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Alicerces feitos de versos

Macondo, pequena editora juiz-forana, lança livros na Flip, que começa nesta quarta, e apresenta série literária de formação


Por Mauro Morais

26/07/2017 às 06h00- Atualizada 28/07/2017 às 16h26

“Macondo era então uma aldeia de 20 casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos.” A segunda frase de “Cem anos de solidão”, do colombiano Gabriel García Marquez, escritor dono do Nobel de 1982, é o ponto de partida de uma das mais vigorosas narrativas latino-americanas e, também, de um lugar. Macondo surge dali. Tanto o lugarejo mágico, quanto a editora juiz-forana, que após três anos de existência apresenta suas casas de barro.

“Esse nome (‘Casa de Barro’) me pareceu a manutenção de um elo conceitual entre a editora e o livro de García Marquez, mas também me pareceu manter a maneira intimista de fazer os livros, pensar mais que uma coleção ou um catálogo, mas a criação de afetos”, observa a poeta e uma das editoras da Macondo, Anelise Freitas. “Como a ideia é ser uma coleção de fundação/formação, não podia haver nome melhor. A coleção se propõe a apresentar uma espécie de panorama afetivo da editora e, de quebra, também da poesia contemporânea. Os livros são casas que vão se aglutinando ao redor de um povoado”, ilustra outro editor, Otávio Campos, também poeta.

Segundo Anelise, retomar “Cem anos de solidão”, “conceitualmente, é repensar o lugar que ocupamos no mundo, pensar a região que habitamos não como uma construção simplesmente político-administrativa, mas como um elo afetivo de identidade e pertencimento. Parece ser importante pensar essas pontuações, principalmente agora, em tempos difíceis para a ideia de nação”.

Inaugurada por três diferentes poetas, com distintas dicções e origens – André Capilé, Mariano Alejandro Ribeiro e Prisca Agustoni -, a Coleção Casa de Barro, das Edições Macondo, desembarca nesta quarta-feira na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty. Leva consigo um bocado de Juiz de Fora, num catálogo capaz de cartografar a poesia contemporânea local. “Nesses últimos nove anos, vimos surgirem blogs, fanzines, editoras, saraus. O Eco (performances poéticas, sarau) é um bom marco temporal para ver como há abertura na cidade para se produzir poesia e como esses diferentes caminhos da produção se entrecruzam, ainda que distintos”, analisa a co-editora e poeta Fernanda Vivacqua.

A Macondo juiz-forana leva, também, um tanto da resistência e outro tanto da potência das pequenas editoras no país, que pela primeira ganham espaço no evento. “Essa é uma edição histórica da festa, com o maior número de representatividade dos últimos 15 anos. Foi muito importante a presença da Josélia (Aguiar) na curadoria, e acredito que foi justamente por isso que a Macondo conseguiu alcançar o evento”, comenta Otávio Campos. “Atualmente recebemos inúmeros pedidos de publicação e fechamos parcerias com grandes poetas do cenário nacional. Caminhamos com a certeza de que ainda temos muito chão pela frente, mas também sabemos que, entre as mãos, temos o mapa correto”, afirma Anelise, pontuando a reedição de “Polaróides”, obra da festejada poeta brasileira radicada na Alemanha, Adelaide Ivánova, convidada da Flip deste ano, como Prisca Agustoni.

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“Vejo que têm surgido muitas pequenas, e boas, editoras, que podem estar construindo um outro tipo de pensamento de mercado, principalmente para se vender poesia. E não sei também se esse mercado é sólido, para a gente não tem nada sólido, é sempre um desafio para não se desmanchar. A gente continua fazendo os livros com a mesma paixão, e vendendo quando dá, e esperando que essas vendas cubram os custos de produção e deem uma margem para se produzir mais. E não tem como falar que o mercado não influencia no que é produzido na Macondo. Acho difícil, inclusive, apontar algum lugar que o mercado não influencie”, afirma Otávio.

Poliglotas

Sentir-se em casa é um estado de poesia. “O poema é esse lugar que essas poéticas comungam, é o lugar de marcar-se no espaço-tempo”, confirma a poeta e editora Anelise Freitas, referindo-se à escrita de Mariano Alejandro Ribeiro, André Capilé e Prisca Agustoni, que inauguram a Coleção Casa de Barro. “Quando leio os livros dos três, sempre sinto a necessidade de reler, porque os poemas me jogam para um lugar que não conheço, onde os referenciais prévios não são suficientes”, pontua Fernanda Vivacqua.
Nascido em Buenos Aires, de onde partiu aos 9 anos, para se fixar em Portugal, Mariano fala em castelhano dentro de casa, mas escreve em português. Primeiro título no Brasil e segundo na carreira do jovem de 24 anos, “Cabeça de cavalo” esgarça a linguagem. É epifânico. “Mais do que uma raiz, diria que é um fim. Acho que todas as epifanias são trabalhadas, mesmo num plano subconsciente”, pontua o autor.

Segundo título da Coleção Casa de Barro, “Muimbu” é uma resposta à ancestralidade de André Capilé. “Seja a ancestralidade desterrada daquele continente (o africano), seja a ancestralidade enterrada em nosso continente (o índio), seja, ainda, a ancestralidade familiar”, observa o poeta de Barra Mansa, interior fluminense. Com os olhos voltados às raízes, Capilé fala de si e de uma língua atravessada pela África. “Sou candomblecista. Tata Kambondo (ogã, na tradição nagô) iniciado. É uma religião, no meu caso, familiar. Junte-se a isso, além do conhecimento ritual, a experiência intelectual na pesquisa de antropólogos e linguistas e historiadores que lidam com certo recorte da história africana e da transformação dessas tradições no Brasil”, conta.

Prisca Agustoni, que neste sábado, na Tenda Agenda 21, às 14h, lança “Casa dos ossos”, na Flip, também fala de territórios que se atravessam ao adotar uma língua que são muitas. “O livro estava pronto e foi resgatado. Foi publicado em italiano, em 2010, na Suíça, pela editora Ópera Nuova. Não é igual, porque todos os meus livros não são traduções iguais. Acho que agora ele sai melhor. É um livro muito hermético, escrito em 2008 e 2009, anos em que eu trabalhava muito a poesia extremamente enxuta, econômica, com uma forte influência da literatura alemã. Tem a ver também com uma vivência de escrever num lugar de ar rarefeito. Percebo hoje, lendo esse livro, que eu estava escrevendo olhando para uma parede. Há uma claustrofobia, é um livro fechado”, reflete Prisca.

Fotografia de um momento da poesia brasileira, a coleção que serve de base à Macondo reflete a circulação de escritores de diferentes eixos e polos, que se encontram em revistas, na maioria virtuais, dispostos a transformar versos em pontes. Do outro lado, Mariano confirma: “O Brasil ocupa um lugar importante no imaginário de qualquer pessoa lusófona. Não só pela poesia, mas pela literatura em si, pela música e pelo cinema também. A arte brasileira é maravilhosa. Quanto à poesia contemporânea, essa chega-me majoritariamente pelas redes sociais, fiz muitos amigos ao longo dos anos dessa maneira. E não sou só eu, creio que se tem muito presente o que se anda a fazer do outro lado do Atlântico, pelo menos na literatura.”

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