Ouça agora

Outras ideias com Ângela Maria de Oliveira Soares


Por Tribuna

25/09/2016 às 07h00

Aos 62 anos, Ângela ganha a vida vendendo bolsas na parte baixa da Rua Halfeld (Foto: Marcelo Ribeiro/ 15-09-2016)

Aos 62 anos, Ângela ganha a vida vendendo bolsas na parte baixa da Rua Halfeld

Há mais de duas décadas, ela carregava uma mala com suas roupas, alguns poucos objetos e os pertences da filha Gabriela, que vinha de mãos dadas para uma nova vida. Na bagagem não coube Rio Novo, onde havia construído o casamento de dez anos. Também não coube o ofício de professora. A vida, a partir dali, seria vendendo o que a vaidade feminina dava conta de comprar. Ângela Maria de Oliveira Soares tornava-se sacoleira. “Lecionei 12 anos em Rio Novo. Fui professora de primário. Casei e morei lá. Quando me separei do marido, deixei tudo para trás e vim para Juiz de Fora com a minha filha. Aí comecei a vender as coisas. Antes eu vendia roupa, joias, jeans, chapeados. Era uma sacoleira”, conta a mulher de 62 anos, sentada ao lado de sua barraca carregada de bolsas, na calçada da parte baixa da Halfeld.

“Em 1995 fui na Prefeitura e consegui o ponto. Vendia de tudo, hoje, só bolsas. Vou a São Paulo de 15 em 15 dias buscar. Não sou aposentada e vivo disso aqui. Pago aluguel. Se eu não trabalhar, não almoço, não janto e não durmo”, diz a camelô, que a todo momento equaciona o que deve, o que paga e o que leva com ela. “É uma vida muito sofrida. Só Deus é quem sabe. Vou para São Paulo e tenho que dar a volta pelo Sul de Minas, porque se passar pela (via) Dutra a Polícia Rodoviária toma tudo. A estrada é horrível, duas horas a mais. Vou à noite, chego 4h30, fico o dia inteiro e volto 14h30. Quando o ônibus não quebra, chego meia-noite, mas, quando quebra, chego às 2h30, 3h30. Fazer o quê?! Não tenho outra escolha. Estou só ficando obesa aqui. Eu era magrinha e, em dez anos, engordei, passei a ter pressão alta. Estou fazendo uns exames para saber se tenho diabetes”, lamenta.

Como compor com a história

Vaidosa, com as unhas pintadas e óculos de sol, Ângela vende o que sempre gostou de comprar. “Gosto muito de bolsa”, comenta, para logo orgulhar-se do pequeno espaço que ocupa na cidade: “Minha barraca é linda. Vendo muita bolsa bonita. Muitos alugam o ponto, outros vendem. Está uma bagunça.” O fato de todas serem réplicas não lhe incomoda, assegura. Ainda que lhe renda uma dor de cabeça extra. “Há pouco tempo a polícia me pegou, mas graças a Deus me devolveram tudo. A Adidas eu arrebento de vender. Ninguém está aguentando mais dar R$ 6 mil numa bolsa”, sugere ela, que precisa vender muitas peças para equacionar contas tão grandes. “A barraca eu tenho que guardar no estacionamento. E é lá na Marechal. Pago R$ 250 para guardar e R$ 50 para um cara empurrar”, enumera ela, que há anos vive com um primo de primeiro grau, caminhoneiro, com quem divide um sonho por demais pequeno se comparado ao esforço diário. “Sonho em ter minha casa própria.”

Onde guarda recordações

Ainda pequenina, em seu primeiro ano, Ângela viu a mãe arrumar as malas e partir, todos (os pais e os oito filhos) juntos, da Lima Duarte natal para o Bairro Barbosa Lage, na Zona Norte de Juiz de Fora, Aos 18, novamente fez as malas rumo a Rio Novo. Agora, dia a dia, arruma uma pequena bolsa para deslocar-se da casa na Avenida Sete de Setembro até o trabalho na Halfeld. “Se pudesse escolher, escolheria uma Marechal da vida.” Enquanto a infância foi “maravilhosa, com um paizão que nunca deixou faltar nada para a gente”, o presente é duro. “Vou levando. Chego aqui às 7h da manhã e saio às 7h da noite. Aguento trabalhar e gosto de trabalhar. Nunca faltei um dia de serviço, nem deixei ninguém ficar na minha barraca. Enfrento tudo. Segurança e chuva. Tem que ficar segurando o plástico para não molhar. Já comprei ele esses dias, foram R$ 120”, diz. “Trabalho sozinha e não tenho como pagar funcionário. Pego dinheiro emprestado com agiotas, a cidade inteira pega. Só assim a gente consegue ter as coisas. De um ano para cá ficou assim: se você tem mercadoria, vende e paga suas contas, mas se não tem dinheiro para buscar mercadoria, acaba pegando emprestado.”

O que leva da vida

A fala ligeira e o tom de alguma forma bravo, Ângela aprendeu na rua. “Para trabalhar na rua tem que ser assim. Tem uns que vêm pedir dinheiro e tem que gritar para sair fora. Às vezes vêm para roubar. Eu estou do lado de cá, uma vem e me entretém, e o outro leva. Quando vejo, tem um buraco na barraca”, recorda-se. O jeito afável é o equilíbrio. A simpatia oferece à mulher de cabelos loiros inumeráveis acenos e cumprimentos ao longo dos dias. “Sempre estou jantando em bons lugares com meus amigos. Às vezes, só homens”, ri. “Conheço todo mundo, todo mundo me conhece e gosta de mim. Mando na rua. Amanhã é aniversário dos dois netinhos do dono da loteria e eu vou com a minha neta e a minha filha”, conta Ângela, que na bolsa carrega muito mais do que o que as mãos conseguem apalpar: “Está bom. Tenho saúde e boas amizades. É o que levo da vida.”