Tópicos em alta: delivery jf / coronavírus / vacina / chuva / polícia / obituário

Pug Records anuncia ‘aposentadoria’ para dezembro

Selo que lançou diversos artistas de Juiz de Fora nos últimos dez anos encerrará atividades

Por Júlio Black

29/09/2020 às 07h00- Atualizada 29/09/2020 às 17h51

Eduardo Bento anunciou a “aposentadoria” do selo na última semana pelo Instagram (Foto: Eliza Möller)

Foram dez anos de bons serviços prestados à música feita em Juiz de Fora, mas a Pug Records vai fechar a lojinha. O anúncio da “aposentadoria” do selo foi feito na última quarta-feira (23) no perfil da Pug no Instagram (@pugrecords), por um de seus fundadores e último dos moicanos, Eduardo Bento. De acordo com ele, a gravadora manterá as atividades até dezembro, e a despedida será feita com os três derradeiros lançamentos do selo conhecido pela figura simpática do cão da raça pug, criada pelo ilustrador Bruno Okada, que estampou CDs, vinis e fitas cassete, além das camisetas que não são difíceis de se encontrar pelas ruas e eventos alternativos de JF City. Até Stephen Malkmus, ex-Pavement, já subiu ao palco com a camisa do doguinho.
Desde seu lançamento, em 2010, a Pug Records ajudou a gravar, produzir, divulgar e distribuir o trabalho, principalmente, dos artistas locais, incluindo nomes como Top Surprise, duplodeck, Alles Club, Filipe Alvim, Baco Doente, BAAPZ, Fugere e tantos outros, além de artistas do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e até da gringa (Estados Unidos, Israel e Japão). E não vai parar por problemas de grana, falta de talento na área ou desencanto com o mundinho indie. Segundo Eduardo Bento, a decisão foi tomada ano passado, quando chegaram ao vigésimo lançamento, por conta das pequenas manias que cada um tem.
“Eu tenho uma coisa de gostar de histórias ‘redondas’. Uma banda que gosto muito é a Felt, que se propunha a lançar dez discos em dez anos, então eu meio que tinha essa vontade de manter o selo por um período ‘redondo’, como são os dez anos. E ainda mais pegando uma década certinha, de 2010 a 2020, fica o recorte legal de um serviço prestado por uma década inteira”, explica. “Mas tem um pouco do cansaço também. Mesmo não sendo o produtor, dou meus pitacos, veto a capa, peço para refazer, dou sugestão em letra, além da obrigação de estar sempre on-line nas redes sociais. Essas coisas geram algum desgaste, mas não estou acabando com o selo porque estou estressado.”
Tanto é assim que Bento anuncia que a Pug Records vai encerrar com um número “redondo” de anos em atividade, mas não de lançamentos. O selo lançou há pouco seu 21º produto, o EP de estreia do Fugere, e ainda terá até dezembro dois singles de artistas novos, sendo um deles a banda Gaspacho, e também uma coletânea em fita cassete com demos e sobras de estúdio do hitmaker Filipe Alvim. Ele deve aproveitar, ainda, para fazer uma liquidação do estoque da gravadora.

(Foto: Olympia Tennis Club é representante da nova geração que ganhou visibilidade com a ajuda do selo)

Decisão tomada em 2019

Se a decisão de “aposentadoria” da Pug Records é recente para o público, a decisão já havia sido comunicada aos parceiros de selo – como os cofundadores André Medeiros e Amanda Dias – e artistas há algum tempo, e obviamente lamentada. “O pessoal não acreditou muito, indiretamente as pessoas achavam que era um projeto vitalício, só acreditaram quando fiz a postagem. Mas eles entenderam, mesmo ficando um pouco chateados”, diz Bento. “O mundo deu muitas voltas ao longo desse processo. O papel do selo deixou de ser tão importante para muitos. Mas a sensação que tenho é de alívio.”
De acordo com ele, muito desse sentimento é fruto da forma como eles sempre trataram o negócio. “Tem muito selo que não é baseado numa afinidade estética e nem pela amizade, e na Pug sempre tivemos esse vínculo de amizade e estética, em que o som é influenciado de alguma forma pelo selo, por pessoas que participam dele. Nós surgimos numa época em que não havia selo, todo mudo confiava no Trama Virtual, MySpace, e resgatamos essa coisa da gravadora, que acho que voltou a se perder um pouco. Quem curte determinada banda vai segui-la no Instagram, ouvir no Spotify, acho que o pessoal mais antigo é que ainda se liga nessa questão de selos como o Creation (selo inglês que lançou álbuns de nomes como Slowdive, Primal Scream, My Bloody Valentine, The Jesus and Mary Chain e Ride).”

O conteúdo continua após o anúncio

Para ouvir em cassete

Em 2009, Eduardo Bento estava às voltas com o blog “Last Splash” e André queria lançar sua banda, então chamada Hermitage, e que depois virou a Top Surprise. A dupla partiu da expressão “a banda que carrega o selo” para chegarem na área – com Amanda fechando o trio – com o novo selo. “Nós queríamos lançar a banda, e, como sempre valorizamos essa coisa do selo, vimos que teríamos que lançar o nosso, aproveitando o blog para impulsionar e fazer contatos. Ao mesmo tempo, pensamos que precisaríamos de três bandas lançando material para sermos vistos como selo. Como curtimos muito o Transfusão Noise Records, do Léo Almeida, começamos em 2010 com o relançamento em cassete da Coloração Desbotada, que ele havia lançado em 2005, e depois a Top Surprise e um EP de 2002 da duplodeck, neste caso remixado e remasterizado, e todos em cassete”, relembra.
A Pug Records apareceu com mais força no radar musical independente graças à Top Surprise, inicialmente com mais força no exterior. Por aqui, o selo ganhou mais visibilidade – incluindo matérias em jornais como “O Globo” – por ter apostado justamente na mais que vintage fita cassete. “Foi uma ideia que tivemos numa época em que ninguém fazia mais. Pensamos que precisávamos ter algo físico, pois rolava muito MP3 e o CD-R estava em baixa, e o cassete tinha essa coisa despretensiosa, de prensagem pequena. E tivemos um timing bom, pois fomos notícia em alguns jornais, atraiu visibilidade pra gente, mas ao mesmo tempo nos estigmatizou um pouco como ‘o selo da fitinha cassete’. Chegava email de banda sertaneja querendo fazer orçamento”, recorda, destacando que chegaram a ter distribuição internacional, mesmo que em pequena escala, pela Lost Sound Tapes, de Seattle (EUA).
Os lançamentos em fita cassete prosseguiram até 2012. No ano passado, voltaram ao formato para lançar um álbum da banda Sereno. Também experimentaram o vinil em parceria com outras gravadoras e em uma prensagem praticamente artesanal, com pouquíssimas cópias, para um trabalho de Filipe Alvim. “Muita gente não entendeu nosso diálogo com a fita cassete, achavam que seria para o lo-fi gravado em casa e de má qualidade, e nunca tivemos essa coisa de que coisa mal gravada teria que sair em cassete. Nosso slogan é ‘try this at home’ (‘tente isso em casa’), que é algo imperativo mas simpático, e que sempre foi pensado para que as pessoas soubessem que poderia ter sido feito em casa, mas sempre com qualidade.”
Com o tempo, o cassete deu espaço para o CD-R; mais tarde, com a força do streaming, alguns lançamentos físicos foram substituídos pela distribuição gratuita de fanzines nas banquinhas montadas para os shows, praticamente um esquema “leia antes e ouça nas plataformas digitais depois”.

Motivo de existência da Pug Records, Top Surprise foi uma das primeiras bandas do selo (Foto: Amanda Dias)

Legado

Ao fazer o inevitável balanço dessa década de existência, Eduardo Bento divide a história da Pug Records em três fases. A primeira, obviamente, começa com a criação por causa da Top Surprise e do resgate da turma de uma “geração” anterior, como a duplodeck e Ciro Madd; a segunda é marcada pelos primeiros trabalhos de Filipe Alvim, em 2013 (“no primeiro show dele todo mundo cantava junto”); e a terceira teve início em 2018, com Alles Club, Olympia Tennis Club e BAAPZ, entre tantos outros.
“É legal que tem esse pessoal mais novo e projetos que são desdobramentos do nosso início, como a Baco Doente, que tem dois ex-integrantes da Top Surprise, e a Grogues, projeto do Filipe Alvim. E acredito que seja a fase mais produtiva do selo, com maior variedade de som, com mais discos saindo”, analisa. “Se tivesse terminado o selo com três ou quatro anos, talvez o legado tivesse sumido, mas com dez anos acredito que ele vai continuar na memória das pessoas, pois temos trabalhos que dialogam uns com os outros, artistas que continuam na atividade. A maioria dos lançamentos da Pug sempre foi de bandas estreantes e de Juiz de Fora. Sempre acreditamos que o foco do selo independente era de lançar novos artistas. As pessoas vão continuar ouvindo nossos álbuns. Fechamos um ciclo, mas continuaremos reverberando.”
E por reverberar, Eduardo Bento diz que a “aposentadoria” da Pug Records não quer dizer que ele vai passar os dias a jogar damas com os coroas no Parque Halfeld. Mesmo com 35 anos nas costas e uma década de militância na independência fonográfica, vai prosseguir na campanha pelos bons sons. “Muitos selos independentes vieram de fanzines, como foi nosso caso, e agora vou fazer o caminho contrário. Não vou continuar com o selo, mas seguirei como fã acompanhando os artistas quando lançarem novos álbuns, escrevendo sobre eles. Vou continuar com o fanzine de papel ‘Papelote Press’ e o virtual database.fm. É a forma que tenho de ajudar, fazendo as biografias dos artistas e continuando nas banquinhas das bandas com o zine”, avisa, além de preparar um fanzine especial sobre a trajetória da gravadora.
E, sim, ele pretende continuar a vender as camisas com a simpática logo do cachorrinho, para a alegria da turminha indie e todo mundo que, de uma forma ou outra, vestiu a camisa (ops) da música independente juiz-forana.

Um dos nomes mais conhecidos do selo, Filipe Alvim lançou primeiro EP pela Pug em 2013 (Foto: Tamires Orlando/Divulgação)

Pug Records em dez anos, entre álbuns e EPs
Coloraçao Desbotada – “Eu, eu mesmo e os vários beijos cafeinados” EP (2010)*
Top Surprise – “Everything must go” EP (2010)*
duplodeck – “duplodeck” EP (2011)
Ciro Madd – “Sleeping in the rough sea” (2012)
Top Surprise – “Klouds” EP (2013)*
Filipe Alvim – “Zero” EP (2013)
duplodeck – “Verões” (2014)
Gaax – “Campo dos sonhos” (2015)*
Filipe Alvim – “Beijos” (2016)
The Cigarettes – “The lights” EP (2017)
The Cigarettes – “Saturno wins” (2017) 1
Shower Curtain – “Mariposa” EP (2018)
Gumes – “bb” EP (2018)
Filipe Alvim – “Tudo pode acontecer” (2018)
Alles Club – “Décollage” (2018)
Olympia Tennis Club – “Thick lipped grrrl” EP (2019)
Grogues – “Passar mal” (2019)
BAAPZ – “Remoto” EP (2019)
Baco Doente – “Baco Doente” (2019)
Sereno e Cia Ltda. – “Elite dos 4” (2019)
Fugere – “Fugere” EP (2020)
* em parceria com a Transfusão Noise Records.

Apenas na internet:
Mutt Singles Series (Soundcloud 2014)



Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é dos autores das mensagens.
A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros.



Desenvolvido por Grupo Emedia