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Haja tempo e dinheiro para tanta plataforma de streaming

Com a chegada do Star+, no final de agosto, assinar os principais serviços pode ultrapassar R$ 170


Por Júlio Black

19/09/2021 às 07h00

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Aumenta da oferta do número de serviços de streaming aumenta também os custos com entretenimento on-line (Foto: Fernando Priamo)

Há pouco mais de dez anos, exatamente em 5 de setembro de 2011, a forma de se assistir televisão no Brasil teve uma nova revolução. Foi nessa data que a Netflix, pioneira no serviço de streaming, passou a oferecer no país um catálogo com milhares de produções, entre filmes e séries. Por um bom tempo, ela reinou sozinha no setor, até os conglomerados de mídia perceberem que podiam criar suas próprias plataformas, ao invés de simplesmente fechar acordos com a empresa para ceder os direitos de suas propriedades intelectuais.

Gigantes de tecnologia como Amazon e Apple viram que também poderiam entrar na festa e criaram seus estúdios e serviços próprios.
O resultado foi a proliferação de serviços de streaming, sendo que no Brasil tivemos a chegada de três grandes players em menos de 12 meses: a Warner lançou em junho o HBO Max, enquanto a Disney marca presença desde novembro de 2020 com o Disney+ e ampliou seu espaço em 31 de agosto, com o lançamento do Star+.

Com essa avalanche de streamings, o consumidor precisou decidir o que assinar, ainda mais em tempos de gasolina batendo os R$ 7. Se ignorarmos promoções de lançamento, pacotes anuais ou combos, ser assinante das principais plataformas (Netflix, Prime Video, Disney+, HBO Max, Apple TV+, Globoplay e Star+) pode ter um custo mensal de R$ 171,30 – no caso da Neflix, com o plano que permite assistir a duas telas simultaneamente em qualidade HD. Ou seja: mais de 15% do atual salário mínimo, e a lista não inclui serviços menos badalados (Starzplay, Paramount+, MGM) ou considerados de nicho, como o Mubi e Crunchyroll.

Com opções múltiplas e dinheiro curto, muitas vezes resta ao cidadão e à cidadã apelar para duas opções. Uma delas vem da época que a Netflix não enfrentava concorrência: assinar por um período, assistir a tudo que interessa e depois cancelar. A outra opção é dividir o valor da assinatura com amigos ou parentes ou compartilhar login e senha de um serviço em troca de outro que não esteja assinando.

O negócio chegou a um nível de organização que existe um site, o Kotas, que permite que pessoas que não se conhecem dividam a conta. É o jeitinho brasileiro que permite acompanhar “The walking dead”, “Loki” e “La casa de papel” sem pagar muito ou entrar em sites corsários para baixar torrents. Ou, ainda, sem ter de apelar para as TVs Box, aparelhos que pirateiam a programação de TVs fechadas e serviços de streaming.

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Pelo trabalho, mas também por lazer

Seja pagando tudo sozinho ou dividindo/compartilhando com amigos, parentes ou desconhecidos, a pessoa que busca apenas uma opção de lazer pode se dar ao “luxo” de assinar o que o bolso aguenta ou o tempo permite. Porém, para quem precisa acompanhar todos os lançamentos, o buraco é mais embaixo.

É o caso de Robson Nunes, do site Vigília Nerd. Ele conta que assina Netflix, HBO Max, Disney+, Prime Video, Globoplay e Star+, pois, além do site, tem um podcast e um canal no YouTube que precisam ser alimentados com as análises dos principais filmes e séries. Apesar de não ser barato, ele diz que manteria os serviços mesmo que não tivesse a “obrigação profissional”, pois oferecem produções que despertam seu interesse. O lance, afirma, é colocar na ponta do lápis para saber quais plataformas agregam mais conteúdo para o assinante.

“Sou ‘marvete’, então gosto de assistir às coisas da Marvel (no Disney+); as melhores séries originais estão no HBO Max; e a Netflix tem a coisa de ser a precursora, mas hoje é a que está correndo por fora porque estamos assistindo menos. Geralmente assisto mais aos lançamentos, até porque tenho acesso a eles antes (para fazer as resenhas)”, diz, comentando ainda sobre o sentimento de “estou perdendo alguma coisa” que todo mundo tem quando não consegue acompanhar uma série que está bombando.

“Tem muita coisa que não dá para acompanhar. ‘La casa de papel’ (Netflix) é bem marcante, porque minha esposa viciou quando foi lançada e eu fui junto. Depois, na segunda temporada, assistimos aos primeiros episódios e paramos, porque achamos que estava tudo igual. Aí, quando lançaram recentemente a última temporada, veio essa sensação de que fiquei para trás. É o que aconteceu com outras séries, como ‘Mare of Easttown’ (HBO Max), que comecei a assistir só depois que terminou. Essa angústia é verdadeira, não temos como assistir a tudo.”

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Uma festa que não será para todos

Uma das características do capitalismo quando vários players competem no mesmo setor é que nem todos sobrevivem. No caso do streaming, empresas como Disney e Warner oferecem um catálogo que abarca décadas de produções clássicas e só encontram rivais à altura em poucos concorrentes, como a Netflix. Porém, plataformas com um acervo menos atraente em termos de volume, ou destinados a um público específico, podem se ver em desvantagem na hora do público fazer as contas do que vale assinar. Por isso, Robson acredita que podemos ter no streaming o estouro de uma “bolha” que vai reduzir as opções no futuro, seja pelo fim de alguns serviços ou sua absorção por competidores com mais bala na agulha.

“Acredito que daqui a dois anos algumas dessas plataformas não vão conseguir se manter. A Amazon oferece alguns desses serviços dentro do Prime Video como pacotes extras, caso do MGM, mas nem todo mundo quer pagar por eles, até porque nem sempre oferecem produções novas e originais. A Netflix, por exemplo, lança pelo menos dois filmes por semana, e as pessoas querem produções originais, então aposto que os principais players vão absorver os serviços menores”, opina.

Sobre a chegada de um novo competidor de peso – que poderia ser a Sony, um dos grandes estúdios a não ter seu próprio serviço de streaming -, Robson Nunes acredita que isso dificilmente deve acontecer, por conta da saturação que ele já observa no setor. “O HBO Max chegou com força por ter material da Warner, a Disney também veio forte depois de comprar as propriedades intelectuais da Marvel, Lucasfilm, Pixar, Fox. Acho mais fácil acontecer de uma empresa como a Amazon comprar um dos grandes estúdios, como ela já fez recentemente com a MGM”, analisa. “Ter espaço para outro grande player é complicado, porque é preciso ter muito conteúdo para bater de frente. Um caso à parte é a Globoplay, pois pertence a uma emissora de TV com décadas de conteúdo próprio, que oferece programação ao vivo, e está investindo em novas produções.”

E como fica a TV por assinatura nessa história? Para Robson, uma das poucas vantagens que o modelo atual de TV paga tem sobre alguns serviços de streaming são os eventos ao vivo, e que mesmo assim já podem ser assistidos na Globoplay, Star+ e HBO Max. “É um modelo que está perdendo assinantes. Acredito que a tendência seja fornecer pacotes com streaming incluído. Se não se reinventarem, terão muitas dificuldades, eu mesmo deixei de assinar. É preciso baratear os pacotes e incluir o streaming, pois além dessas plataformas ainda existe a questão da pirataria e downloads ilegais, pois o que não falta são alternativas para driblar os canais oficiais.”

Assinando, dividindo e compartilhando

Enquanto Robson Nunes precisa pensar no trabalho e lazer na hora de decidir quais serviços assinar, o “cidadão comum” também faz os seus malabarismos para ter o máximo de opções na hora de assistir a séries e filmes. O tradutor Rodrigo Aguiar assina Netflix, Prime Video, Star+, Disney+ e HBO Max, sendo que, nos três últimos, ele divide a conta com amigos. Ele diz que o excesso de opções nunca fez com que deixasse de assinar alguma das plataformas, e entre os motivos está a pandemia, uma vez que passa mais tempo sem ir para a rua. “Assistir a séries e filmes acaba sendo uma das principais distrações a que a gente pode ter acesso na segurança de casa”, afirma.

Quanto à enorme quantidade de plataformas que buscam conquistar o coração do público, Rodrigo observa que, feitas as contas, o valor pode facilmente ultrapassar a mensalidade de uma TV por assinatura, principalmente pelos preços cobrados por alguns players. “Esse último aumento da Netflix achei bem pesado (R$ 32,90 para R$ 39,90). Mas eu gosto muito da praticidade desses serviços, de poder assistir ao que quiser na hora e onde quiser, além do fato de poder fazer esse esquema de rachar com os amigos, ou pagar um mês para ver um conteúdo específico.”

O músico Ruan Lustosa, das bandas Alles Club e Basement Tracks, é assinante da Netflix e Telecine Play e faz parte da turma que não divide assinatura ou apelou para o “assino, assisto ao que quero e depois cancelo”, além de não se deixar levar pela angústia do excesso de opções. “Eu ainda não me rendo a essa pulverização, pois sigo baixando torrents para ver filmes e séries dos streamings que não assino”, diz.

Redes dinâmicas

O professor Felipe dos Santos Nascimento assina apenas a Netflix, mas tem acesso ao Prime Video, Disney+ e Globoplay graças a pessoas que passaram a senha para ele. “Até hoje fiz o esquema de assinar temporariamente uma vez, com a Netflix, mas gostei tanto que continuo assinando até hoje (risos). Mas tenho pensado em fazer isso com a HBO Max para assistir a ‘Gossip Girl’, até porque alguns serviços oferecem a opção de um período gratuito – como um mês, por exemplo.”

No caso da Netflix, ele acrescenta que divide a assinatura com outras três pessoas, atualmente, e que passa a senha para os irmãos, que assinam a Disney+ e retribuem a “cortesia”. Ele defende, assim como tantos, que esse esquema de “porteiras fechadas” que as empresas de streaming adotaram é péssimo para o consumidor. “É vantajoso para as elas, pois todos ganham um pouco. Seria bom se ficasse resumido apenas em um único lugar como era antes, com a Netflix. Poderia até aumentar o valor que ainda seria uma vantagem.”
Já o estudante de psicologia Lucas de Paula Pereira Freitas conta que ele assina, atualmente, Prime Video (mais pela opção de frete grátis da Amazon), HBO Max e Netflix, e o Spotify para ouvir música. Ele diz, ainda, que já fez o esquema de assinar um serviço temporariamente para acompanhar uma produção específica _ no caso, a Globoplay, para assistir ao “Big Brother Brasil” e que ele rachou a assinatura com amigas.

Sobre a obrigação de ter que assinar vários streamings para ter acesso ao que antes estava concentrado em apenas um lugar, Lucas opina que esse é um modelo importado das TVs por assinatura. “Partindo do pressuposto de modificações políticas de livre comércio e o neoliberalismo, acaba que os conteúdos lúdicos também se transformaram. O que antes pagávamos por canais fechados em uma grade fixa se transformou em redes dinâmicas de canais, modificando o monopólio da categoria por grandes empresas terceirizadas que vendem canais fechados”, analisa. “Somado ao imediatismo tecnológico, acho que os streamings representam uma necessidade da sociedade de poder escolher o que vai assistir, e quando.”

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