Perspectivas 2026: Conteúdos rápidos, influenciadores e mensagens manipuladas acendem alerta para as Eleições
Especialistas da computação e da comunicação também apontam para ajudas fornecidas pelas IAs e meios tradicionais como fuga da desinformação

Ao fim de 2023, a Tribuna publicou matéria com especialistas, alertando que as Eleições de 2024 já deveriam enfrentar riscos com novas tecnologias, do uso exagerado de inteligências artificiais (IAs) generativas à manipulação de imagens, enquanto apontavam para a necessidade de se discutir uma nova regulação.
Para as Eleições de 2026, o mesmo apontamento permanece e a preocupação com a manipulação se intensifica, mas, ao mesmo tempo, crescem também as possibilidades de que as IAs possam auxiliar o eleitor a fazer um voto consciente. As entrevistas com cada especialista citado nesta matéria podem ser conferidas na íntegra no site da Tribuna.
Uma coisa é unânime entre os especialistas ouvidos dessa vez. Como sintetiza o doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Arthur Raposo Gomes: “A forma de consumo de informação é cada vez mais fragmentada, distribuída entre vídeos curtos, grupos fechados e influenciadores digitais”.
O doutor em Ciência Política (IUPERJ) e Pós-Doutor em Comunicação Social (UFJF), Luiz Ademir de Oliveira, coloca o tema em termos mais técnicos. “Fala-se muito hoje em dois fenômenos que são complementares. A midiatização (as pessoas estão conectadas quase 24 horas do dia – em conteúdos informativos, troca de mensagens, entretenimento, o que faz com que a qualquer hora do dia possam receber e compartilhar mensagens) e a plataformização (há uma sociedade que é regida hoje por plataformas de conteúdos, aplicativos, redes sociais que estão vinculadas a grandes grupos econômicos – as big techs). Isso tem impactado a vida social, econômica, cultural e, principalmente, o universo da política”.
No entanto, o pesquisador ressalva. “Mas, nas eleições proporcionais, apesar dos candidatos influenciadores digitais, como Nikolas Ferreira (PL) e Erika Hilton (PSOL), as principais figuras da política tradicional ainda serão eleitas por métodos tradicionais de fazer campanha.”
“Outra coisa que a gente percebe são os próprios algoritmos das plataformas”, complementa o professor associado do Departamento de Ciência da Computação (DCC) da UFJF, doutor em informática com ênfase em Sistemas de Informação, Ronney Moreira de Castro. “Eles direcionam o que vai ser exibido para os usuários dependendo daquilo que ele gosta, da tendência que ele tem, da crença que ele tem, e aí o eleitor vai ver apenas aqueles conteúdos que estão fortemente alinhados à visão dele, no caso da política, um determinado candidato, um determinado partido, uma ideologia”.
Por isso, Arthur analisa que o confronto entre jornalismo e desinformação nas eleições tende a ficar mais intenso: “Pelas mídias sociais e aplicativos de mensagens, deepfakes, áudios alterados e recortes fora do contexto viralizam com um enorme potencial de dano”.
E a rapidez no consumo de conteúdo também contribui para a manipulação, como explica Priscila Capriles Goliatt, pós-doutora em Modelagem Computacional na UFJF. Também professora do DCC, ela explica que a vocalização manipulada está, sim, bem avançada e estável, ficando muito difícil identificar uma pessoa comum.
“A maioria das pessoas já não prestam atenção no todo nesses vídeos curtos, consomem somente a mensagem por alto. Então, pra elas vai ficar muito difícil realmente identificar. E, hoje em dia, você precisa realmente de profissionais qualificados para poder fazer essa identificação”, alerta.
“É claro que as inteligências artificiais ainda têm pontos fracos”, pondera, “como, por exemplo, as mãos. As IAs ainda não conseguem fazer uma mão perfeita, é uma parte do nosso corpo muito complexa, que faz muitos gestos, muitos movimentos, então isso deixa a inteligência artificial um pouco confusa”. Pontos como esse, embora possam ter sua inclusão evitada pelos manipuladores, servem de atenção ao internauta.

Como combater a desinformação?
Arthur trabalha com consultoria, coordenação e pesquisa científica de estratégias de Comunicação Política e Eleitoral e percebe um cenário eleitoral muito sensível, em que a imprensa se torna ainda mais essencial: “Ela ajuda a separar fato de invenção e garante que o debate público não seja sequestrado por versões fabricadas, muitas vezes, com outros vieses e para viralizar nas redes sociais digitais”.
Nesse contexto, Ronney lembra que as próprias IAs podem ajudar a identificar um conteúdo que pode ter sido manipulado, além de terem outros usos benéficos: “Você pode pegar as propostas e pedir para a IA comparar elas para te ajudar a decidir seu voto, verificar o que tem diferença entre uma e outra. Coisa que a gente fazia, antigamente, olhando no papel mesmo”.
“Outra coisa que a gente está percebendo é que existem IAs que pegam um vídeo e legendam. Na verdade, traduzem aquilo, podem colocar em áudio, podem colocar em texto. Isso acaba incluindo um público que era um pouco deslocado do cenário político, como pessoas que têm alguma dificuldade com o vídeo”, adiciona.
Ele também cita o uso de chatbots para tirar dúvidas sobre a campanha – desde que fique claro que a pessoa está conversando com um assistente virtual. E, “para o sistema eleitoral, a gente tem uma análise de um volume grande de postagens para verificação de desinformação. A gente pode usar a IA para isso, afinal de contas, ela trabalha de uma forma muito, muito rápida”, conclui.
Como explica Arthur, “a Inteligência Artificial pode, sim, ajudar na criação de peças, na edição de vídeos, na roteirização e na organização de conteúdo. Isso é legítimo e faz parte da modernização das campanhas eleitorais. O que não é ético (e hoje também é ilegal) é usar tecnologia para enganar: simular falas, fabricar imagens, distorcer comportamentos ou criar interações artificiais que façam o eleitor acreditar que está conversando com alguém real”.
O importante é “desconfiar de conteúdos que aparecem ‘do nada’, que causam choque imediato ou reforçam aquilo que a gente já espera ouvir”, complementa. “É importante checar a origem, buscar informações em veículos confiáveis, ver se aquela fala já circulou em outros contextos. No fim das contas, se algo realmente aconteceu e é relevante, vários jornais vão noticiar, né?”.
LEIA TAMBÉM:
Midiatização e plataformização: Entenda fenômenos que afetarão as Eleições 2026
Novas tecnologias nas Eleições 2026 terão tendência por vídeos curtos e forte direcionamento de algoritmos
Eleições 2026: Saiba como as IAs podem influenciar debates e em quais falhas prestar atenção
Eleições 2026 acontecerão em ‘uma sociedade hipermidiatizada e hiperacelerada’









