Com tradição, irreverência e alegria

A programação oficial do carnaval de Juiz de Fora pode até ser antecipada, mas algumas tradições nunca mudam. É o caso da Banda Daki, criada em 1972 no Largo de São Roque. A ideia de um grupo de amigos continua firme e forte, comemorando 45 anos de alegria no mesmo sábado de todos os anos. A concentração será na parte da manhã, com o prefeito Bruno Siqueira entregando a chave de Juiz de Fora para o general da banda, Zé Kodak, ao meio-dia. A partir daí, serão cerca de três horas de muita alegria durante o percurso até a Catedral Metropolitana, com direito às tradicionais marchinhas de carnaval – inclusive aquelas que muita gente quer censurar.
Se um dos criadores da Banda Daki, Zé Kodak, costuma ser a face mais conhecida da folia, quem fica responsável por liderar a banda de quase 20 integrantes, entre músicos e cantores, é Paulinho da Banda Daki, que cumpre a função pelo 13º ano consecutivo e sempre com grande alegria. “Nossa proposta é a do carnaval tradicional, com músicas antigas, que compõem 90% do nosso repertório. É uma emoção e uma grande responsabilidade também. Eu me sinto muito lisonjeado por fazer esse trabalho há tanto tempo com o Zé Kodak, que sempre acredita no meu trabalho.”
Paulinho garante que o povo poderá pular, cantar e dançar ao som de músicas que se fazem presentes nas festas de Momo há décadas. “Vamos tocar marchinhas, sambas-enredos e ranchos como ‘Não faz marola’, ‘Bandeira branca’, ‘Jardineira’, ‘Mamãe eu quero’ e ‘Pegando fogo’.”
E Paulinho não foge quando o assunto é a polêmica carnavalesca da vez: a decisão de alguns blocos por não executar antigas marchinhas como “Cabeleira do Zezé” e “Maria Sapatão”, que muitos movimentos sociais e a patrulha do politicamente correto consideram conter letras racistas, homofóbicas e machistas, entre outros argumentos. De acordo com o músico, a Banda Daki não tem restrição a tocar essas músicas, que constam do repertório há décadas. “Nós vamos tocar ‘O teu cabelo não nega’, por exemplo, que faço há mais de 40 anos. Pode ser que algum dessas não faça parte da nossa lista de músicas, mas o que está no repertório vai continuar. Só deixaria de fazer isso se houvesse alguma posição oficial que proibisse”, diz, acrescentando que considera a discussão válida.
“É uma questão de opinião. Respeitarei a opinião alheia se alguém chegar e reclamar, mas não deixarei de tocar. Vejo essas músicas como uma brincadeira, coisa de carnaval. Temos gente de todo tipo que gosta delas, sejam carecas, barrigudos, negros. Respeito quem levanta a polêmica, mas são minoria. Se lançassem algo novo em 2017 e visse que havia algo de errado, aí eu não tocaria”, afirma Paulinho.
De acordo com ele, até hoje ninguém fez reclamação a respeito do teor das letras das marchinhas, e ele só tomou conhecimento da polêmica este ano por meio do WhatsApp, quando começou a circular uma corrente que, em tom de brincadeira, trazia uma lista de marchinhas que deveriam ser “proibidas”. “Mesmo que houvesse dez músicas que não pudessem ser tocadas, elas não fariam falta, pois temos muito repertório.”
Saudade não tem fim
O progressivo desaparecimento dessas canções tradicionais, inclusive, é a coisa da qual Paulinho mais sente falta ao lembrar da folia de outrora. “Hoje você escuta sertanejo, rock, axé… O carnaval deveria ter só música de carnaval, há cidades da região que só tocam outros estilos. Sinto falta, ainda, dos clubes, que faziam quatro noites de bailes, duas matinês; isso acabou”, lamenta.
Nem tudo, porém, são cinzas. Prova de que o povo ainda gosta das marchinhas que passam de geração para geração é a agenda dos músicos da Banda Daki até o final do carnaval. Além dos eventos que já rolaram durante a semana, eles partem para Dores do Turvo ainda neste sábado, para agitar a festa na cidade, retornando na segunda-feira. No domingo, eles tocam na matinê do Clube Bom Pastor, com uma segunda dose na terça-feira. “Fazemos com muito carinho, e o pessoal contrata por saber que trabalhamos sério.”









