Adereços de contas pesadas

COME QUIETO (foto do carnaval de 2016) é retrato do fenômeno de crescimento exponencial ao qual alguns blocos da cidade se sujeitaram nos últimos anos OLAVO-PRAZERES

No país tropical, bonito por natureza, “em fevereiro, em fevereiro, tem carnaval. Tem carnaval!”. O calendário é para todos. Já a festa, só para alguns. Realidade em diversas cidades do país, a falta de investimentos públicos na folia tem gerado uma onda de cancelamentos e incertezas canto a canto. São João Nepomuceno e seu tradicional carnaval de rua é um desses municípios que, há quase um mês das festividades, ainda não sabe se blocos longevos, como o Barril, irão para a rua este ano. Por meio de nota, a prefeitura anunciou na última semana “não poder contribuir financeiramente para a realização da festa” devido a um quadro financeiro deficitário. A ausência da verba pública, fonte majoritária dos blocos e escolas de samba, coloca em risco toda a folia da cidade. Enquanto as agremiações decidiram por não desfilar, os blocos esperam garantir recursos mínimos para não cancelar a participação. Segundo Pedro Rezende, presidente da associação que gerencia o Bloco do Barril, a prefeitura financiava a infraestrutura, oferecendo a segurança e o trio elétrico, cujos valores são bastante altos. Pela primeira vez, em mais de quatro décadas, a banda pode não passar. “Em relação aos blocos, os empresários não estão se mobilizando. Eles querem fazer festa fechada, em clubes, mas não sabemos se será viável”, comenta Rezende, pontuando a importância do evento para o turismo local. O drama, no entanto, não é inédito. Há alguns anos São João Nepomuceno ensaia um carnaval frustrado. Em 2015, blocos e agremiações ameaçaram não desfilar diante de uma portaria da Justiça que obrigava os grupos a contratarem serviço de segurança particular, realizado por empresa credenciada pela Polícia Federal (PF), e inibia a distribuição de bebida alcoólica. Conhecido por seu barril com capacidade para cerca de dois mil litros de cachaça, distribuída gratuitamente, o bloco com suas rainhas caricatas – homens em trajes femininos – chega a reunir número semelhante à população da cidade de pouco mais de 25 mil habitantes. O impacto, garante Rezende, é indiscutível. O momento, porém, é de contenção (gesto que em nada combina com o suingue do carnaval), garantem gestores da região, que confirmam as festividades, mas também os contingenciamentos. Cinzas que surgem antes mesmo da quarta-feira.
De última hora
O carnaval vai acontecer? “Vai sim”. E como estão os preparativos? A resposta é uníssona: ainda não há nenhuma definição. Licitações, geralmente realizadas no final do ano, ainda nem foram abertas. Em diferentes municípios da região, existe a certeza da festa e a incerteza da programação. É assim em Rio Novo, onde sequer tem um responsável pelo evento no qual desfila o tradicional Bloco dos Malas, cujo “Mala do ano” foi eleito no último dia 14. Em Guarani, de acordo com informações da Secretaria de Educação, que responde pelas ações públicas culturais do município, ainda não foi realizada a licitação para contratação da empresa que fará a produção da folia. Blocos como o Melhorzin Que Tá Tenu, que desfila no sábado de carnaval, estão confirmados, assim como as apresentações das escolas de samba. Com o turismo participando ativamente da economia local, São João Del-Rei é reconhecida por seus casarões e ruas repletos de histórias. Secretário de Agropecuária, Marcos Froes, que também responde pela cultura na cidade histórica, acredita que o carnaval incrementa o turismo da região, formando um novo público para seu patrimônio. A festa que reúne 11 agremiações e cerca de 50 blocos de rua, segundo ele, “está pronta”, ainda que falte fazer a licitação da estrutura e o repasse aos grupos. O valor, no entanto, é o mesmo do ano anterior, cerca de R$ 300 mil. Em Mar de Espanha o valor também não mudou de 2016 para 2017, ainda que os serviços e equipamentos tenham sofrido reajuste, o que demonstra um encolhimento da folia. “A gente faz a festa já com um orçamento bem enxuto. Em média de R$ 110 mil a R$ 180 mil. Para o tamanho da festa, é um valor bem inferior ao que a gente gasta, por exemplo, com a exposição agropecuária”, reconhece a chefe da divisão de cultura e turismo da cidade, Marcela do Valle, destacando a baixa participação do empresariado local, que faz pequenas doações, como o fardo de cerveja que serve de premiação no Bloco das Piranhas. Enquanto o evento de temática rural convida atrações nacionais, como Anitta (um dos shows de 2016), o carnaval conta somente com artistas regionais. O investimento, garante Marcela, é inversamente proporcional ao impacto na economia da cidade. “A gente recebe muitos turistas no carnaval. A cidade fica muito cheia, e para o comércio é ótimo. Hoje, para você ter uma ideia, já não há vagas nos hotéis e pousadas. Aí a população começa a alugar suas casas”, conta a gestora, demonstrando que nos dias em que vale tudo, em que tudo é fantasia, prevalece o jeitinho.
Eu quero é tirar meu bloco da rua
Nem só de choro e de vela vive o carnaval da região, ameaçado por uma economia alarmante. E nem só de axé e samba vive o carnaval, garante o Bloco Jeguelétrico, a principal atração da folia em Visconde do Rio Branco. Do funk ao rap, a programação da festa, que vai do dia 25 a 28, conjuga Marcelo D2, Banda Axé Mondo, Thiaguinho, Nego do Borel e MC Marcinho. Com venda de abadás, numa mega estrutura montada no Parque de Exposições, cedido pela Prefeitura, o evento não conta com verba pública, apenas apoio logístico. No ano em que completa 20 anos, o bloco com cara de baile (ou micareta) espera, ainda, ampliar seu público. Segundo o presidente, Alarcom Teixeira Filho, a expectativa é pular dos 3.300 foliões do ano passado, para 3.500 este ano. “Temos um público muito grande de fora da cidade. Não dá para falar que será pior do que ano passado. Achamos, pelo contrário, que iremos crescer”, aposta ele. Numa tendência contrária ao título da conhecida música de Sérgio Sampaio – “Eu quero é botar meu bloco na rua/ brincar, botar pra gemer/ eu quero é botar meu bloco na rua/ gingar, pra dar e vender” – blocos e até agremiações têm se limitado fisicamente. A ideia é controlar, termo pouco usual para a Folia de Momo. Eduardo Machado, um dos organizadores do Bloco do Extintor, um dos mais famosos em Mar de Espanha, com 15 anos de história, garante ser esse um formato ideal. Paga quem gosta e deseja a folia. “Todos os custos do bloco são bancados pela própria organização. O bloco não gera nenhum ônus aos cofres públicos. Toda a logística do evento como segurança, tendas, alimentação, bebidas e pessoas que trabalham são custeados pelo bloco. O único apoio que é dado pela prefeitura é de ceder o local”, conta. Em Juiz de Fora, a “onda” de mudança tem seu representante no Bloco Come Quieto, um dos maiores fenômenos do carnaval de rua nos últimos anos. Incontrolável, o bloco que desfilava no Altos dos Passos decidiu, neste ano, fazer sua folia numa casa de shows na Avenida Deusdedit Salgado. Em apenas cinco anos, o grupo passou de pouco mais de três mil pessoas para mais de 20 mil foliões. Completando uma década de história, o Parangolé Valvulado também cresceu exponencialmente. Como consequência, ambos tiveram que ficar parados, num palco. A ausência de pretensões e a descontração ganharam o rigor de uma empresa. Enquanto alguns apontam para o processo de mudança como uma autofagia dos próprios blocos, que perdem o controle e rumam para a extinção, outros enxergam uma profissionalização saudável e urgente, tão sonhada pelos artistas. “Tudo ganhou um caráter formal demais. Não é uma empresa, porque não envolve lucro, mas envolve muitas despesas”, pontua Luiz Gustavo Maciel, um dos integrantes do bloco Come Quieto, citando gastos com bombeiros, segurança, sinalização, músicos, sanitários, entre outros itens, que, ano a ano, se mostram poucos diante de uma multidão crescente. “Nossa decisão não foi fácil, mas foi a mais responsável. Tomamos consciência do tamanho que o bloco chegou. Se até o ano passado tudo transcorreu dentro da normalidade foi porque tomamos todos os cuidados. Mas há um limite e uma vulnerabilidade. Ficou grande demais e, por isso, acabou perdendo a qualidade de segurança e musical”, afirma Luiz Gustavo, citando, ainda, o acordo do Come Quieto com a associação de moradores do Alto dos Passos, que em 2016 quase proibiu a festa.
Qual é a tradição?
De folia a folia, a tradição passou dos bailes ao desfile das escolas de samba e, recentemente, aos blocos de rua. Afinal, qual carnaval é tradicional em Juiz de Fora? Para Luiz Gustavo Maciel, do Come Quieto, a resposta são os bailes. “Juiz de Fora é uma cidade com tradição de bailes. Os blocos de rua são um modismo muito menos tradicionais”, diz. Ainda que limitado a um palco por dois anos seguidos, quando esteve na Praça da Estação, o Parangolé Valvulado deseja andar pelas ruas, na mesma energia das batalhas de confetes comuns no início do século passado na cidade. “Existe esse desejo”, garante Danniel Goulart, um dos integrantes, pontuando ainda não ter iniciado as conversas com a Prefeitura. Foram apenas dois pedidos a mais. Ainda assim, representa um aumento. Enquanto em 2016 a Prefeitura recebeu 64 pedidos de apoio a blocos, este ano soma 66 solicitações, que deverão ser avaliadas por uma comissão mista, com diversas secretarias, para os desfiles que começam em dez dias. O orçamento previsto para a divisão entre os blocos é de cerca de R$ 300 mil, 20% do total da verba disponibilizada pela Prefeitura para a folia. Enquanto em 2015, último ano dos desfiles, o repasse para o carnaval foi de R$ 2 milhões, este ano, reduziu para R$ 1,5 milhão. Segundo Luiz Gustavo Maciel, do Come Quieto, o formato de baile confere, de alguma forma maior autonomia, principalmente financeira, aos blocos. Sem o desejo de sair da rua, o Parangolé Valvulado experimenta o formato em ensaios abertos, como o que acontecerá no próximo dia 29, no Cultural Bar. Para Danniel Goulart, a cara do bloco é mesmo a rua, onde tudo começou. “Para variar, estamos entre o caos e a organização. Criamos no caos, mas como ficou muito grande tem que organizar”, brinca ele, contando já ter gravado o frevo-enredo que homenageia uma década de folia. “Minha opinião é de que o Parangolé é um bloco de carnaval e deve continuar sendo um bloco de carnaval. A gente quer continuar brincando na rua”, diz Danniel, referindo-se, ainda, à atenção para as responsabilidades e o desejo de que a festa seja só de alegrias. “Somos um bloco paz e amor.”









