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Por Mauro Morais

31/12/2016 às 07h00

Para cada corte, há uma sutura. Para uma cultura dilacerada por frequentes e irreversíveis contingenciamentos orçamentários, há um grupo de artistas cuidando de uma engrenagem que se estabelece, primordialmente, pela sensibilidade. Ainda que até seus últimos momentos, 2016 tenha se mostrado um ano violentamente duro, não foi, contudo, infértil. Unanimidade entre os gestores de diferentes esferas, o empenho dos criadores nas artes é uma das principais justificativas para que o ano não resvale em esquecimento. Convidados pela Tribuna, esses resistentes refletem sobre o ano que se despede e o que se apresenta. Cada um em sua artesania, desenham perspectivas entre a nostalgia e o júbilo.

Da literatura ao grafite, passando por música, teatro e artes visuais, os trabalhos registram uma cena que se fortaleceu aos longo dos últimos 365 dias e projetam novas direções paras o porvir que é 2017. Representada por dois prolíficos editores e escritores, Daniel Valentim e Otávio Campos, além de um autor que publicou três títulos em 2016, André Monteiro, a literatura mostra-se forte, tanto pelo que foi lançado quanto pelo que está projetado. Já o grafite, retratado pela Tribuna em diferentes momentos do ano, é resgatado por uma turma independente que integrou eventos como o Purencontro, no Linhares, em novembro. MC Xuxú e seu discurso de fortalecimento das margens representa não só a música da cidade como também os movimentos sociais que contribuíram para a expressividade de uma cultura politicamente engajada. Autor vencedor do Festival de Cenas Curtas de 2016, Felipe Moratori, nome cada vez mais representativo do jovem teatro juiz-forano, prepara uma cena entre o lírico e o fantástico. Francisco Brandão, o criador das penas que tomaram o calçadão em junho, Paula Duarte, uma das premiadas pelo Projeto Foto 16, e Matheus de Simone, um dos mais arrojados e frequentes nomes em coletivas de 2016, dizem das artes visuais que não deixaram que os cubos brancos locais permanecessem vazios por um só segundo.

Entre o tom reverencial, uma quase homenagem e uma tentativa de reflexão sobre o presente, as imagens e textos dizem de uma Juiz de Fora que é, sobretudo, inventividade. Criações para inspirar na criação do ano que chega.

 

Tempo, tempo, tempo – O tiquetaquear do relógio fez com que Caetano Veloso criasse sua “Oração ao tempo”. “És um senhor tão bonito”, escreveu o baiano na canção gravada de Maria Bethânia a Maria Gadú. Os dias também servem ao professor da Faculdade de Letras e escritor André Monteiro na crueza de sua prosa-poética “oração ao vivo”, despida do que é angélico e comprometida com o real para lá de duro. Wilson das Neves, ao lado de Paulo César Pinheiro, retrata o mesmo tema no samba “Partido do tempo”, de onde a fotógrafa Paula Duarte retira os versos “quem pensa no tempo também perde tempo”, que insere na cena de uma Juiz de Fora em seu anoitecer ora focado ora desfocado. O tempo em seu vaivém, é verso e estrofe de cenas potentes.

 

oração ao vivo
de André Monteiro

mãe nossa, que estais na terra (nossa própria terra), pai nosso, qualquer coisa nossa, livrai-me dos que não podem ficar à toa ao meu lado, dos que não podem amar sem recompensas, dos que não sabem ouvir a música poluída de todo esse barro e dos que sempre preferem chamar a polícia. livrai-me dos que não despregam o olho da cruz. livrai-me, deusas, deuses, forças abissais, abismadas, absurdas, qualquer coisa potente aqui e assim chamada, livrai-me de todos os escritores que trabalham a palavra e não brincam com ela. livrai-me dos alpinistas sociais travestidos de artista. livrai-me dos que não erram, dos que não dão ponto sem nó, dos que não acreditam no impossível e podem (sempre) comprar o possível. livrai-me dos que desconhecem o fracasso, dos que não deixam o menino deus brincar e não interrompem a palavra do pai. livrai-me dos que não abrem as janelas e não se deixam possuir pela ventania. livrai-me dos que nunca perdem o bonde e de nada podem esquecer. livrai-me dos vampiros que não acreditam nos anjos e dos anjos que não enxergam no escuro. livrai-me dos que não sonham acordados e não atravessam a alegria ferida no corpo. livrai-me de mim mesmo, de minhas estúpidas retóricas, de minhas neuroses familiares. livrai-me de todos os fascistas da direita, da esquerda, dos centros maliciosos da sabedoria. rezo aos deuses e deusas dessa terra misteriosa para que me deem memória fresca, vibrações uterinas que inaugurem novas paternidades de fogo, novas ventanias, criações do sempre e do frágil (o frágil que é forte porque se abre à vida): tempestade invisível saudando os tambores do corpo, revelando o espírito imundo que irá nos salvar do medo adulto de perder empregos, perder baladas, perder os medos famigerados de vida. rezo a deusas e deuses pela libertação dos instintos africanos, pela vida do que ainda orienta o oriente dos corpos, pela explosão de todas as potências mixgenadas da américa mesclada, pela emergência de todas as naturezas nômades de corpos bastardos, corpos líquidos e gasosos que nos pedem passagem, pedem abrigo. rezo aos deuses, a todos os deuses e deusas, para que o palco e a plateia se explodam, para que a poesia não precise mais da arrogância dos poetas e nem da devoção dos mortais, para que a vida seja mais viva entre nós e para que os deuses e deusas se criem sozinhos. dentro e fora de nós.

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"Sem título" de Paula Duarte Fotografia
“Sem título”
de Paula Duarte
Fotografia

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Ano para enfrentar

Do teatro à música, passando pelo grafite e literatura, encontros, desencontros e confrontos de 2016 para 2017

Encontros válidos – Dois amigos se encontram para uma despedida. Da vida ou do ano? Felipe Moratori não responde em sua cena “Atravessa e me deseja boa sorte”, dedicada ao promissor estudante do Instituto de Artes e Design da UFJF, João Vítor Randí, morto no último dia 22. Quatro amigos – Davidson, Sophie, Cadu e Claudim – se encontraram no último dia 26 para grafitar as quatro faces de uma casa no terreno do Restaurante Cantinho da Cachoeira, na zona rural de Juiz de Fora. Enquanto Claudim deseja “uma felicidade mais sincera” no seu planeta cravado de flores, Cadu recorre à imagem pacífica do pássaro, Sophie elabora uma mandala em tons calmantes de verde e azul e Davidson retrata um simpático “jacaré-dinossauro”. Dois conhecidos se encontram em “Repertório de baile”, conto de Daniel Valentim, que aponta os desacertos do pop ao longo das décadas. MC Xuxú, por sua vez, clama em mensagem similar ao tom de suas canções, por uma sociedade de encontros: “Todas as formas de união são válidas”.

 

Atravessa e me deseja boa sorte
de Felipe Moratori

Uma cena para João, aquele que me fez querer o fim como um sonho.

Personagens
VIRGÍNIO, 25 anos
CAMILO, 28 anos

(Ambos vestem branco. Virgínio está sentado numa cadeira também branca. Camilo está em pé, com uma garrafa de champanhe aberta, visivelmente vazia. Ele cantarola, no objeto, qualquer música de despedida.)

VIRGÍNIO – Não, Camilo.
CAMILO – Que foi? Minha voz tá ruim já?
VIRGÍNIO – Sua voz é linda, mas é sobre um final.
CAMILO – Não entendi.
VIRGÍNIO – Essa música é sobre um final, uma despedida, e a gente mal se reencontrou.
CAMILO – Você tem toda a razão.
(Tempo)
CAMILO – Mas, Virgínio, você não acha bom começar do fim? A gente já pula essa parte.
(Tempo. Virgínio dá um sorriso leve e continua em silêncio)
CAMILO – Tá bom. Vou procurar uma mais adequada.
VIRGÍNIO – Não precisa procurar, ela acha a gente.
(Novamente tempo)
CAMILO – Ainda é dois mil e dezesseis?
VIRGÍNIO – É sim. E parece que já tem um ano que as coisas estão desse jeito.
CAMILO – Bobo. Eu acho que eu tomei champanhe na hora errada.
VIRGÍNIO – Não. Relaxa. Pode tomar. A Sylvia me mandou mensagem dizendo que vai trazer mais.
CAMILO – Minha cabeça tá estranha.
VIRGÍNIO – Estranha como, bonito?
CAMILO – Não sei… vem cá, como estão as coisas aqui com você, heim?
VIRGÍNIO – Tá indo tudo bem, ainda me adaptando. Coisa de ser estrangeiro. Ainda não me encaixei muito na turma, mas acho que é uma questão de tempo pra ver quem tem a vibe parecida. A maior parte do pessoal é bem mais velha ou bem mais nova… tipo… dezessete, dezoito ou trinta e quatro, trinta e cinco.
CAMILO – É só estar aberto ao outro. Você vai tirar isso de letra, você é muito querido por todo mundo. Nem sei como consegue!
VIRGÍNIO – Eu me aproximei bastante da Sylvia. No rolê, ela é a que tem mais a ver comigo.
CAMILO – Que ótimo, Virgínio.
VIRGÍNIO – É.Quero muito que ela chegue pra vocês se conhecerem. A Sylvia é trans.
CAMILO – Transexual?
VIRGÍNIO – Uhum. Mas o bom é que nesse lugar isso não faz muita diferença. Tô achando muito interessante me abrir pra essa galera daqui. Ela me fez lembrar de você.
CAMILO – É mesmo?
VIRGÍNIO – Ela curte a onda de sonho… como é mesmo que chama aquele tipo de sonho que você controla?
CAMILO – Lúcido. Sonho lúcido.
VIRGÍNIO – Isso mesmo. Ela falou como você, que é preciso escolher uma chave, né? Algo que você use para saber se está dentro do sonho.
CAMILO – Olha, que ótimo.
VIRGÍNIO – Ela disse que acende o dedo indicador da mão esquerda.
CAMILO – Você já ligou pra ela?
VIRGÍNIO – Não atende nem visualiza as mensagens.
CAMILO – Daqui a pouco ela dá notícia… olha, eu faço aparecer um balão de gás hélio.
VIRGÍNIO – Sério? O seu balão é como? Diferentão?
CAMILO – Não. O meu balão é sempre vermelho.
VIRGÍNIO – Que clichê, Camilo.
CAMILO – Um bom clichê ajuda na tarefa, rapaz. Quem quer controlar um sonho, tem que aprender a dançar com a mente. Qualquer deslize e pronto, tudo perdido. E a gente volta a acreditar que o sonho não é um sonho.
VIRGÍNIO – Então se você pensar num balão vermelho e ele aparecer aqui, do nada, a gente existe no sonho? No seu sonho? Tipo filme do DiCaprio?
CAMILO – É por aí.
VIRGÍNIO – A gente, digo, você, corre algum risco? Tipo Marina Abramovic? Ô, Camilo, então se a gente tivesse dentro do seu sonho lúcido, euzinho teria sido criado por você…
CAMILO – Eu gosto de voar.
VIRGÍNIO – Ah, é?
CAMILO – Geralmente eu consigo criar bem as paisagens,mas não, eu não consigo criar pessoas. É muito difícil. Todos que aparecem no meu sonho são como… presentes. Às vezes funciona, antes de dormir, eu pensar em quem eu quero. Pensar muito.
(Tempo)
VIRGÍNIO – Eu tô preocupado com a Sylvia.
CAMILO – Por quê?
VIRGÍNIO – Se ela não chegar pra virar o ano com a gente…
CAMILO – O que tem?
VIRGÍNIO – Ela corre o risco de ficar presa em dois mil e dezesseis pra sempre, né.
(Camilo fica em silêncio. Ele se perde olhando o horizonte)
VIRGÍNIO – Camilo? (ele não responde) Hei, Camilo! Eu tô brincando, para de ser estranho.
(Tempo)
CAMILO – O que você escolheria?
VIRGÍNIO – Oi?
CAMILO – A sua chave.
(Tempo)
VIRGÍNIO – Humm… podia ser contagem regressiva. Tipo essa que a gente vai fazer daqui a pouco.
CAMILO – Sei.
VIRGÍNIO – Começando com aquela sensação, sabe? Da galera contando junto, milhares com a televisão… (com ares de sussurro) Deeeez, noooove… então, na hora do zero eu ia olhar pro céu. Mas nada de fogos de artifício.
CAMILO – Ah, não?
VIRGÍNIO – Não. No meu sonho eu ia querer um céu como esse. Estrangeiro. E noturno. E um sol enorme ia nascer lá no horizonte, só que azul.
CAMILO – Um sol azul?
VIRGÍNIO – Um sol azul em céu noturno. Não é bonito? Ele sobe devagar… deixando um rastro vago de luz até a posição do meio dia.
(Tempo. Virgínio olha o telefone. Lê uma mensagem. Em seguida faz uma ligação. Aparentemente sem sucesso, ele faz uma segunda tentativa)
CAMILO – Que foi?
VIRGÍNIO – Sylvia não vem.
CAMILO – Por que não?
VIRGÍNIO – Foi breve na mensagem. (Lê) “Uma pessoa importante pra mim está dizendo que não quer o ano novo. Atravessa e me deseja boa sorte.”
CAMILO – Ô, meu Deus.
VÍRGINIO – Acabou de enviar outra mensagem: “P.S.: o champanhe prometido está na porta.”
(Camilo vai até a porta. Volta com a garrafa lacrada e uma caixa. Dentro da caixa há bexigas vermelhas vazias, um barbante e um pendrive)
CAMILO – To com medo, Virgínio.
VIRGÍNIO – Deixa eu ver, guenta aê. São os balões que sobraram do meu aniversário! Eu passei com a Sylvia. Esse pendrive é meu! Meu pendrive, Camilo! Põe pra gente escutar! Para de ser estranho, Camilo, e liga a música. A Sylvia tem dessas coisas. Tava tudo com ela, coloquei umas músicas brasileiras. Abre o champanhe!
(Virgínio começa a dançar uma música que invade o ambiente. O pendrive ainda está na mão de Camilo, que permanece imóvel. Virgínio enche o balão vermelho e dá um nó. Em seguida amarra o barbante no balão)
CAMILO – Essa música…
VIRGÍNIO – Que gostoso esse som, rola uma coisa meio enigmática, né. Você preparou tudo isso?
CAMILO -Vou precisar da sua ajuda.
VIRGÍNIO -Eu sei. Eu sou o gás hélio, né?
(Eles aumentam a voz na mesma medida em que a música também aumenta o volume)
CAMILO – O quê?
VIRGÍNIO – Eu sou o gás hélio, né? Eu sei! A Sylvia disse que não fazia ideia de onde ia encontrar um cilindro nesse lugar. Acho que ela até descobriu, mas o preço tava meio salgadinho. Segura.
CAMILO – O quê?
VIRGÍNIO – Segura o seu balão, porra.
(Camilo permanece apático. Virgínio amarra o barbante no dedo indicador da mão esquerda de Camilo e em seguida sobe na cadeira branca, suspendendo o falso balão de hélio e dançando a música como se ele e o balão flutuassem)
VIRGÍNIO – Então, agora estamos no seu sonho? Você criou isso tudo, Camilo? Por que você criaria um sonho lúcido comigo, heim, mocinho? Confessa, já criou com outra pessoa?
CAMILO – Uma pessoa importante pra mim está dizendo que não quer o ano novo.
VIRGÍNIO – Sou sagitariano, espírito livre, mas rola uma Vênus em escorpião que me faz ser meio possessivo.
CAMILO – Uma pessoa importante pra mim, cara! Não quer o ano novo!
VIRGÍNIO – Não solta o barbante! Se estourar não tem problema, a Sylvia colocou uns reservas na caixa.
CAMILO – Uma pessoa importante pra mim, Virgínio, tá ouvindo?
VIRGÍNIO – Não solta, heim! Diz que a tensão ameniza quando a memória pode chorar.
CAMILO – Virgínio, é importante.
VIRGÍNIO – Esse friozinho na barriga faz parte, tenho certeza que o ano novo vai ser sucesso.
(A música para. Silêncio. Na contraluz, os atores estão imóveis. Silhueta de Virgínio, ainda sobre a cadeira, segurando o falso balão de hélio, preso no barbante que se estende até a mão de Camilo. Ambos começam a sussurrar a contagem regressiva, imitando uma multidão)
AMBOS – Deeeez, noooove, oooooito… trêeees, doooois, uuuuum…
VIRGÍNIO – Vai, Camilo, atravessa e me deseja boa sorte.
(Luz a pino azul sobre os atores antes do Blackout. Fim)
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“Quando o assunto é amor, não existem regras e muito menos questões de etnia, gênero ou idade. Celebre o novo ano levando amor por onde você passar, mostre que todas as formas de união são válidas. Seja resistente e se prepare para novas lutas diárias. Você precisa ter um foco, ser forte e acreditar que você pode. #OClã está formado para fazer revolução e mostrar que todos são iguais e merecem ser amados de tal forma”
MC Xuxú

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Grafite de Claudim Melo Em Restaurante Cantinho da Cachoeira (Estrada de Torreões Km 790 s/n)
Grafite de Claudim Melo
Em Restaurante Cantinho da Cachoeira (Estrada de Torreões Km 790 s/n)

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Grafite de Sophletta (Sophie Wilson) Em Restaurante Cantinho da Cachoeira (Estrada de Torreões Km 790 s/n)
Grafite de Sophletta (Sophie Wilson)
Em Restaurante Cantinho da Cachoeira (Estrada de Torreões Km 790 s/n)

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Grafite de Cadu Gloobmund Em Restaurante Cantinho da Cachoeira (Estrada de Torreões Km 790 s/n)
Grafite de Cadu Gloobmund
Em Restaurante Cantinho da Cachoeira (Estrada de Torreões Km 790 s/n)

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Grafite de Bula Temporária (Davidson Lopes) Em Restaurante Cantinho da Cachoeira (Estrada de Torreões Km 790 s/n)
Grafite de Bula Temporária (Davidson Lopes)
Em Restaurante Cantinho da Cachoeira (Estrada de Torreões Km 790 s/n)

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Repertório de baile
de Daniel Valentim Mansur

– Detesto essa época do ano.
– Por quê?
– Porra, você passa o ano inteiro tentando reviver alguma coisa do passado, falando como tudo era melhor na infância, as brincadeiras, a rua, as festinhas com vitrola e música lenta, o primeiro gole de catuaba e gato mia. Daí chega a última semana e todo mundo te deseja um futuro melhor, um feliz 2017. Que mané futuro! No futuro não tem a gente.
– Mas você não precisa morrer em 2017.

(São sempre duas e meia. 33 graus com sensação de 45, numa esquina sem árvore nem vento. Ninguém vai chegar em 2017)

– No Réveillon mesmo ainda vai ser pior. Todo mundo gritando “feliz ano novo” diante de um revival do Grande Encontro.
– Eles vão tocar em Copacabana esse ano, né?
– É. Comemorando 20 anos de um grande encontro que já comemorava 20 anos do primeiro encontro deles. Minha tia tem Alzheimer. Acha que tá numa festa do clube em 78. Se soltarem ela hoje à noite no salão do Copacabana Palace, ninguém vai notar nada de estranho. Por que toda festa que marca uma passagem toca música antiga? Formatura, casamento, réveillon… era pra apontar o futuro, mas a hora avança e chega o momento de YMCA e As Frenéticas.
– Eu não quero voltar no tempo. Minha infância foi uma merda, não pegava ninguém na faculdade, sou professor de geografia há dez anos e só quero esquecer 2016.
– Eu te desejaria melhores anos oitenta, mas no fim das contas daria no mesmo. A ladeira é sempre pra baixo.
– Pelo menos não cansa, né?
– Não cansa?! Já ouviu Wesley Safadão?
– Cê realmente acha que Frenéticas era melhor?
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Ano chamado saudade

As perdas e o convite para o conforto de um novo ano

Falta eterna – Ainda que a data mude, ainda que amanhã seja diferente de hoje e de ontem, o brinco que se perde não retorna à orelha, assim como a mãe e seu abraço ou o amigo em sua cumplicidade. Para falar de um próximo ano que será de saudades da mãe, morta em dezembro, o artista visual Francisco Brandão esculpe em gesso um travesseiro delicadamente em uso. Com o mesmo aperto no peito, o poeta e editor Otávio Campos, das Edições Macondo, “foge dos fogos” e aborda uma virada de ano que é ampliação da falta. Ausência semelhante está expressa em uma das imagens da série “Direções para o invisível”, de Matheus de Simone, que inaugura sua primeira individual no Museu de Arte Murilo Mendes já em janeiro. Na fotografia, o artista visual retrata um brinco perdido na areia da praia, como a falar de uma vida que é fragilidade, ano a ano.

 

A gente precisa terminar
de Otávio Campos

Para o João

No mundo real agora
estendo lençol branco
no colchão e seguimos
pensando as coisas de dentro
dos carros de praça do centro
as plaquettes que editamos
não te seguram se por acaso
você se joga de cima
de dentro do carro as coisas
são pequenas se encosto triste
a cabeça na janela & o movimento
que talvez seja o mesmo
da cidade que te frequenta
pensamos os dois
o mundo em saltos da janela
do carro de praça ainda
que a casa esteja quase na esquina
estou com você em rockland
estou com você em longisland
estou preso no tráfego & os outros
pensam nossa loucura de fora
esta mancha de café incômoda
para os que fogem dos fogos
enquanto esqueço a cidade
que atravessa inteiro seguimos
como se as escadas de incêndio
estivessem tomadas é inútil
o que publicamos no jornal
o que escrevemos de próprio punho
agora no mundo real você
espera
o ano novo que não vem

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"Serenidade" de Francisco Brandão Escultura em gesso, 40x60cm
“Serenidade”
de Francisco Brandão
Escultura em gesso, 40x60cm

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"Sem título", da série "Direções para o invisível" de Matheus de Simone Fotografia
“Sem título”, da série “Direções para o invisível”
de Matheus de Simone
Fotografia