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Pintaram outro cenário


Por Mauro Morais

15/01/2017 às 07h00- Atualizada 16/01/2017 às 10h23

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Mostra com mais de 70 obras de 36 artistas contempla curso formado há quase meio século e sua atual configuração, voltada para linguagens contemporâneas (Foto: Fernando Priamo)

Para uma cidade que insiste em ancorar-se na Manchester Mineira, a exposição “Testemunhos possíveis” faz-se como convite à uma história atualizada. Enquanto as pinturas de paisagens desenvolvidas na Associação de Belas Artes Antônio Parreiras no início do século XX ajustam-se à imagem da cidade industrial e refinada do passado, são os trabalhos realizados entre a experimentação e a pesquisa na atualidade que dão conta de uma urbe cuja identidade, conectada, é parte de um contexto universal. Tomadas por professores, ex-professores, alunos e ex-alunos (36 artistas no total), todas as galerias do Museu de Arte Murilo Mendes propõem a reflexão de uma revolução silenciosa, porém colorida. O quadro, hoje, é outro, diz a grande mostra em celebração aos dez anos do Instituto de Artes e Design da UFJF, a escola contemporânea.

“Podemos falar na história das artes em Juiz de Fora em três momentos distintos”, comenta o curador da proposta e professor da instituição, José Alberto Pinho Neves, apontando para a Antônio Parreiras e sua pintura autônoma, assinada por nomes como Heitor de Alencar e Sylvio Aragão, como o princípio. Mais tarde, na década de 1960, surge a Galeria de Arte Celina, que “veio para ser contemporânea de todos os acontecimentos culturais e políticos daquela época, abrigando tudo o que refletia o momento”, do teatro à literatura, passando primordialmente pelas artes visuais da família Bracher, dona do lugar. O terceiro momento, por sua vez, “é a criação do antigo curso de desenho e plástica, que foi desaguar no instituto”.

De departamento do Instituto de Ciências Exatas a faculdade independente e, anos depois, instituto que engloba música, cinema, moda, design e artes visuais, o projeto acadêmico, segundo seu atual diretor, Ricardo Cristofaro, ganhou fôlego com a presença de professores-artistas-pesquisadores, perfil que contribuiu para a compreensão da produção artística como prática de pesquisa. Evolução, no entanto, com toda a carga pejorativa que o termo carrega em relação ao que já foi feito, não se enquadra nessa trajetória que, como mostra a exposição, desde seu princípio observou as vanguardas, que agora servem de esteio para o processo de aprendizagem.

“A palavra evolução no campo das artes visuais talvez não tenha a mesma conotação que poderia ter em outras áreas de conhecimento. É preciso ter cuidado ao pensar no que significa evolução. Vejo o processo do curso como uma atualização, no sentido positivo, que se dá na percepção de que o jeito de fazer arte se transformou ao longo dos anos. E essa mudança é uma reposta às questões do homem contemporâneo”, ressalta Cristofaro, destacando a multiplicidade de um corpo docente, refletida no currículo e nas turmas de alunos. A capacidade de abarcar diferentes práticas e fazeres conferiu ao curso conceito máximo, 5, na última avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Saber para subverter

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Francisco Brandão subverte Pietá e Mondrian (Foto: Fernando Priamo)

Uma das críticas mais comuns, e de certa forma pertinentes, a arte contemporânea é a ausência de domínio das linguagens clássicas, como pintura e cerâmica, ambas levadas a novas direções por jovens nomes saídos do Instituto de Artes e Design como Tiago Macedo, hoje residente em Belo Horizonte e cuja pintura trafega por investigações da forma, da matéria e de um discurso íntimo e sensorial. Não há, ali, uma gratuidade nas representações, um registro puro e simples, mas um desejo por narrar cenas, gestos e atos absolutamente sensuais. De forma distinta procede Guilherme Melich, que também se decide pela tinta, mas faz do próprio movimento de pintar uma parte significativa de seu trabalho. Como a retomar a passionalidade do norte-americano Jackson Pollock ou a catarse do brasileiro Iberê Camargo, Melich cria imagens e também performances em seus quadros.

Já a ceramista Adriana Lopes transcende o utilitário e pesquisa formas de o barro suportar, em altas temperaturas, fendas e dobras, assim como desenhos sutis feitos em esmalte. Renato Abud, de outra geração de alunos, também se faz um alquimista de novos objetos, que conjugam tanto o que é feito por ele, no ateliê, quanto o que é apropriado de outros criadores, que servem aos seus desejos de falar das tensões entre o que é e o que poderia ser. Um de seus trabalhos expostos, por exemplo, mostra uma caixa, com vidro que não permite a nitidez, e sobre ele pequenos pedaços de livros. À primeira vista, a obra é a descrição. À segunda vista, a obra é o repertório cultural dos seres.

Francisco Brandão, com sua Pietá pintada com uma tela geométrica de Mondrian – o emocional e o racional -, demonstra a força das referências que a formação acadêmica é capaz de transmitir. Ainda que a fruição da arte se dê, inicialmente, pela comoção, são os vestígios de conhecimento que a fixam na memória. “Existe o conhecimento formal que permeia as disciplinas e geram a formação acadêmica, mas se os dois setores não se entregarem ao empirismo, pouco evoluem”, confirma o professor e também ex-aluno Afonso Rodrigues. “Estudar a história da arte foi fundamental. É óbvio que o que vemos no meio acadêmico é um recorte do que é arte: basicamente européia, erudita (rica) e machista, mas, mesmo assim, existiram momentos de quebra e questionamento em relação a isso, e esses momentos foram os mais ricos, por estimularem a visão crítica dos alunos, inclusive em relação ao sistema e circuito das artes visuais”, concorda Melich.

Aos mestres, com carinho

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Trabalho de Priscila de Paula, que lança mão de performance, crochê, pintura, dentre outras linguagens, é influência direta para muitos dos jovens alunos da instituição (Foto: Fernando Priamo)

Nenhuma criação é uma ilha. E os mestres, com seus trabalhos, dizem isso em “Testemunhos possíveis”. Todo rio tem sua nascente. “A faculdade me abriu para uma questão estética e ampliou meus horizontes, me dando referência para o trabalho”, aponta o ex-aluno e um dos responsáveis pela expografia da mostra, Paulo Alvarez, que bebe da fonte de Valéria Faria, que bebe da fonte de Ricardo Cristofaro, que bebe da fonte de Leonino Leão. Assim, vários círculos se formam. A jovem Letícia Bertagna, por exemplo, uma das últimas professoras a chegar para lecionar no instituto, está fartamente presente no trabalho de Matheus de Simone. Ambos criam histórias através de cenas banais. Ela exibe, em sua série, uma fotografia de um lembrete com a inscrição “esquecer”. Ele registra, tambérm numa série, uma bengala deixada na beirada de uma estrada.

“Antigamente, quando éramos alunos, não havia internet. Eram poucos os cursos de mestrado e doutorado pelo país. Tudo era mais difícil. Esse acesso facilitado e mais amplo reflete na produção desses meninos. Eles estudam mais, fazem trânsito de ateliês, por isso é uma produção mais antenada com o momento”, pontua a professora e pró-reitora de Cultura da UFJF, Valéria Faria. “Uma questão é a mídia contemporânea, outra é a técnica contemporânea. A gravura, a escultura, a cerâmica são linguagens que têm uma técnica que precisa ser colocada a serviço da ideia. O conhecimento técnico é muito importante para a renovação”, acrescenta José Alberto Pinho Neves, dando margens a apreensão do trabalho da professora Sandra Sato, com sua agigantada ampulheta cheia de desenhos-fendas e produzida no frágil barro queimado em alta temperatura.

“O conhecimento da arte, seja da história, sociologia, teoria e crítica, é tão importante quanto aprender as técnicas de desenho, pintura, escultura, fotografia, etc. O trabalho que realizamos como artista passa por todas essas áreas, que são relevantes para a compreensão do que desejamos expressar com nossas proposições artísticas”, afirma Gustavo Machado, autor de objetos híbridos, entre o martelo, a pá e outro utensílio do dia a dia, feito de madeira e metal.

Recorte que dá conta da trajetória de uma escola, “Testemunhos possíveis” pinta a história recente das artes visuais em Juiz de Fora, afirmando que o presente tem o mesmo tamanho do passado e o mesmo peso do futuro.