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Cenas de um passado vívido

“Se havia coisas piores, não sei. Aqui era um campo de concentração.” Passados 54 anos, o fotógrafo Luiz Alfredo retorna ao local que lhe rendeu apavorantes imagens para a reportagem “A sucursal do inferno”, publicada pela revista “O Cruzeiro”. Chocantes, seus registros revelavam um cenário extremamente cruel e desumano. “Foi um pesadelo que vivi naquelas […]

Por MAURO MORAIS

29/03/2015 às 06h00

Felipe Couri“Se havia coisas piores, não sei. Aqui era um campo de concentração.” Passados 54 anos, o fotógrafo Luiz Alfredo retorna ao local que lhe rendeu apavorantes imagens para a reportagem “A sucursal do inferno”, publicada pela revista “O Cruzeiro”. Chocantes, seus registros revelavam um cenário extremamente cruel e desumano. “Foi um pesadelo que vivi naquelas seis horas. Dizia que era um matadouro”, completa ele, diante de duas câmeras e de uma equipe formada por 15 profissionais. À ordem de “corta”, todos descontraem, com os olhos embaçados. No set de filmagem de “Holocausto brasileiro”, documentário baseado no livro homônimo, da repórter especial da Tribuna Daniela Arbex, as lágrimas confirmam o clima de comoção. A cada palavra dita por uma testemunha ou personagem da terrível história que cerca o Hospital Colônia de Barbacena, um assombro, um nó na garganta.

Sob um silêncio quase ameaçador, a tragédia que vitimou mais de 60 mil pessoas, a maioria deles sem qualquer diagnóstico de doença mental para a internação em um dos maiores hospícios do país durante o século XX, é resgatada em toda a sua crueza. A produção, que vai ao ar no canal pago HBO, um dos maiores do mundo, começou a ser rodada no último dia 18, na cidade onde ocorreram os fatos. O término das gravações, que ainda devem passar por Belo Horizonte, está previsto para o final de abril. A cargo da Vagalume Filmes, de Juiz de Fora, a produção de pouco mais de 80 minutos será finalizada até dezembro desse ano, mas ainda não há previsão de exibição na telinha.

Dirigido por Armando Mendz, belo-horizontino com experiência em documentários para cinema e TV, em parceria com Daniela, o filme parte da narrativa criada no best-seller da Geração Editorial para um relato sensível e singular. Em alguma medida, transpõe em imagens os próprios desdobramentos da obra literária, reconhecida com o prêmio de melhor livro reportagem pela APCA e segundo melhor no Jabuti, ambos de 2014. Personagens descobertos após o lançamento do livro e o retorno de outros, já conhecidos, aos ambientes de tortura, mostram o ineditismo de uma produção cujo tom principal é a emoção. “Toda a equipe está comprometida e feliz por contar essa história para o mundo. Cada dia aqui traz uma novidade e nos envolve ainda mais”, pontua Daniela, em visita exclusiva da Tribuna ao set.

“Nosso maior desafio é narrar os fatos do livro, sem ser o livro, mantendo os personagens com certa pureza e pensando nos desdobramentos”, afirma Mendz. Para ele, é como se trabalhassem sobre um mito, já que a documentação é escassa e não dá conta de tudo. “Os novos personagens que encontramos são surpreendentes”, conta. “A memória é muito difusa aqui”, acrescenta, referindo-se ao profundo silêncio que ainda paira na cidade, parte movida pela dor, outra, pelo recato. “A força das histórias nos afeta emocionalmente, mas nos dá força para criar. Essa história merece ser contada exatamente da forma como aconteceu”, defende o diretor de fotografia Mauro Pianta.

O nome dos renegados

Com as paredes em ruínas, janelas sem vidros, muito mofo, mato e sujeira por todo o canto, uma das salas do antigo Pavilhão Milton Campos, onde eram mantidos os internos homens com força de trabalho, faz com que o primeiro fotógrafo a registrar os horrores do Hospital Colônia reviva uma de suas mais assustadoras fotos. Na imagem feita em 1961, Luiz Alfredo capta centenas de homens uniformizados e atemorizados em um espaço minúsculo. “Voltei há quase 55 anos. Chega a me dar um arrepio”, diz, com sua Rolleiflex daqueles tempos pendurada no pescoço. “Como foi ser testemunha de uma das maiores tragédias do país?”, pergunta Daniela Arbex. “Agora tenho o sentimento de que serviu para alguma coisa”, responde ele, para logo em seguida secar as lágrimas que escorriam pelo rosto. Após o “corta”, Armando Mendz e Daniela abraçam o entrevistado.

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Aos 80 anos, Luiz Alfredo identifica cada espaço do que restou e ainda convive com o novo e moderno hospital que hoje funciona lá, sob a administração da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). O pátio, onde carnes ficavam expostas às moscas e internos perambulavam sedados, ainda preserva sua configuração, enquanto os corredores que lhe dão acesso mostram uma rotina normal e asséptica de uma área médica. Luiz Alfredo caminha, seguido pelas câmeras, e, num determinado cômodo, abre um portão e se assusta, assim como toda a equipe, que começa a gravar às 7h e só para ao anoitecer.

“Só agora que entrei nesse lugar. Ainda está cheio de celas. É uma masmorra”, diz Daniela, aflita, referindo-se aos espaços, em sequência, gradeados, com cerca de 1m de largura e 2,5m de comprimento. “É uma situação de privação absurda, porque até os que chegavam rapidamente se alienavam”, comenta Armando Mendz.

Assistente de direção, a mineira de Belo Horizonte Suzi D’Souza sente o peso da atmosfera do lugar. Para ela, o que reconforta é a urgência em resgatar um drama tão difícil de compreender. “A sensação que temos é a de dar nome para quem o destino era ser esquecido, renegado”, emociona-se. “Tudo envolve uma tristeza, os ambientes envolvem uma amargura”, pontua Mauro Pianta, reforçando a força de uma câmera que acompanha esses personagens no retorno aos lugares que marcaram a trágica história. “Trazemos as pessoas para a história, e a câmera vê tudo de uma forma tensa. Na cor dele, vai ter tristeza”, completa o diretor de fotografia.

Um dos primeiros filmes documentais da HBO no país, “Holocausto brasileiro” percorre, de maneira profissional e corajosa, o caminho indecoroso no qual muitos foram forçados a viver. Alguns, poucos, sobreviveram para contar. Eis, então, a faceta otimista e esperançosa da produção, que também se rende aos sorrisos de ex-internos que, em alguma medida, reconstruíram suas dignidades.

Exatamente daqui a um mês, está prevista para chegar às livrarias do país a mais nova publicação de Daniela Arbex, “Cova 312” (Geração Editorial), que narra a história do desaparecido político Milton Soares de Castro, preso e morto em Juiz de Fora, e enterrado como indigente, remontando os terrores da ditadura militar. De acordo com a jornalista e escritora, a obra chega ao público justamente quando se completam 48 anos da morte de Milton, no dia 28 de abril. Assim como “Holocausto brasileiro”, o novo título também parte de seu trabalho na Tribuna. A história foi tema de uma série homônima, publicada em 2002, que lhe rendeu o Prêmio Esso Especial Interior, no mesmo ano. Resultado de dezenas de entrevistas, feitas ao redor de todo o país e com figuras conhecidas do grande público e anônimos que sofreram a repressão, “Cova 312”, para a autora, é um acerto de contas com o passado que, assim como o drama do Hospital Colônia, se mantém vívido.

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