próximo presidente, se nada for feito, vão continuar reféns dos partidos, boa parte deles desinteressada no país, voltada apenas para os seus interesses.

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