Eleições 2026 acontecerão em ‘uma sociedade hipermidiatizada e hiperacelerada’

Doutorando em Comunicação analisa como novas tecnologias poderão influenciar o pleito


Por Hugo Netto

03/01/2026 às 10h00

Arthur Raposo Gomes foto arquivo pessoal
(Foto: Arquivo pessoal)

Esta entrevista integra a série Perspectiva 2026, da Tribuna, que analisa os impactos das novas tecnologias sobre o processo eleitoral brasileiro. Em reportagem especial, o jornal ouviu especialistas para discutir os riscos e os desafios que devem marcar as Eleições de 2026, especialmente diante do avanço da Inteligência Artificial, da disseminação de desinformação e das mudanças no comportamento dos eleitores no ambiente digital.

Nesta matéria, o jornalista, publicitário e doutorando em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Arthur Raposo Gomes, aprofunda a análise sobre o embate entre jornalismo e conteúdos manipulados, o papel da educação midiática, as vulnerabilidades informacionais e os limites éticos no uso de tecnologias por campanhas e partidos. A entrevista detalha como a circulação acelerada de vídeos, áudios e mensagens fora de contexto pode afetar a confiança do eleitor e reforça a importância da imprensa e das instituições na proteção do debate democrático.

Confira a entrevista na íntegra:

Tribuna: Como deve funcionar, nas eleições, o “embate” entre o jornalismo e as desinformações produzidas pelas novas tecnologias?

Arthur: O confronto entre jornalismo e desinformação nas eleições tende a ficar mais intenso, já que os recursos tecnológicos cada vez mais avançados e acessíveis tornam as falsificações mais rápidas, algumas vezes mais convincentes e até difíceis de identificar.

Pelas mídias sociais e aplicativos de mensagens, deepfakes, áudios alterados e recortes fora do contexto viralizam com um enorme potencial de dano. O jornalismo, por sua vez, atua com método, checagem e responsabilidade. E é justamente isso que vira o contraponto.

No período eleitoral, então, esse enfrentamento acontece em três linhas: velocidade, porque a mentira se espalha em minutos; contexto, porque a desinformação simplifica ou distorce fatos; e confiança, porque o eleitor precisa saber onde se apoiar quando tudo parece duvidoso.

Num cenário eleitoral tão sensível, a imprensa se torna ainda mais essencial: ela ajuda a separar fato de invenção e garante que o debate público não seja sequestrado por versões fabricadas, muitas vezes, com outros vieses e para viralizar nas redes sociais digitais.

A desinformação tenta corroer a confiança coletiva, mas o jornalismo busca reconstruí-la e sustentá-la de maneira firme e com credibilidade.

Tribuna: Quais mudanças comportamentais dos eleitores devem marcar o processo eleitoral de 2026, considerando consumo de informação, atenção e engajamento?

Arthur: O processo eleitoral de 2026 deve refletir algumas mudanças claras no comportamento do eleitor. A primeira é a forma de consumo de informação: cada vez mais fragmentada, distribuída entre vídeos curtos, grupos fechados e influenciadores digitais. Isso reduz a centralidade dos meios tradicionais.

A segunda é a atenção mais curta. As pessoas dedicam poucos segundos a cada conteúdo, o que faz com que impressões rápidas (linguagem visual, tom e contexto) pesem mais do que longas explicações.

A terceira é a confiança. Em vez de instituições, muitos eleitores confiam mais em formadores de opinião: influenciadores digitais, pessoas próximas e microcomunidades. Isso muda o caminho pelo qual a mensagem circula.

O desafio das campanhas será comunicar com clareza, sem ruído, em ambientes aonde o eleitor chega e sai o tempo todo e onde a autenticidade importa tanto quanto o conteúdo em si.

Tribuna: Que grupos ou regiões do país podem ser mais vulneráveis à manipulação digital no processo eleitoral?

Arthur: Alguns grupos e regiões do país podem ser mais vulneráveis à manipulação digital, mas essa vulnerabilidade não tem a ver com capacidade individual, mas sim com desigualdades de acesso à informação. Localidades com internet instável, pouca oferta de jornalismo regional ou forte dependência de grupos fechados de mensagens tendem a enfrentar mais ruído de informação. Públicos que chegaram mais tarde ao ambiente digital também ficam mais expostos a conteúdos manipulados, simplesmente porque têm menos diversidade de fontes.

Também existe uma vulnerabilidade ligada à falta de mediação crítica: quando a pessoa recebe conteúdo apenas de contatos próximos, influenciadores ou grupos específicos, o ambiente vira uma espécie de ecossistema fechado, onde desinformação circula com facilidade e quase sem contestação, afinal “eu confio em que me passou isso”.

É nesse ponto que a educação midiática se torna central. Ela não é um acessório; é uma política de proteção democrática. Envolve ensinar a ler contexto, identificar manipulações, entender como funcionam algoritmos e reconhecer quando um conteúdo tenta induzir o erro.

Fortalecer jornalismo local, ampliar conectividade, exigir transparência das plataformas e investir em educação midiática são passos fundamentais para que nenhum eleitor seja tratado como alvo fácil na disputa digital.

Tribuna: Vídeos e áudios manipulados devem se tornar mais comuns em 2026. Como o eleitor e as instituições podem se preparar para lidar com esse cenário?

Arthur: Com o avanço das tecnologias, as ferramentas ficaram mais acessíveis, mais rápidas e, muitas vezes, praticamente impossíveis de identificar a olho nu. O impacto disso não é apenas técnico: ele é emocional e político. Para o cidadão-eleitor, o primeiro passo é desacelerar. Fake news e deepfakes se espalham justamente porque acionam emoção antes de qualquer análise. Então vale a regra simples: desconfiar de conteúdos que aparecem “do nada”, que causam choque imediato ou reforçam aquilo que a gente já espera ouvir. É importante checar a origem, buscar informações em veículos confiáveis, ver se aquela fala já circulou em outros contextos. No fim das contas, se algo realmente aconteceu e é relevante, vários jornais vão noticiar, né?

Para as instituições, o desafio é de estrutura. O TSE já proibiu o uso de deepfake em propaganda política e também exige que conteúdos manipulados sejam identificados, mas isso só funciona se vier acompanhado de velocidade de resposta, tecnologia de detecção e responsabilização. Desinformação é um problema de minutos, não de dias, por isso é essencial ter equipes preparadas, canais diretos com as plataformas e protocolos de retirada rápida de conteúdo. Além disso, é preciso que as instituições tenham ferramentas capazes de identificar manipulações e atuem em parceria com universidades, órgãos públicos e empresas de tecnologia. E, claro, tirar do ar não basta: é preciso responsabilizar quem produz e quem financia esse tipo de fraude.

Para campanhas e partidos, existe tanto uma dimensão ética quanto estratégica. Nenhuma equipe deveria entrar numa disputa reproduzindo o mesmo jogo sujo que critica. Mas também é verdade que as campanhas precisam ter protocolos de crise prontos para uso: identificar rapidamente a desinformação, elucidar assim que possível, reorganizar a narrativa e produzir conteúdo oficial que circule mais do que a mentira.

Vivemos numa sociedade hipermidiatizada e hiperacelerada. Por isso, a resposta passa por educação midiática, regulação ágil e uma cultura política que não normalize a mentira como método. O debate da regulamentação das mídias sociais passa também por aí.

É importante pontuar que propaganda negativa faz parte da disputa eleitoral, desde que baseada em fatos que o adversário preferiria ocultar e não em invenções.

E isso também passa pelo eleitor, porque a democracia se fortalece quando cada pessoa assume seu papel crítico e não deixa que a mentira decida por ela.

Tribuna: Qual é o limite ético para o uso de IA e outras tecnologias por candidatos e partidos na criação de discursos, vídeos, peças publicitárias e interações com eleitores?

Arthur: A Inteligência Artificial pode, sim, ajudar na criação de peças, na edição de vídeos, na roteirização e na organização de conteúdo. Isso é legítimo e faz parte da modernização das campanhas eleitorais. O que não é ético (e hoje também é ilegal) é usar tecnologia para enganar: simular falas, fabricar imagens, distorcer comportamentos ou criar interações artificiais que façam o eleitor acreditar que está conversando com alguém real.

A tecnologia pode apoiar a comunicação, mas não pode fabricar realidade nem interferir artificialmente na formação da vontade do eleitor.

A responsabilidade também entra nesse debate. Se uma campanha usa IA, isso precisa estar exposto. O eleitor tem o direito de saber quando está diante de conteúdo sintético.

E há o aspecto que, infelizmente, algumas pessoas se esquecem: política é relação humana. A interação com o eleitor não pode ser terceirizada para sistemas automatizados que replicam mensagens sem critério, sem contexto e sem responsabilidade. Comunicação digital segmentada sem supervisão só aprofunda desigualdades e distorce o debate público.

Em resumo, o limite ético é o mesmo que orienta toda Comunicação Política comprometida com a democracia: não ferir a integridade do voto e não transformar tecnologia em instrumento de manipulação. A IA pode tornar a comunicação mais eficiente, mas não pode ser tratada como atalho para burlar o processo democrático.