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Pequenos negócios locais ganham preferência dos consumidores em JF

Comodidade, menor risco e apoio aos comerciantes estão entre os motivos para a escolha na hora da compra


Por Gracielle Nocelli

04/04/2021 às 07h00

As relações de consumo mudaram ao longo de um ano da pandemia da Covid-19 no Brasil. Com a necessidade de distanciamento social para frear a disseminação da doença foi preciso criar outros hábitos para se adaptar à nova realidade. Neste processo, cada vez mais, os pequenos negócios locais têm ganhado a preferência dos consumidores. Em Juiz de Fora, esta escolha tem promovido impactos econômicos e sociais positivos por meio da dinamização e descentralização das atividades.

Diferentes pesquisas mostram que, para reduzir os riscos de exposição ao vírus, as pessoas têm optado pela compra e prestação de serviços em estabelecimentos próximos de onde moram. O estudo “O futuro do consumo pós-Covid-19”, realizado pela Social Miner em parceria com a Opinion Box, no ano passado, apontou que 32,9% dos brasileiros fizeram essa escolha em 2020. Para este ano, a expectativa é que o percentual aumente, chegando a 54%.

Já o levantamento do Instituto Katar, também realizado no ano passado, revelou que, dentre as principais motivações para esta escolha, estão o menor fluxo de pessoas nos bairros (60,2%), a proximidade para o deslocamento (59,6%), preços justos (53,3%) e o cumprimento de medidas sanitárias (47,8%).

Sara mantém um salão de beleza no bairro onde mora. Ela investiu na divulgação dos serviços oferecidos pelas redes sociais e ficou atenta ao cumprimento dos protocolos sanitários, para fidelizar clientela (Foto: Arquivo Pessoal)

Os juiz-foranos têm aderido à ideia. Foi assim que o Bairro Igrejinha, na Zona Norte, acompanhou o fortalecimento da rede de negócios locais. Empreendedores que participaram do programa Comunidade em Ação, promovido pelo Sebrae em parceria com a empresa Nexa, conseguiram não só sobreviver à crise provocada pela pandemia, como expandiram os negócios.

Sara Fernandes de Souza Chagas é uma dessas empreendedoras. Dona de um salão de beleza no bairro que leva o seu nome, ela relata como superou as dificuldades enfrentadas nos primeiros meses da pandemia. “Precisei fechar as portas e passei a contar com o auxílio emergencial. Foi um momento difícil para todo mundo.”

Ela relembra que contou com o apoio do marido até a reabertura do salão, no segundo semestre do ano passado. “Eu me preparei muito para a retomada. Adotei todos os protocolos sanitários, agendei os horários com maior espaçamento para atender uma cliente por vez e dar tempo de higienizar tudo antes da próxima chegar, pois eu queria que as pessoas se sentissem seguras.”

Retomada
Para a retomada, Sara criou estratégias de divulgação nas redes sociais. “Era importante mostrar que eu seguia ativa.” Foi assim que ela se surpreendeu positivamente. “Muitas pessoas passaram a me procurar porque queriam se arrumar perto de casa para evitar pegar ônibus.”

A empreendedora viveu um período de expansão dos negócios com a chegada e a fidelização de novos clientes. Agora ela segue as orientações da onda roxa do Programa Minas Consciente. “É torcer para tudo isso passar logo.”

De acordo com informações da assessoria do Sebrae, outros empreendimentos na área de gastronomia e alimentação também tiveram aumento da demanda durante a pandemia.

Fortalecimento da cadeia local

O projeto de delivery de pães Panito Artesanal, criado por Sílvia Miquelitto Celestino, nasceu e cresceu durante a pandemia. Formada em gastronomia, ela decidiu abrir o próprio negócio em junho do ano passado. “Eu precisava de dois ônibus para chegar ao meu trabalho. Então, além da vontade de ser autônoma e da necessidade de renda, também priorizei a minha segurança.”

Silvia criou o projeto delivery de pães durante a pandemia. A demanda teve início com amigos, que fizeram indicações, e, em seguida, ela passou a atender vários clientes que moram no entorno (Foto: Arquivo Pessoal)

A fabricação dos pães é realizada em sua casa, no Bairro Cascatinha. A demanda teve início com amigos, que fizeram indicações e, em seguida, ela passou a atender vários clientes que moram no entorno. “Hoje já fazemos entregas para locais mais distantes, mas o crescimento da demanda aconteceu, principalmente, entre os bairros vizinhos.”

Com o aumento da demanda, Sílvia passou a oferecer outros produtos, como geleias, pastas, cestas personalizadas e menus para datas comemorativas. “Vivemos um boom no final de ano por conta das comemorações feitas em casa, e seguimos nessa crescente.”

O trabalho de divulgação e atendimento são realizados on-line, por meio das redes sociais, mas ela se preocupa em manter a proximidade com os clientes. “Mais do que produtos, é preciso oferecer uma relação próxima, principalmente, nesse momento que estamos vivendo.”

O desenvolvimento do projeto Panito Artesanal contribuiu para o aquecimento da cadeia produtiva. “Eu também compro de fornecedores locais. Fortalecer essa cadeia é importante para nós e para nossa região.”

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Segurança como prioridade

Alda, que há dois anos produz bolos especiais para festas, conseguiu manter os clientes, mesmo em tempos de distanciamento social. Segundo ela, o tamanho dos bolos diminuiu, mas a procura segue crescente (Foto: Arquivo Pessoal)

Há dois anos, Alda Coelho começou a produzir bolos especiais para festas e datas comemorativas, além de produtos sazonais, como panetone e ovos de Páscoa. Apesar das dificuldades impostas pela pandemia da Covid-19, os clientes se mantiveram fiéis. “O tamanho dos bolos diminuiu, mas a procura segue crescente.”

Segundo ela, uma das principais questões observadas pelos consumidores durante a pandemia tem sido o respeito aos protocolos sanitários, o que favorece a compra de fornecedores próximos, já conhecidos. “Todos nós queremos ter segurança nesse momento. Da mesma maneira que eu me preocupo com a minha família e com os meus clientes, eles também se preocupam.”

A fidelização garantiu o crescimento dos negócios que leva seu nome, Alda Bolos, localizado no Bairro Grajaú. Hoje os consumidores são de diferentes regiões da cidade, mas a maior parte se concentra no entorno do negócio. “Agora, além das redes sociais, também desenvolvi um site para facilitar o atendimento.”

Comodidade, segurança e apoio aos comerciantes

Na avaliação dos consumidores, priorizar os pequenos negócios dos bairros é uma maneira de garantir comodidade e segurança, além de apoio aos comerciantes.

Morador do Bairro Nova Era, na Zona Norte, o aposentado Rinaldo Ferreira tem cumprido à risca o distanciamento social desde o ano passado. “Minha esposa e eu somos do grupo de risco da Covid-19 e estamos muito preocupados.”

Ele relata que, para evitar a exposição ao risco, o filho faz as compras no bairro. “Pão, leite, hortifrúti, carne, compramos tudo aqui. É uma forma de evitar fila e aglomerações. Também sabemos se o estabelecimento está cumprindo os protocolos de segurança.”

Segundo ele, a iniciativa também contribui para fortalecer os negócios do bairro. “É uma forma de ajudar os comerciantes que conhecemos há tantos anos”, afirma, destacando que mora há 29 anos no mesmo endereço.

Moradora do Bairro São Mateus, a professora Júlia Pessôa também tem essa preocupação. “Estou totalmente dentro de casa, realizando as compras por aplicativo. Sempre priorizo comprar de negócios locais e indicar aos amigos.”

A frequência de compras costuma ser semanal, e os produtos variam. “Geralmente, são produtos de consumo imediato, como pães, bolos, doces que eu quero experimentar ou presentear alguém porque acho que a produção artesanal é mais afetiva”, avalia. “Mas também já comprei roupas, e a experiência foi ótima, porque o atendimento é mais personalizado.”

Como as compras são on-line, ela destaca o que observa na hora de escolher os fornecedores. “Busco saber da qualidade do produto, seja por foto, avaliação ou perguntando para amigos, e, também, sobre a conduta do empreendimento.”

Dinamização das atividades traz impactos positivos

Sobreviver à pandemia da Covid-19 tem sido difícil para todos os negócios, sobretudo para os de pequeno porte. Juiz de Fora sente os reflexos dessa crise. A cidade tem nos setores de comércio e serviços sua principal vocação econômica e ambos são compostos, em sua maioria, por pequenos empreendimentos.

Só em 2020, a cidade perdeu 4.393 postos de trabalho. Deste total, quatro mil eram dos setores de comércio e serviços, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). A estimativa do Sindicato do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio-JF) é que, pelo menos, 400 empresas fecharam no ano passado.

Diante deste cenário, fortalecer os pequenos negócios é importante para a economia local, como destaca o analista do Sebrae Tarcísio Fagundes. “É uma garantia de manter estes empreendimentos vivos, gerando empregos, impostos e renda. Para aqueles que ainda são informais é uma oportunidade de que venham se formalizar.”

Ele avalia que, a partir do momento em que os consumidores priorizam as compras de negócios vizinhos, é criado um processo de descentralização das atividades. “Essa experiência é muito positiva para os bairros, pois propicia o surgimento e/ou fortalecimento de uma rede de negócios, o que dinamiza a economia e também promove qualidade de vida nessas localidades.”

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