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Advogados de Adelio sustentam que autor de facada sentia-se ofendido por declarações de Bolsonaro

Defensores dizem que cliente agiu sozinho e que vão entrar na Justiça com pedido de sanidade mental; agressor deve ser transferido para penitenciária federal de Campo Grande (MS)

Por Daniela Arbex

07/09/2018 às 20h30- Atualizada 07/09/2018 às 21h17

O desempregado Adelio Bispo de Oliveira, 40 anos, autor do atentado contra o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), deverá ser transferido nas próximas horas para um presídio federal de segurança máxima. O local ainda será definido pelo Ministério da Justiça. Informações extraoficiais, no entanto, indicam que o preso será levado neste sábado (8) para a Penitenciária Federal de Campo Grande, na Zona Rural de Mato Grosso do Sul. A decisão de converter a prisão em flagrante do acusado em preventiva foi tomada na audiência de custódia realizada pela juíza da 2ª Vara Federal, Patrícia Alencar Teixeira de Carvalho, na tarde de sexta-feira (7). A magistrada sustentou que Adelio acarreta risco à ordem pública, considerando sua “periculosidade”. Um dos objetivos da transferência é manter a integridade física dele, impedindo uma “queima de arquivo”. Adelio foi enquadrado no artigo 20 da Lei de Segurança Nacional pelo fato de o crime ter motivação política e religiosa. Os quatro advogados de defesa do autor sustentaram a versão de que o cliente agiu sozinho, por motivações políticas, e que ele teria reagido aos discursos de Bolsonaro, discordando do posicionamento político e das declarações do presidenciável, entre elas, a de que “quilombola não serve nem para procriar”, frase dita em uma palestra proferida pelo deputado federal em 2017. Os advogados de Adelio disseram, ainda, que vão entrar com pedido na Justiça para que ele seja submetido a exame de sanidade mental.

“Ele salienta que agiu de forma escoteira, solitária. Que aquele dolo, aquela intenção, aquela volição era única, só dele, não estava mancomunado, não havia concurso de pessoas”, disse Zanone Manuel de Oliveira Júnior, que veio de Contagem só para participar da defesa do autor. O advogado Pedro Augusto de Lima Felipe e Possa, que veio de Barbacena para integrar a equipe de defesa, descartou a possibilidade de envolvimento de algum partido político no crime. “Não tem ninguém envolvido. Nem mulher, nem homem, nem partido político, ninguém. Ele agiu sozinho”, disse, desacreditando em uma versão, que está sendo investigada pela Polícia Civil, de que uma mulher, flagrada ao lado de Adélio durante o ato de campanha de Bolsonaro no Calçadão de Juiz de Fora, estaria envolvida no atentado. Segundo informação do membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB em Juiz de Fora Robson Feijão, essa mulher teria sido filmada ao lado ao agressor. Também haveria registros de troca de mensagens entre os dois nas redes sociais conversando sobre o episódio antes do atentado, o que ainda não foi oficialmente confirmado.

O deputado Fernando Francischini (PSL-PR), líder do partido na Câmara Federal, viajou de Curitiba (PR) para Minas, a fim de acompanhar a audiência de custódia. Ele está convencido de que há um mentor intelectual por trás do atentado ou o concurso de pessoas que incitaram o crime. “A audiência terminou, a juíza deferiu a continuidade da prisão do Adelio, é a primeira vitória nossa. Claro que um crime complexo como esse, de grande repercussão, nós não esperávamos mais do que a firmeza da doutora Patrícia e da doutora Zani (Cajueiro Tobias de Souza), que é procuradora da República, que mantiveram a prisão. Ele (Adelio) assumiu na audiência que a motivação foi política e religiosa, isso demonstra que a competência para fazer essa investigação é da Polícia Federal. Não é um simples caso de tentativa de homicídio, e sim uma tentativa de homicídio que queria afetar diretamente a democracia brasileira, um sistema representativo do nosso país. O nosso requerimento é para que a investigação busque se houve auxílio, apoio, houve mandantes, como é que ocorreu. Nos chama muita atenção, e aqui faço um registro de que é um direito da defesa (do acusado) ter advogados, mas alguém em situação de pobreza, como a gente viu, ter quatro advogados e não ter defensoria pública acompanhando. Há indícios de que não é um lobo solitário, sem estrutura financeira nenhuma, que cometeu (o ato)”, declarou.

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Pedro Possa, um dos quatro advogados de Adelio, afirmou que eles foram contratados pela família do desempregado, e que os custos estariam sendo pagos por uma igreja evangélica frequentada pelos parentes do autor. Possa, no entanto, preferiu não revelar o nome da instituição religiosa e nem o local onde a igreja está localizada. O advogado afirmou, ainda, que ele fazia uso de remédios controlados, embora tenha descartado históricos de internações psiquiátricas.

Depois de ter sido preso, logo após o atentado ocorrido na quinta-feira, Adelio disse a Policia Federal que “recebeu uma ordem de Deus para tirar a vida de Bolsonaro”, pois ele defende “o extermínio de homossexuais, negros, pobres e índios, situação que discorda frontalmente”. Ele também negou o auxílio de terceiros para o intento criminoso. Na audiência de custódia, ele manteve silêncio na maioria do tempo. Sobre a perfuração de 12 centímetros de profundidade causada no presidenciável, ele limitou-se a dizer que houve um “incidente”. A quebra do sigilo bancário e telefônico de Adelio foi decretada pela polícia. Quatro celulares, apreendidos na pensão onde ele morava há 15 dias em Juiz de Fora, e um computador estão sendo periciados.

No termo de audiência, a juíza federal disse que o delito de Adelio “revela profundo desrespeito à vida humana e ao Estado Demcrático de Direito, notadamente, a liberdade constitucional de manifestação dos ideais políticos, afetando de forma direta o processo eleitoral”.

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Apoiadores de Bolsonaro acompanharam movimentação na porta do prédio da Justiça Federal (Fotos: Felipe Couri)

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