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Retorno ao sertão de Daibert Grande linguagem Grande saudade


Por Mauro Morais

29/11/2016 às 07h00- Atualizada 29/11/2016 às 11h31

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Ao visitar “Grande Sertão: Veredas”, principal livro publicado por João Guimarães Rosa, em 1956, o juiz-forano Arlindo Daibert não se encerrou na obra do escritor e conterrâneo mineiro. Ora identificou “Os sertões”, de Euclides da Cunha, ora leu “Hamlet”, de William Shakespeare. Deu ao clássico roseano a magnitude que o tempo confirmou existir em cada linha. Ilustrou expandindo. Não à toa, tornou-se o trabalho mais emblemático de sua carreira. Ganhou reconhecimento nacional – ao integrar a Coleção Gilberto Chateaubriand, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – e internacional. Para o crítico e pesquisador Júlio Castañon Guimarães, o trabalho sintetiza uma importante característica da produção de Daibert, o encontro entre texto e imagem, além de apresentar um intelectual de grande envergadura, capaz de gestar uma original interpretação de “Grande Sertão”.

Celebrando 60 anos do livro de Guimarães Rosa, as imagens de Daibert retornam à Belo Horizonte, onde foram vistas pela primeira vez. Em exposição até 15 de janeiro na Galeria Mari’Stella Tristão, do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, a série reúne 20 xilogravuras e 51 desenhos, além de matrizes hoje pertencentes ao acervo da família do artista. “O Arlindo promove representações de ‘Grande Sertão’. Em seu diário, ele dá dicas e fala que não queria ilustrar, apenas, mas criar outro sertão”, pontua o curador da mostra, o professor do Instituto de Artes e Design da UFJF José Alberto Pinho Neves, referindo-se à obra como uma exitosa “tradução” do texto literário.

Como Guimarães, Arlindo gerava outra grande obra. “À dimensão avassaladora do romance corresponde a surpreendente multiplicidade tanto de recursos envolvidos na elaboração dos trabalhos, quanto de modos de se relacionar com personagens, temas, episódios e a própria linguagem do romance”, pontua Júlio Castañon Guimarães no texto que integra o livro “Imagens do Grande Sertão”, publicado em 1988. “Entre a delicadeza desse trabalho, o arsenal de elaborações que o acompanha e as telas sombrias, perversas, ameaçadoras que vieram a ser o momento derradeiro da produção do artista, passa uma inquietação permanente, deflagradora de um imenso processo de criação”, completa o teórico.

Grande linguagem

Distantes 30 anos, tanto a obra literária quanto a obra imagética dizem de um sertão contemporâneo. Enquanto Guimarães Rosa fala de seu tempo, vencido o regionalismo no romance e apontando para os fortes tons existencialistas dos escritos de sua geração, Arlindo também flerta com o presente no qual seu sertão foi traçado. “A obra do Arlindo precisa ser analisada na contemporaneidade do tempo em que ele viveu. E ele sempre teve essa preocupação. Em ‘Grande Sertão’, ele faz uma conjugação de várias técnicas que estavam sendo usadas, como o sangue em alguns desenhos, que retoma a body art, latente naquele momento”, observa o curador Pinho Neves.

“A noção de tempo, com o avanço das mídias, a rapidez da comunicação, transforma tudo em horas. Esse tempo de 20 anos de morte de um artista, então, faz uma grande diferença quando sua obra é comparada ao que é produzido hoje”, comenta Pinho Neves. “Arlindo promove uma simultaneidade de personagens, considerando as de Guimarães Rosa e trazendo as que habitavam o mundo contemporâneo dele”, acrescenta, citando Romeu, o cego visionário da obra de Rosa, que surge nos desenhos de Arlindo referenciado na obra do artista Geraldo Teles de Oliveira, cuja produção em madeira reúne figuras tantas que retiram da obra o que é verso e o que é frente.

Grande saudade

Passados 23 anos da morte de Arlindo Daibert, o convite para revisitar um de seus mais marcantes trabalhos mostra-se, para sua família, como uma esperança de reconhecimento, ainda que tardio. “Só fazem(mos) eventos para comemorar aniversário de morte. Essa mostra no Palácio das Artes é legal porque atrelaram a obra dele diretamente ao ‘Grande Sertão’, do Guimarães”, comenta Eveline Daibert. “Acho que ele é mais conhecido nos meios acadêmicos. E talvez isso seja muito bom, porque há pessoas interessantes escrevendo sobre ele”, pontua a irmã, lamentando a distância temporal e destacando a importância da edição da série “Alice no País das Maravilhas”.

“É o que falta para a trilogia”, diz ela, referindo-se às releituras literárias de Arlindo, que passaram pela obra de Lewis Carroll, “Macunaíma”, de Mário de Andrade, e “Grande Sertão: Veredas”. “No sentido de ilustração, ‘Alice’ talvez represente mais esse exercício, já que em ‘Macunaíma’ o Arlindo traz a simultaneidade de personagens presentes em ‘Grande Sertão’, que não é um pensamento isolado, mas um raciocínio de linguagem que ele já exercitava. Não dá para desconsiderar a formação em letras do Arlindo, que era um leitor voraz como o Guimarães”, complementa José Alberto Pinho Neves, apontando para 2018, quando fará 25 anos da despedida do artista. “A cidade ‘deve’ ao Arlindo. É preciso registrar a passagem dele num sentido mais afirmativo. É preciso fazer um grande evento, uma grande discussão.”